sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
O abraço sem fronteiras
segunda-feira, 13 de abril de 2009
A menor distância entre dois pontos não é uma reta...é um sonho
Sonhar enquanto lemos livros, desde criancinha, é algo bem corriqueiro. Fazer com que livros transformem a realidade, no entanto, não é pra qualquer um.
A vida me deu a oportunidade de conhecer Aldo e, naturalmente, de admirá-lo.
Deixo como mensagem a crônica em que meu amigo narra como conseguiu comprar uma casa a partir da venda de livros e de muita ajuda amiga.
O projeto que já fez alguém muito feliz, hoje permite que livros usados sejam solidários a dor alheia.
Reciclagem Fina
Há dois anos, tive uma dessas idéias que nascem dentro da gente como rodamoinhos de agosto. Do nada, começam a girar. Como se dançassem apoiados em uma perna, vão girando em torno de um ponto, cada vez mais rápido, arrastando para sua rotação tudo que está em volta.
A idéia era comprar uma casa para um rapaz que vende livros usados na rua, revendendo os livros. A resposta foi tão rápida que, em seis meses, a família do Jorge estava na casa nova. Muitos amigos participaram, comprando, incentivando, doando livros e dinheiro.
Casa do Jorge
Pensei que a compra da casa esgotaria o trabalho com os livros. Que o vento se dissiparia, transformado na felicidade de saber que, como diz a nova esperança e ousadia dos americanos - "sim, nós podemos". Juntos, podemos muito. Mesmo que "juntos" identifique apenas um grupo de pessoas com um objetivo comum.
O que não imaginava era que o fim do projeto - a compra da casa - se configurava em um novo portal. Que o meio para chegar lá é que era a grande descoberta. Que se abria uma possibilidade real de dedicar parte do meu tempo a uma reciclagem fina.
Posso juntar papel, plástico, vidros... e encaminhá-los para reciclagem. É a primeira e mais simples atitude de quem quer continuar o mais tempo possível neste planeta (não falo enquanto indivíduo, mas enquanto espécie). Mas, descobri que posso dedicar parte de meu tempo e transformar livros usados em casas, em doações, em qualquer coisa digna. Desde que minha pretensão seja do tamanho de minhas possibilidades, da motivação que me traz a possibilidade de olhar para o nós em vez de ver o meu umbigo como centro da vida.
A decoração bonitinha que imaginava ter no apartamento onde moro, quando da mudança, foi substituído por um acervo de livros que me tomou todos os espaços disponíveis. Não há caos, não há amontoados, mas não há lugar para projetos que não levem em conta os mais de 2.000 livros atualmente existentes, que me olham com uma cumplicidade reconfortante.
Hoje, não faria um novo projeto do tamanho que foi o de comprar a casa do Jorge, porque exige um esforço, dedicação, disposição para ficar o tempo todo na cola dos amigos. E não fazer mais nada além de catalogar, organizar, limpar...
Também não doaria totalmente o produto das vendas, porque mantê-las tem um custo.
No entanto, há sempre um pequeno projeto ou instituição necessitando de uma força, de um empurrãozinho na hora que a torneira das contribuições mingua. Ou mesmo uma pessoa que precisa de um abraço.
Na última enchente em Santa Catarina, a Marília, que participou comprando, doando livros, divulgando o projeto primeiro, mandou uma mensagem sobre uma comunidade de Itajaí que estava literalmente afogada. Claro que, além de uma doação, divulguei para os meus amigos o pedido. E muitos responderam com o coração, ampliando a solidariedade.
Edna - Uma mulher especial
Nos últimos dias, uma amiga que mora no interior de São Paulo, a Edna, que também participou do projeto da casa do Jorge, me contou que a filha de 20 anos está precisando, urgentemente, de uma bateria de exames médicos, para tentar descobrir a causa e a cura de uma doença que provoca desmaios com freqüência. Uma das consequências é que a imprevisibilidade e constância dos desmaios impedem a garota de trabalhar. Ninguém emprega ou a mantém em qualquer emprego depois de algum tempo.
