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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Desembarga-Dor


Há algum tempo venho questionando determinadas decisões judiciais, que me fazem desesperançosa  na imparcialidade da justiça.

Através de um amigo conheci alguns artigos do Professor João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, escritor, autor de 39 livros que relata sua vivência jurídica com os olhos da ética, da generosidade e da solidariedade. Acendeu em mim a esperança de um novo tempo.

Há alguns meses  recebi por e-mail a decisão de um desembargador que me deixou orgulhosa de ser contemporânea do Dr. José Luiz Palma Bisson.

Com referência ao caso em questão deixo para reflexão um pensamento de Anatole France: “Os seres humanos estão sempre se matando por causa da palavra, ao passo que, se tivessem compreendido o que elas queriam dizer, ter-se-iam abraçado uns aos outros”.

Regina Coeli Carvalho
s.d

Desembargador do TJ/SP dá verdadeira aula de humanismo

Abaixo, a decisão do desembargador José Luiz Palma Bisson, do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferida num recurso de agravo de instrumento ajuizado contra despacho de um magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da justiça gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de atropelado por uma motocicleta.

O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário-mínimo, mais danos morais decorrentes do falecimento do pai. Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo, o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O juiz, porém, negou-lhe o direito, argumentando que ele não apresentara prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por "advogado particular".
Eis o relatório de desembargador:
"Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro - ou sem ele , com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna.
Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em pau-brasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.
Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é.
O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.
Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres.
Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d?água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.
Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos?
Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir.
Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal.
É como marceneiro que voto.
José Luiz Palma Bisson - relator sorteado"
Fonte: http://www.oab-rj.org.br/index.jsp?conteudo=15197

domingo, 22 de abril de 2012

O Alcoolismo – a doença da negação







Dois cafés e a conta....com Claudio Leite
Por Mario ventura, Revista O Globo 08 de Abril de 2012

Claudio Leite era o maior cirurgião infantil do país. Palavras do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho. Claudio perdeu a conta das vidas operou. Teve época em que parei, a mão tremia que salvou. Integrou as três maiores associações pediátricas do mundo. Criou uma técnica de entubação traqueal de recém-nascidos e desenvolveu cuidados pioneiros no pré e no pós-operatório. “Em uma época em que operar recém-nascidos e devolvê-los aos pais era praticamente um milagre, ele, com seus anestesistas e assistentes, resultados surpreendentes”, diz Rosa Célia, criadora do Pró-Criança Cardíaca. Por trás do sucesso, reconhecido no Brasil e no exterior, escondia-se uma doença que só a família sabia: alcoolismo. No dia 25, às 19h, ele lança rua na livraria Timbre o livro “Alcoolismo — doença da negação” (Editora Lacre). Aos 83 anos, mais de 20 como alcoólatra, Claudio está há 14 sóbrio, desde que entrou no Alcoólicos Anônimos (AA).
“Durante anos sofri e me destruí, destruí minha família, minha profissão e cheguei à solidão extrema e à completa desmoralização. Estou me expondo
muito com o livro, mas o benefício que ele pode trazer para quem é alcoólatra e ainda não se identificou com a doença compensa a quebra do anonimato.”

REVISTA O GLOBO: Como o senhor começou a beber?
CLAUDIO LEITE: Tomando um uisquinho à noite, para relaxar e descontrair. O alcoólatra se justifica: “Hoje trabalhei muito, mereço.” Bebia moderadamente. Mas o alcoolismo é uma doença de progressão lenta. Entre beber porque quer e porque precisa há um espaço muito grande de tempo. E há a negação. Dificilmente o alcoólatra admite que está bebendo demais. Passei anos bebendo sem controle e sem consciência dessa doença gravíssima, que mata mais do que o câncer e a Aids. O álcool é aceito pela sociedade, identificado à beleza e ao sucesso, mas há mais de 60 doenças secundárias associadas a ele.

