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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pessoa e seus heterônimos


"...É sério tudo que escrevi sob os nomes de Caeiro, Reis, Álvaro de Campos.
Em qualquer destes pus um profundo conceito da vida, diverso em todos os três,
mas em todos gravemente atento à importância misteriosa do existir."

Fernando Pessoa, In Carta a Armando Côrtes-Rodrigues, 19-janeiro-1915

sábado, 25 de agosto de 2012

Fernando Pessoa: uma quase autobiografia


Quando li sobre o lançamento do livro não me interessei em adquiri-lo, percebi em alguma fala um certo preconceito em relação à Personalidade de Pessoa.
Posteriormente li uma entrevista com o autor e mudei meu ponto de vista em relação à obra.
Estou encantada com a leitura. Além de conhecer mais detalhadamente a obra de Pessoa seu conteúdo é uma verdadeira aula de História.
Recomendo!


Sinopse:
Fernando Pessoa: uma quase autobiografia é a mais completa obra de referência das muitas personas assumidas pelo poeta português. Seus heterônimos, muitos deles desconhecidos do grande público, revelam-se no livro de José Paulo Cavalcanti com riqueza de detalhes, apresentando a produção e as origens de cada um desses que habitaram o imaginário e a escrita de Fernando Pessoa. Desde a sua morte, em 1935, mais de seis mil livros foram publicados sobre a obra do escritor português, mas biografias só existem três (1950, publicada em Portugal; 1986, na Espanha, e 1996, na França), além de uma fotobiografia, que fará parte da exposição.

Fernando Pessoa morreu aos 47 anos e passou a maior parte deles em Lisboa. Sua vida, voltada inteiramente para a arte, despertou em Cavalcanti o desejo de reverberar versos como o de sua persona mais famosa, o poeta Álvaro de Campos: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” E foi com essa determinação que o escritor pernambucano dedicou os últimos 10 anos à vida e obra do poeta.

José Paulo Cavalcanti conheceu a obra de Fernando Pessoa em 1966; o primeiro poema que leu foi Tabacaria. “Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime”, confessa. “Tenho inclusive a sensação de que gostava dele ainda mais naquele tempo. Talvez porque todo começo de paixão seja assim mesmo, depois arrefece; ou então, como o rio de sua aldeia, ele apenas pertencesse a menos gente.”

Segundo o autor, à medida que mergulhava na obra de Pessoa, suas inquietações foram crescendo. Quem foi o homem Fernando Pessoa, como ele vivia, com quem se relacionava, quem foram as personas que ganharam vida com ele, para citar apenas algumas delas. Uma das grandes revelações do livro refere-se justamente aos heterônimos, que, segundo José Paulo Cavalcanti, são 127 (e não 67, como se acreditava até agora).

Mergulhado na vida do poeta, Cavalcanti foi compreendendo melhor aquele homem inquieto, suas angústias e a dimensão de sua obra. Em Lisboa, conversou com pessoas que o conheceram, tocou papéis escritos por ele, visitou as casas onde morou e, em frente à escrivaninha do seu quarto, chegou a imaginar que o via escrevendo O guardador de rebanhos.

“Na verdade, o que fiz foi escrever a biografia de Fernando Pessoa que eu gostaria de ler”, sorri José Paulo Cavalcanti, diante do livro pronto, fruto de oito anos de trabalho e cinco horas diárias de escrita, “sem falhar um dia”.

“Desde que comecei a me aprofundar no universo de Pessoa, fui colecionando dúvidas que não conseguia solucionar. Então resolvi fazer isso eu mesmo. Ocorre que foi o próprio Fernando Pessoa quem escreveu praticamente o livro todo. É mesmo uma (quase) autobiografia, como diz o título”, brinca, referindo-se às centenas de frases e citações do poeta, compiladas e utilizadas no texto, sempre com aspas. “O resto foram depoimentos de pessoas que conviveram com ele e apenas algumas contribuições minhas.”

O advogado pernambucano foi atrás de cada detalhe da obra para revelar o biografado. “Ninguém imagina que possa encontrar na rua, por total acaso, alguém que conviveu com Fernando Pessoa. Pois não é que eu encontrei?”, conta o autor. “Eu lia e pesquisava, lia e pesquisava. Toda vez que encontrava num poema qualquer referência, ia procurar para saber se aquele lugar, ou aquela pessoa, existia de fato. E era batata: existia mesmo. Acabei chegando à conclusão de que Fernando Pessoa foi o escritor mais sem imaginação com quem tive contato em toda minha vida. Ele viveu tudo o que escreveu, não inventou nadinha!”

José Paulo seguiu todos os rastros possíveis de Pessoa, homem de vida metódica e circunscrita a uns poucos quarteirões de Lisboa - a casa, o trabalho, os cafés que freqüentava. Mesmo assim, a faina de compor os detalhes e encontrar as respostas que procurava levou o autor a fazer, em média, cinco viagens por ano a Portugal, onde contratou os serviços de pesquisadores, historiadores, consultores e de um jornalista, para verificação dos fatos.