A Edna é a solidariedade no seu sentido mais puro e permanente. Está sempre lutando contra um turbilhão de problemas e, mesmo assim, tem sempre uma palavra, um carinho, uma ajuda efetiva para algum vizinho ou mesmo um casal de passarinhos que se aninha nas árvores de sua casa. É sempre um porto seguro, apesar das provações da vida e, entre uma crise e outra, pinta belíssimos quadros.
Apesar de uma vida de dificuldades, que lhe mina as economias, a Edna se mantém firme no comando do navio de sua vida, vencendo as tempestades com a firmeza e o sorriso de quem acredita que neste planeta estamos mesmo de passagem. Os tantos "nãos" que recebe são reciclados na oficina amorosa que ela teceu ao longo dos anos, inspirada nos seus mestres espirituais, e transformados em SIM, sempre que alguém precisa de seus cuidados. Sem dinheiro para ajudar às vítimas de Santa Catarina afogada, ela se prontificava a recolher e levar as doações dos vizinhos para os postos de recolhimento.
Seu exemplo e firmeza me servem de estímulo e fé. Então, resolvi dedicar a venda dos livros para conseguir os R$ 800,00 necessários para os exames da filha.
Não vou falar com nenhum amigo, em especial, dos livros que tenho na minha "livraria", agora permanente. Não vou pedir que comprem qualquer coisa. Cada um descobre seus próprios caminhos. Cada um se alimenta de suas próprias crenças. Minha intenção é dizer-lhes que o projeto continua e que, se algum livro lhes interessar, se preferirem adquiri-lo comigo invés de comprar num sebo qualquer, o porto está aberto, os livros expostos, as listas (mesmo que sempre bastante desatualizadas pelo fluxo de livros que entra e sai) continuam à disposição. Tenho vendido também através do site www.estantevirtual.com.br., que é uma revolucionaria forma de democratizar a leitura e circulação de livros. Vale a pena conhecer.
Para ver os livros que mantenho à venda no site, basta colocar no google: Aldemisio ou ir direto para o link
http://www.estantevirtual.com.br/acervos/aacorde. Eles remetem para o site, já aberto no acervo. No site, vendo no máximo, 200 livros. Em casa, todo um acervo constantemente ampliado. Aos interessados, enviarei as listas divididas por estante.
Ainda ecoa na minha mente a frase dos americanos: "sim, nós podemos." Tomara que eles e todos nós coloquemos em prática esta crença, transformando-a em caminhos para a libertação dos nós que nos mantém com a sensação de impotência e de descrença e para a conquista da felicidade possível, através da solidariedade e do amor, a cada momento.
Aldo Cordeiro
“Tenho amigos tão bonitos. Ninguém suspeita, mas sou uma pessoa muito rica.” Caio Fernando Abreu
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Choque de Ordem
Quando o novo prefeito do Rio anunciou que faria um choque de ordem na cidade, muitos de nós, os moradores daqui, gostaram da idéia. Ninguém pode negar que o Rio esteve abandonado nos últimos anos em questões urbanas básicas: saúde, educação, transito caótico, vendedores de ruas em excesso etc.
No caso dos ambulantes, o que eu imaginava, no entanto, seria uma ação mais inteligente, mais humanitária, que levasse em conta não apenas a imagem das ruas vazias, mas a situação social em que estes trabalhadores ficariam após o anunciado choque.
Todos os dias, fala-se de crise econômica, de desemprego, de pessoas vivendo à margem da sociedade. Com a fachada de melhorar a imagem da cidade, o que os agentes da Prefeitura têm feito é um verdadeiro assalto a milhares de pessoas que vivem vendendo pelas calçadas.
Não foi feito qualquer levantamento anterior, um mapeamento por bairro para saber quem poderia continuar vendendo ou quem não poderia. Não foi dado um prazo e criado facilidades burocráticas para que alguns desses camelôs regularizassem sua situação. Ninguém perguntou aos moradores dos bairros se eles querem que todos os ambulantes saiam de seus pontos. Aqui no Flamengo, por exemplo, tem alguns que vendem seus produtos há dezenas de anos e são queridos pelos moradores. Por que devem ser simplesmente varridos da paisagem?
Foi mais simples para a Prefeitura empurrar todas essas pessoas para uma situação de crise social mais aguda.