Por que o senhor precisava beber?
Essa ideia de que você bebe porque tem um sofrimento muito grande é coisa do passado. Por séculos, o alcoólatra era aquele morador de rua, cheio de apelidos pejorativos, como pé de cana e pudim de cachaça. Acreditava-se que era vício, defeito de caráter, falta de força de vontade ou loucura. Mas é uma dependência química que afeta os componentes físico, mental e espiritual. Espiritualidade não é religiosidade, é uma força interna que nos mantém bem nós mesmos. E há uma herança genética. Eu tinha avô, tio, irmão, primo alcoólatras.

Como o senhor conciliava a medicina e o álcool?
 Procurava não beber na véspera de cirurgia. Meu amor pela Medicina era tão grande que suplantava a vontade de beber. Nunca entrei num centro cirúrgico bêbado. Um dia, com o  paciente já na mesa de cirurgia, liguei para meu assistente e disse que não tinha condições. Ele operou. Teve época em que parei, amão tremia muito, estava completamente doido. Em 1978, se tive um infarto. Não quis ficar internado, porque não poderia beber. Fui para casa e bebia uma - garrafa e meia de uísque por dia, infartado.

Como isso se refletia na sua família?
Nenhuma outra doença tem a capacidade de destruir a família como o alcoolismo. Minha mulher já quase não falava comigo. Há dez anos não dormíamos juntos, porque ela não agüentava meu bafo. A angústia e o sofrimento eram brutais. Eu tinha mania de arma, fiz tiro ao alvo. Um dia meu filho tirou tudo de casa, porque eu já estava com intenção de dar um tiro na cabeça. Diziam: “Claudio é mulherengo, adora mulher.” Não. Você adora a mulher que não fica dizendo: o “Não beba.” Por isso eu ia para motel e ficava dois, três dias com prostituta, para beber.

Como foi o processo de recuperação?
Minha família já tinha feito várias tentativas para - eu ir ao AA, mas eu, médico, agnóstico, orgulhoso e prepotente, me julgava acima de tudo. E o alcoólatra, nessa fase, tem um egocentrismo brutal, só pensa nele. Eu não queria entender  que é uma doença que nos faz iguais. No AA, você vê juiz ao lado de rapaz de 17 anos que roubou carro para o tráfico. Eu vivia trancado no quarto, sem tomar banho, bebendo vodca. Até que meu filho disse: “Papai, vou te dar uma última chance. Tome um banho e venha comigo.” Não sei por que obedeci. Era dia 11 de Um dia, com o novembro de 1997. Tinha 68 anos e estou sóbrio desde então. Tenho uma gratidão eterna pelo AA. Perdi muito tempo bebendo minha vida.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Por onde caminham nossos pés?

6ª feira por volta das 18h atravesso o Largo do Machado e ouço ao longe alguém cantando “Borbulhas de Amor”. Procuro de onde vem àquela voz e, surpresa, descubro o Carlos Rogério.


Paro admirada e espero o término da música, compro um CD e lhe pergunto se posso voltar no sábado para o fotografar para o blog e divulgar seu trabalho. Ele sorri, diz que sim, nos despedimos e volto para casa com mais uma lição de vida. Sigo pensando por onde caminham nossos pés.

Sábado, levei Clara a tiracolo para fotografar o Carlos. Ele contou-me um pouco de sua vida.


É natural do Espírito Santo, chegou ao Rio de Janeiro na década de 70 e começou a gravar seus CDs em 1990.

Costuma se apresentar no Calçadão de Campo Grande, na Praça Saens Pena, no Largo da Carioca e no Largo do Machado.

Enquanto conversamos, Clara o fotografava - e as pessoas paravam para o ouvir e admirar sua destreza em autografar seus CDs com os pés.


Carlos Rogério Rocha, além de bom cantor, é um exemplo de persistência, dignidade, alto astral e superação.

Percebo sua cadeira de rodas um tanto gasta e ele me conta que foi produzida por ele para transportar seu equipamento musical.

Trocou as rodas originais por rodas de moto para suportar o peso, soldou com os pés as placas onde acondiciona os CDs, o alto-falante e mais sua bagagem.


Seus pés me conduziram a uma viagem para o meu interior. Por onde tenho caminhado? Como uso meus pés? Pisam com delicadeza? Superam obstáculos?

Algumas perguntas ainda sem respostas. Somente uma certeza; pés podem ser poéticos, como são os pés do Carlos Rogério.