Em paralelo às pesquisas, José Paulo foi reunindo documentos e peças do acervo de Pessoa, adquiridos de parentes e até mesmo de uma sobrinha de Ofélia Queirós, a grande paixão do poeta. O resultado é um acervo que será talvez o maior reunido sobre o poeta, fora de Portugal. Parte desse acervo estará em exposição na exposição “Fernando Pessoa: plural como o Universo”, cuja inauguração coincide com o lançamento do livro.

Ao longo de toda a obra, José Paulo Cavalcanti traduz e explica, para o leitor brasileiro, cada expressão portuguesa usada, tanto na obra de Pessoa como em depoimentos ou outros registros. “Tem gente que não concorda, mas eu acho essencial para que todo mundo possa entender exatamente o que Fernando Pessoa quis dizer, no caso dos poemas, e também o sentido exato de depoimentos e registros.”

Fernando Pessoa: uma quase autobiografia é o registro desse encontro de vida inteira, sob ângulos completamente novos, pessoais mesmo. Se é o livro que Cavalcanti gostaria de ter lido, é também o livro que Fernando Pessoa escreveu ao longo da vida, sem perceber - e que José Paulo recolheu, cuidadosamente, pelos caminhos do tempo.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz


19-6-1920

Meu Bebé pequenino:

Ainda talvez podia ir esperar-te lá acima, mas não me disseste onde, nem me dás a certeza das horas. Não quis telefonar-te por duas razões — a primeira porque é desagradável telefonar assim, mesmo dando um «recado» fingido, para uma casa onde é o teu primeiro dia; depois porque não tenho telefone, de onde fale sem me ouvirem, e não quero falar-te de modo que outros ouçam. Os três telefones, onde às vezes falo, são, um no Café Arcada, e aí falar é falar em público; outro, na Papelaria Vieira, que está nas mesmas condições; o terceiro num escritório onde vou e esse telefone é no meio do quarto principal, onde estão os empregados.
Aguardo, pois, combinação melhor e ocasião propícia para te falar e ir esperar para os lados da Av. Almirante Reis.
A empresa continua em organização. Eu estou mal de saúde e de nervos, mas isso não tem importância. Mal tenho tempo para escrever.
Amanhã passo na tua rua, vindo da Baixa, e portanto do lado do Conde Barão, entre o meio-dia e meia hora e a uma hora.
Adeus, minha Íbis. Além de tudo estou muito cansado.
Muitos beijos do teu, muito teu

Fernando

In, Cartas de Amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz

terça-feira, 24 de julho de 2012

Intervalo doloroso


Intervalo doloroso

Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.

Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, como um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.

Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso tocar.

Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? E quem é triste não pode esforçar-se.
Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.

Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! Qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.

Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam a alma dentro.

 A minha vida é como se me batessem com ela.

Fernando Pessoa. O livro do desassossego, Fragmento 80

domingo, 10 de junho de 2012

Containers poéticos









Em Porto de Leixões, Matosinhos, Portugal, os containers exibem fragmentos de “Ode Marítima” de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

domingo, 3 de junho de 2012

Sobre Fernando Pessoa


Sobre Fernando Pessoa
Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.
José Saramago, Outros cadernos de Saramago

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Viagem nunca feita

Foto: minha


E assim escondo-me atrás da porta, para que a realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde, subitamente, prego sustos à possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam – o tédio de poder viver só o real, e o tédio de poder conceber só o possível.

Triunfo assim de toda a realidade. Castelos de areia, os meus triunfos?... De que coisa essencialmente divina são os castelos que não são de areia?

Como sabeis que, viajando assim, não me rejuvenesço obscuramente?

Infantil de absurdo, revivo a minha meninice, e brinco com as idéias das coisas como com soldados de chumbo, com os quais eu, quando menino, fazia coisas que embirravam com a idéia de soldado.

Ébrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver.

Fernando Pessoa , In O Livro do Desassossego.



sábado, 13 de junho de 2009

121 anos do nascimento de Fernando Pessoa

"Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas".

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa.



sábado, 10 de maio de 2008




O rio da minha aldeia


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.


O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está.
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.


Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.


O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos


sábado, 26 de abril de 2008

Fernando Pessoa - Tribalistas

"Regra é da vida que podemos e devemos, aprender com toda a gente. Há coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos, há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.
Em certos momentos muito claros da meditação, como aquele em que, pelo princípio da tarde, vagueio observante pelas ruas, cada pessoa me traz uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para mim.
Mas passeio calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens, casas, pedras, cartazes e céu, somos uma grande multidão amiga, acotovelando-se de palavras na grande procissão do destino"

(Fernando Pessoa - Livro do Desassossego - fragmento 357)

E foi na procissão do destino que nos encontramos e estamos juntos solidificando uma amizade que nasceu na comunidade Fernando Pessoa e hoje se fortalece no nosso cantinho.