Caberia uma pergunta aos idealizadores destas ações: que alternativa o governo municipal oferece a esses trabalhadores depois de tomar os seus produtos? Que novos postos de trabalhos serão abertos para absorver essa mão de obra? Porque é lógico imaginar que eles querem trabalhar, pois era isso que faziam antes da nova tropa de choque jogar a sua fonte de renda em cima de um caminhão da empresa de limpeza, como se fosse lixo.
Seria interessante saber se as forças políticas que se dizem ligadas aos interesses do povo e que apoiaram a eleição do novo prefeito concordam com as ações na forma que vêm acontecendo. E saber se as entidades que normalmente se pronunciam sobre questões sociais estão acompanhando a ação dos agentes policiais.
Para colocar ordem na cidade, não basta agir como se faz em um cemitério ou em um quartel (até porque, no quartel, o soldo e o rancho estão garantidos). É preciso levar em conta as necessidades e possibilidades de sobrevivência digna dos que habitam o espaço público, muitas vezes por falta de outras opções.
Aldo Cordeiro, Rio de Janeiro, 09 de janeiro de 2009
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Quem é o bandido?
Madrugada do dia 17 de setembro de 2008. Faz bastante frio em Passo Fundo, cidade do Rio Grande do Sul.
Um casal estaciona um carro, na porta de um bar, e entra. Esquecer o cotidiano bem acompanhado, um vinho a dois... nada melhor para manter a relação aquecida. Se tivessem que tomar conta, apenas, deles mesmos no mundo, seria fácil esquecer tudo àquela hora.
Enquanto isso, o Dimas procura um carro pra roubar. Este é o seu "trabalho": vive roubando carros largados por casais apaixonados nas calçadas da cidade. Fácil. Naquela noite fria, pouca gente circulando, basta escolher o carro ideal e ir embora. Nem precisa fazer "teste drive", perguntar nada ao vendedor, pensar se tem dinheiro suficiente pra adquirir o veículo. Basta entrar e ir embora, feliz. Com tantos ladrões espalhados por este Brasil, o Dimas seria mais um a manter a vida à custa do trabalho dos outros.
Mas... no meio da história havia uma criança. E foi o que Dimas percebeu quando olhou pro banco de trás do carro, algum tempo depois do roubo.
Antes que alguém lembre daquela criança que foi arrastada pelas ruas do subúrbio do Rio, presa pelo cinto de segurança, eu conto o que fez o nosso ladrão.
Parou imediatamente. Procurou um telefone público e ligou pra Brigada Militar.
- Seguinte, ó: eu vou ser bem sincero contigo, tá? Eu roubei um carro ali, tá? Agora. E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara! E eu não vi, entendeu?, não vi..."
Então o que que eu fiz? Eu peguei o carro e botei o carro atrás da ENAVE, tá? Então tu manda uma viatura lá e manda o "filho da..." do pai dele pegar ele e levar pra casa. Um piazinho, tá?
E continua:
- É um monza. Tem um piazinho dormindo no banco de trás, tá? E diz pro "filho da..." do pai dele pra não ir..., pois da próxima vez que eu pegar aquele auto e tiver o piá lá, eu vou matar ele..."
O Dimas tem filho? Ninguém sabe. Sumiu na noite, anônimo, revoltado, frustrado, a pé... querendo matar o "filho da..." do pai de uma criança de cinco anos que é deixada num carro, na rua, numa madrugada fria. O piazinho, filho do ladrão, se existir, não seria abandonado assim, à mercê da proteção de ladrões de carros. Estaria em casa, bem agasalhado por um bom pai.
Notas:
1. O ladrão não falou o nome, por questões óbvias. Não vai deixar a "profissão". Parte do coração dele é de um pai exemplar. Parte ainda vai continuar roubando. Utilizei o apelido Dimas, que era o nome do bom ladrão, aquele que foi crucificado ao lado de Cristo.
2. "Piá" é como o povo do sul do Brasil se refere à criança e adolescente.
2. Ouvi a notícia no Jornal das Dez, do canal Globo News. Se alguém quiser ouvir o telefonema do ladrão, aí vai o endereço:
http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=34332&channel=49
Aldo Cordeiro, meu amigo cronista.