Como ele não tem acesso à internet, prometi que iria imprimir a postagem e levar juntamente com as fotos para presenteá-lo.

Se você quiser o ouvir cantar e adquirir seu CD, seu telefone de contato é (21) 93159137.

22 de Maio de 2011

Fotos: Anna Clara Carvalho

Veja também: Cata-Vento

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nise da Silveira

15 de Fevereiro – 106 anos do nascimento de Nise da Silveira

Conheça sua obra:




Nise da Silveira - Senhora das Imagens
De Daniel Lobo
Neste drama multimídia, que mescla teatro, música e dança, Mariana Terra representa a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999). Aluna e discípula de Carl Jung (1875-1961), ela revolucionou o tratamento de doentes mentais ao defender a substituição das sessões de eletrochoque por atividades de pintura e modelagem. Com todo o material produzido nos ateliês de terapêutica ocupacional, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio. A ficha técnica da produção conta com colaboradores de peso como Ferreira Gullar (biógrafo de Nise) e o doutor em literatura Marco Lucchesi, na elaboração do texto. A coreografia é assinada pela bailarina Ana Botafogo e a trilha sonora original é executada ao vivo pelo pianista João Carlos Assis Brasil.

Caixa Cultural – Teatro de Arena
Av. Almirante Barroso, 25 Centro - Rio de Janeiro
Quarta a sábado, 19h - Até o dia 26.
R$ 30,00
Resenha da Veja Rio

Temporada prorrogada até 20 de Março - de Quarta a Domingo

domingo, 2 de janeiro de 2011

O Buraco no muro



"Não quero fazer especulações sobre o que a cultura computacional pode vir a fazer pelas crianças, mas apenas dizer que se o ciberespaço for considerado um lugar, então há pessoas que estão nele, e pessoas que não estão. E parece haver um consenso geral de que tal segregação entre 'cibernéticos' e 'não cibernéticos' é nociva e poderia causar uma divisão. Se for assim, então eu acho que o Buraco no Muro é um método para criar uma porta, por assim dizer, através da qual, um grande número de crianças possa irromper para essa nova conjuntura. E quando isso ocorrer poderemos ter mudado nossa sociedade para sempre." Dr. Sugata Mitra

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Abrace essa causa!

 






Leia a crônica da amiga Lenapena:  Hoje dançamos no shopping!


“O trabalho voluntário não alegra apenas quem o recebe, mas é fonte de ternura e crescimento também para quem o oferece.”

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um desembargador chamado Totó...

Eram 14h30 de quarta-feira quando o desembargador Antonio Carlos Malheiros, de 59 anos, agachou e encarou a garota Alexandra, de 6, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. "Você consegue ler o que está escrito aqui?", ele perguntou, apontando o crachá, que balançava pendurado no avental colorido. "É Antonio...", respondeu a menina, com voz tímida. "Sim, querida, é Antonio. Mas você vai me chamar diferente." O magistrado, então, fez uma pausa teatral, tirou do bolso um nariz de palhaço e anunciou, sorrindo: "Vai me chamar de Totó". A criança riu até se dobrar.

Antonio Carlos Malheiros, professor de três universidades, coordenador da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), presidente por dois mandatos da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, coordenador nacional de campanha do Conselho Nacional de Justiça. E também, nos momentos de maior simplicidade - quando "realmente nos tornamos nós mesmos", nas palavras dele próprio -, o Totó. "Não é simples, bonito? É natural, apelido que gosto e no qual me reconheço."

Um carinhoso apelido que serve, principalmente, para se aproximar. Desde 1997, o desembargador é contador de histórias voluntário da Associação Viva e Deixe Viver, que treina leitores para crianças internadas em 87 hospitais do País. No caso de Malheiros, quem ouve a experiente voz todas as semanas são crianças do Emílio Ribas - a maioria, portadora de HIV. "Esqueço tudo quando estou com o livro aberto no colo, contando histórias que ajudam a enfrentar horas difíceis. E, geralmente, termina em gargalhadas."

Nem sempre foi assim. Nas primeiras histórias que leu, Malheiros chegou a ser advertido pelas enfermeiras. Diziam que ele lia Peter Pan "como se pronunciasse votos num julgamento". "Terminei a primeira história, olhei para a criança e vi cara de choro. Pensei: "não vai dar certo"", lembrou, bem-humorado. "Mas as crianças se estouraram de rir quando, sem querer, chutei a mesa e derrubei uma montanha de bacias de metal. Foi assim, desajeitado, que percebi que era preciso naturalidade. Com as crianças, aprendemos a simplificar."

Na rua. "Precisaria de dias de 80 horas", diz o desembargador, que nasceu e sempre viveu no Jardim Paulista, zona sul da capital. Para entender o porquê, basta passar parte do dia com ele. Além dos 50 votos de sessões de julgamentos semanais, há palestras - na quarta-feira passada, em Mirassol, a 450 quilômetros da capital -, eventos como a comemoração dos 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, espremida em 25 minutos no meio da agenda, aulas nas faculdades e, para terminar, o voluntariado. "Melhor momento do dia."

Serviços voluntários, aliás, acompanham Malheiros desde os 13 anos, quando ingressou num grupo do Colégio São Luís que visitava moradores de rua. Foi no percurso entre as Praças da Sé e da República, no centro, que conseguiu quebrar as primeiras "barreiras de preconceito" - algo que, diz, "todo juiz deveria fazer". "Magistrado tem de sentir o gosto, o cheiro dos problemas antes de decidir. Tem de ir à rua, conhecer sua comunidade. Não pode ficar encastelado, imaginando que lida apenas com papel."

Episódios de sua vida mostram que não fala da boca para fora. No fim dos anos 1970, o jovem advogado ia tanto às ruas depois do expediente que, certa vez, chegou a dormir num banco da Praça da Sé. "Estava cansado demais, depois de um dia de trabalho. Cochilei por uma hora no meio de um grupo de 15 adolescentes. Acordei sobressaltado, com o preconceito gritando." Pulou do banco e apalpou todos os bolsos. Mas tudo estava lá. E o que viu ao redor o impressionou. "Os 15 garotos deitavam num círculo em volta do banco. Quando me despedi, disseram que era para me proteger. Senti vergonha e, ali, caiu parte do preconceito."

Algo semelhante ocorreu quando passou a visitar, como voluntário da Pastoral da Saúde, doentes do "Hospital da Aids", como era conhecido o Emílio Ribas nas décadas de 1980 e 1990. "Ali, desenvolvi o conceito de família formada pelo afeto, que virou dissertação de mestrado." A ideia surgiu quando cuidava de um cantor homossexual portador de HIV, em estágio terminal - sob os olhos do voluntário, ele morria, mas sua mãe negava-se a entrar no quarto, pois não o tinha "perdoado por ser homossexual". "Então, entrou no quarto um homem engravatado e beijou a testa do rapaz com carinho. Eu olhei para a mãe, para o rapaz e me perguntei: "Qual dos dois é sua família?" Caiu outro preconceito", contou. "Entender o sofrimento ajuda a decidir. Vira parte da formação pessoal e profissional."

Senhor diversidade. A forma como Malheiros trata as pessoas o credencia, entre amigos, a receber outro apelido: "Senhor Diversidade". "É sempre um sorriso no rosto, oportunidades concedidas, o apoio estampado na cara", conta o publicitário Valdir Cimino, seu parceiro na contação de histórias. "É referência em sua área, mas nunca deixa de dar "bom dia" ao porteiro, ao faxineiro, ao paciente."

Lembra palavras que Malheiros repetiu em dois momentos, na quarta passada. "Olhar de igual para igual requer simplicidade. Seja decidindo um julgamento ou contando histórias, fazendo voz de gago, vestido de palhaço."


Obrigada Mimi pelo envio. A leitura desta reportagem é um alento no meio de tantas notícias ruins.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A mercearia que vende afetos


A história da Mercearia Paraopeba, em Itabirito,  e seus personagens.
Obrigada Lis por enviar-me  essa preciosidade.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Futebol é religião?

Em 14 de abril postei aqui Os religiosos e suas intolerâncias.
Hoje recebi, por e-mail, uma análise profunda sobre o acontecido feita pelo Pastor Ed René Kivitz. 
Quanta lucidez!

No Brasil, futebol é religião

Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.
A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e cada uma das tradições de fé.
Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno; ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo; ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.
O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros e se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.
Mas, quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.
Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, faz com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.
Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa para uma criança que sofre a tragédia e miséria de uma paralisia mental.

Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico, e santista desde pequenininho.

domingo, 30 de maio de 2010

Nosso encontro na Colombo


Mãe Gaia nos convocou para um Café com Bolo no Fio de Ariadne. Para não ficarmos numa Saia Justa juntamos os Pedaços, analisamos com Amica Philosophiae e os transformamos num Mix CulturalEnquanto esperamos nos Canteiros comentamos O que Elas estão lendo  Depois dos 25.


 Giselle, Carol, Glorinha, Beth, Regina, Beta, Vanessa, Cynthia, 
A paixão pelos livros foi o motivo do encontro.



terça-feira, 6 de abril de 2010

O menino que domou o vento


Com dois livros de física elementar, um monte de lixo e a energia eólica, jovem abastece lâmpadas e celulares em sua vila no interior da África .

FORÇA AÉREA: William Kamkwamba mostra a instalação que carrega celulares e acende luzes em Malauí, na África

Escondido entre Zâmbia,Tanzânia e Moçambique, o Malauí é um país ruralcom15 milhões de habitantes. A três horas de carro da capital Lilongwe, a vila de Wimbe vê um garoto de 14 anos juntando entulho e madeira perto de casa. Até aí, novidade nenhuma para os moradores. A aparente brincadeira fica séria quando, dois meses depois, o menino ergue uma torre de cinco metros de altura. Roda de bicicleta, peças de trator e canos de plástico se conectam no alto da estrutura e, de repente, o vento gira as pás. Ele conecta um fio, e uma lâmpada é acesa. O menino acaba de criar eletricidade.

O menino e a importância de suas descobertas cresceram. William Kamkwamba, agora com 22 anos, já foi convidado para talk shows, deu palestras no Fórum Econômico Mundial, tem site oficial, uma autobiografia - The Boy Who Harnessed the Wind (O Menino que Domou o Vento, ainda inédito no Brasil) - e um documentário a caminho. O pontapé de tamanho sucesso se deve a uma junção de miséria, dedicação, senso de oportunidade e uma oferta generosa de lixo.

Uma seca terrível no ano 2000 deixou grande parte da população do Malauí em situação desesperadora. Com as colheitas reduzidas drasticamente, as pessoas começaram a passar fome. "Meus familiares e vizinhos foram forçados a cavar o chão pra achar raízes, cascas de banana ou qualquer outra coisa pra forrar o estômago", diz Kamkwamba. A miséria o impediu de continuar na escola, que exigia a taxa anual de US$ 80. Se seguisse a lógica que vitima muitos rapazes na mesma situação, o destino dele estava definido: "Se você não está na escola, vai virar um fazendeiro. E um fazendeiro não controla a própria vida; ele depende do sol e da chuva, do preço da semente e do fertilizante" , diz Kamkwamba.

Para escapar dessa sentença, começou a frequentar uma biblioteca comunitária a 2 km de sua casa. No meio de três estantes com livros doados pelo Reino Unido, EUA, Zâmbia e Zimbábue, Kamkwamba encontrou obras de ciências. Em particular, duas de física. A primeira explicava como funcionam motores e geradores. "Eu não entendia inglês muito bem, então associava palavras e imagens e aprendi física básica." O outro livro se chamava Usando Energia, tinha moinhos na capa e afirmava que eles podiam bombear água e gerar eletricidade. "Bombear um poço significava irrigar, e meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos."

Você está fumando muita maconha. Tá ficando maluco." Era isso que Kamkwamba ouvia enquanto carregava sucata e canos para seu projeto. "Não consegui encontrar todas as peças para uma bomba d'água, então passei a produzir um moinho que gerasse eletricidade. " Seu primo Geoffrey e seu amigo Gilbert o ajudaram, e após dois meses as pás giravam. O gerador era um dínamo de bicicleta que produzia 12 volts, suficientes para acender uma lâmpada. As pessoas próximas a ele só acreditaram em sua conquista quando ele ligou um rádio, que na hora tocou reggae nacional. "Fiquei muito feliz. Finalmente as pessoas reconheceram que eu não estava louco."

"Conseguimos energia para quatro lâmpadas, e as pessoas começaram a vir carregar seus celulares", diz. No Malauí, a companhia telefônica se recusou a fornecer infraestrutura para as vilas, e as empresas de celulares chegaram com torres de transmissão e baratearam os aparelhos. Por isso, hoje há mais de um milhão de aparelhos celulares no país, uma média de oito para cada cem habitantes.

"Bombear um poço significava irrigar. meu pai podia ter duas colheitas por ano. Nunca mais passaríamos fome! Então decidi construir um daqueles moinhos."

A história chegou aos ouvidos do diretor da ONG que mantinha a biblioteca. Ele trouxe a imprensa, e o menino foi destaque no jornal local. E daí alcançou o diretor do programa TEDGlobal, uma organização que divulga ideias criativas e inovadoras que convidou Kamkwamba para uma conferência na Tanzânia. O jovem aumentou o primeiro moinho para 12 metros de altura e construiu outro que bombeia água para irrigação. "Agora posso ler à noite, e minha família pode irrigar a plantação", diz.

Depois de cinco anos, com ajuda daqueles que descobriram sua história, Kamkwamba voltou à escola. Passou por duas instituições no Malauí, estudou durante as férias no Reino Unido e agora cursa o segundo ano da African Leadership Academy, instituição em Johannesburgo que reúne estudantes de 42 países com o intuito de formar a próxima leva de líderes da África.

Apesar de não ter mudado em nada a sua humildade, o sucesso e as oportunidades de estudo tornaram mais ambiciosos os planos de Kamkuamba: "Quero voltar ao Malauí e botar energia barata e renovável nas vilas. E implementar bombas d'água em todas as cidades. Em vez de esperar o governo trazer a eletricidade, vamos construir moinhos de vento e fazê-la nós mesmos".

Escrito por William Kamkwamba em conjunto com o jornalista Bryan Mealer, The Boy Who Harnessed the Wind foi lançado em 29 de setembro nos EUA e ficou entre os dez mais da livraria virtual Amazon.


Confira a entrevista com William Kamkwamba:

Fonte:

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tremendo nos Nervos




O Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro convida para o desfile do Bloco “Tremendo nos Nervos”, a realizar-se no dia 03 de fevereiro de 2010, no horário de 14 às 18 horas, na Praça da Harmonia, Bairro da Saúde.


Esclarecemos que o CPRJ atende a população residente na região Ap.1 e Ap.3.1 na área de saúde mental.


A Unidade tem como objetivo coordenar a articulação entre a atenção à crise e assistência necessária ao processo de ressocialização da população atendida, de forma ágil, com atendimento humanizado, resolutivo e integrado aos demais serviços internos no CPRJ e aos da rede de atenção à saúde mental.


Buscamos com inovações deste serviço, romper barreiras, acolhendo estas pessoas de forma humanizada, compreendendo fundamentalmente o sentido do “cuidado”.


Inserimos novas equipes constituídas por Musicoterapeutas, Psicólogos, Arte-terapeutas, Terapeutas Ocupacionais, Recreadores, Dançarina, etc. que através de atividades nas oficinas modificam o ambiente e o sentido dado aquele momento, contribuindo mais uma vez na humanização de atenção à crise.


É no Hospital-Dia Harmonia que se desenvolve o projeto de atendimento a população com transtorno mental e que se encontra em situação de rua.


O uso de arte tem sido um dos traços fundamentais desse processo que vem se desenvolvendo nas oficinas de pintura, de artesanato, carnaval, de música, de teatro, de poesia, de culinária, de informática, restauração de móveis e estas sendo utilizadas de forma a permitir a expressão de todos os envolvidos no projeto do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro.


Dentro deste espírito criamos um trabalho onde o samba é o protagonista, organizamos o Bloco Tremendo dos Nervos que é formado por usuários, técnicos e familiares do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro.


A experiência surgiu no ano de 2005, como uma forma de expressão que proporcionasse um encontro entre os espaços da Instituição e o da comunidade ao redor, entre diversas experiências sócio-culturais, acolhendo as diferentes possibilidades de sentirem-se criativos e protagonistas de suas criações.


Trabalho fundamental na reabilitação psicossocial dos pacientes portadores de transtornos psiquiátricos.

Telma Rangel – Gerente de RH/ CPRJ –2332.5683

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Livros "perdidos"


Foto minha


Li há algum tempo em uma comunidade do Orkut sobre a experiência de “perder” livros.

Em 16 de dezembro postei uma reportagem da Revista Nova Escola sobre a distribuição de livros em sinais de trânsito.

Preparei 4 livros para serem perdidos com um bilhetinho colado solicitando à pessoa que achar que depois de lê-lo perca-o também. Deixei também meu e-mail para que, se possível, fosse relatada a experiência de achar o livro, lê-lo e perde-lo também.

Hoje perdi o 1º livro: Por tanto amar de Mário Oliveira.

Deixe-o no ônibus da linha 497 no trajeto Laranjeiras/ Centro da Cidade.

Vamos ver no que vai dar.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Aceita um livro?

Vale mais que um trocado

Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi


“Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.


Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.

Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:


- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.

Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.


Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:


- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.


As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:


- Sabe ler?, perguntei.


- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:


- Sim. Sei, sim.


- Em que ano você está?


- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.


Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.


Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...


- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.


Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.


* os nomes foram trocados para preservar os personagens.

Rodrigo Ratier

Fonte: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Chamei, e a árvore entrou pela janela

Hoje, nada de guerra. Melhor falar de vida. De uma impressionante demonstração de amor que recebi de uma árvore. Isso mesmo, de uma árvore que fica em frente à minha casa e que, de tão amada que é por mim, está entrando pela minha janela para que eu possa acariciá-la. Não, leitor, não tomei chá de cogumelo nem LSD.


Na rua em que eu moro há várias árvores da mesma espécie, todas antigas e altas. Num belo dia, comecei a reparar naquela que fica em frente à minha casa. É incrível como não reparamos nas coisas mais lindas à nossa volta. Só temos olhos para canos de descarga, mendigos, buracos; só ouvimos buzinas, maledicências, tiros. Estamos cegos para as flores, o sol, a lua e as estrelas; surdos para o canto dos pássaros, para as lições de vida que nos pode dar qualquer criança.


Sem mais nem menos, comecei a prestar atenção naquela árvore, nos tons das folhas, no tronco maciço, no balançar dos galhos ao vento, no seu brilho sob o sol e na sua alegria muda ao se reavivar com a chuva. Um dia, tomei coragem e passei a elogia-la, dizer-lhe o quanto me faz bem e como gosto dela.


Aqui, é preciso abrir um parêntese. Há alguns anos, uma amiga me deu um livro chamado A profecia celestina. Não tive saco para chegar ao final, confesso, mas uma experiência relatada nele me impressionou muito. Aconteceu numa universidade holística, no Peru – em Lima, se não me engano. Fizeram o seguinte: pegaram um determinado número de sementes da mesma espécie, do mesmo tamanho, mesma safra. Construíram duas estufas exatamente iguais e independentes e plantaram metade dos grãozinhos em cada uma delas. Um dos espaços, ficava sempre vazio, ninguém ia lá. No outro, os cientistas da universidade envolvidos no estudo apareciam todos os dias para contemplar o desenvolvimento das plantas. E, mais do que isso, direcionavam a elas palavras de carinho, diziam-lhes que eram admiradas e queridas. Resultado: mesmo recebendo as mesmas quantidades de chuva, sol e nutrientes, as plantas que receberam atenção humana atingiram o dobro do tamanho das solitárias.


Agora volto à minha árvore de estimação para contar que ela é a mais frondosa entre todas as outras da rua. De vez em quando, eu desço e lhe faço um carinho – claro, depois de me certificar que não há nenhum idiota da objetividade olhando. Quando meu vizinho passou a motosserra nas duas irmãs dela, me apressei em certificá-la de que jamais faria aquilo com ela. Disse para que ficasse tranquila e que o máximo que poderia acontecer era o caminhão da prefeitura aparecer para podar seus galhos.


Mas, antes da poda incerta, eu tinha uma esperança. E, da janela – moro no terceiro andar – esticava a mão e chamava minha amiga para que viesse até mim e eu pudesse tocá-la. E não é que ela veio? Um dos seus galhos começou, dia a dia, a crescer na direção exata da minha janela. Contrariando o fototropismo, que faz os vegetais procurarem a luz, ela seguiu seus sentimentos e rumou para dentro do meu apartamento. Sua progressão foi tão incisiva, certeira e inédita que eu tive a certeza de que todas as plantas podem sentir nossa vibração e até mesmo entender quando lhes dizemos coisas boas. Da mesma forma, ficam tristes com nossa indiferença.


Na semana passada, esticando o braço na janela, pude, enfim, tocar suas pequenas folhas, acariciá-las, sentir aquela textura macia e levemente porosa, de uma leveza, uma delicadeza que contrasta com todo o peso da vida atribulada que levamos nas grandes cidades. Bombardeados por informação, competição, ansiedades e apreensões, não nos sobra tempo para prestar atenção nas coisas mais simples, que são também as mais fantásticas.


Marcelo Migliaccio

http://www.jblog.com.br/rioacima.php?itemid=16786

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Fábula da vida real

Fábula que aconteceu mês passado, em plena vida real no Park Bom Estacionamento, no Largo do Machado:

Um motorista, ao chegar com seu carro, foi abordado por um dos atendentes.

- O senhor não estacionou aqui no dia 25 de maio, às 17h02, para uma palestra nas salas de conferências? - perguntou o funcionário.

Diante da resposta afirmativa, ele continuou:

- O senhor botou R$ 50 no balcão e esqueceu aqui. Está guardado com o gerente.


Para quem anda necessitado de esperança no ser humano, um alento.


Fonte: Blog do Ancelmo Góis


domingo, 15 de fevereiro de 2009

Pássaro na gaiola não canta, lamenta!



Foto Luis Florit

Recebi por e-mail da minha querida Janaina.


Olá!!
Como é do conhecimento de muitos, Luis e eu somos fãs da natureza, e, em especial, das aves. Das aves livres, como foram criadas para ser. Cantando e encantando nossos dias.
Admiramos as maravilhas q nos cercam, e temos tentado participar do movimento de preservação da natureza, mostrando, através da fotografia, as pequenas grandes maravilhas q temos ao redor (
http://cachabacha.multiply.com/photos) .
E, felizmente, não somos os únicos nessa luta. Muitos - independente da idade, profissão, situação econômica, posição social, credo, cor, visão política - estão fazendo, ou tentando fazer, a sua parte.
E hoje quero compartilhar a alegria de ver o trabalho de um desses apaixonados, começar a ser reconhecido. Luciano Breves mora em Morretes/PR e mantém uma câmera ligada td o tempo mostrando ao mundo as maravilhas de seu quintal. Para conferir clique:
http://www.ornithos.com.br/
Recentemente, a RPC TV Paranaense fez uma matéria sobre o trabalho do Luciano. Vale à pena gastar alguns minutos, veja só:
http://portal.rpc.com.br/tv/paranaense/video.phtml?Video_ID=38546&Programa=meuparana&tipo=

Espero q aprecie.
Bjs,
Jana

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Palavras

Imagem: daqui

O Eduardo deixou-me esse comentário:

“ Regina,


como vejo que gostas de PALAVRAS como eu, de uma olhada neste blog:


http://blogconciso.blogspot.com/

Detesto quando fazem esses convites nos meus blogs, mas neste caso não havia como deixar de convida-la.


Bjs.

Já fui lá e o blog promete. Blog Conciso: um blog sem siso.

E por falar em palavras disse Tio Freud: "Por meio das palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero. Palavras suscitam afetos e são de modo geral o meio de mútua influência entre os homens." Sigmund Freud

Afeto procês.