Mostrando postagens com marcador poesias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesias. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A casa materna

Casa da minha infância



Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão tem uma velha ferrugem e o trinco se encontra num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias, que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.

É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. o assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em preces, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e compreenderem mudamente. O piano fechado, com uma longa tira de flanela sobre as teclas, repete ainda passadas valsas, de quando as mãos maternas careciam sonhar.

A casa materna é o espelho de outras, em pequenas coisas que o olhar filial admirava ao tempo em que tudo era belo: o licoreiro magro, a bandeja triste, o absurdo bibelô. E tem um corredor à escuta, de cujo teto à noite pende uma luz morta, com negras aberturas para os quartos cheios de sombra. Na estante junto à escada há um Tesouro da juventude com o dorso puído de tato e de tempo. Foi ali que o olhar filial primeiro viu a forma gráfica de algo que passaria a ser para ele a forma suprema da beleza: o verso.

Na escada há o degrau que estala e anuncia aos ouvidos maternos a presença dos passos filiais. Pois a casa materna se divide em dois mundos: o térreo, onde se processa a vida presente, e o de cima, onde vive a memória. Embaixo há sempre coisas fabulosas na geladeira e no armário da copa: roquefort amassado, ovos frescos, mangas-espadas, untuosas compotas, bolos de chocolate, biscoitos de araruta - pois não há lugar mais propício do que a casa materna para uma boa ceia noturna. E porque é uma casa velha, há sempre uma barata que aparece e é morta com uma repugnância que vem de longe. Em cima ficam os guardados antigos, os livros que lembram a infância, o pequeno oratório em frente ao qual ninguém, a não ser a figura materna, sabe porque queima às vezes uma vela votiva. E a cama onde a figura paterna repousava de sua agitação diurna. Hoje, vazia.

A imagem paterna persiste no interior da casa materna. Seu violão dorme encostado junto à vitrola. Seu corpo como que se marca ainda na velha poltrona da sala e como que se pode ouvir ainda o brando ronco de sua sesta dominical. Ausente para sempre de sua casa materna, a figura paterna parece mergulhá-la docemente na eternidade, enquanto as mãos maternas se fazem mais lentas e as mãos filiais ainda mais unidas em torno à grande mesa, onde já agora vibram também vozes infantis.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Eu e (alguns dos) meus homens


Eu e (alguns dos) meus homens

Li Platão pra saber que não quero amores platônicos e que a vida real não está no mundo sensível, idealizado.
Aristóteles me ensinou que a metafísica de um relacionamento me seduz mais que a própria química ou o físico.
Descartes me deu a deixa do “gozo, logo existo”.
Quando Sartre me disse que o inferno era o outro, descobri também um paraíso ali.
E Nietzsche matando Deus, me deu permissão pra pecados deliciosos.
(A Igreja me ensinou a pecar).
Hegel era um chato.
Maquiavel me deu estratégias que não usei, não gosto de jogos de sedução, " canso, logo desisto"( Descartes de novo!).
Kant me ensinou que ser racional pode ser bem mais prático que romântico.
Schopenhauer me fez entender sobre a vontade insaciável que nos provoca o tédio.
Já me deitei com Kierkegaard.
Freud me apresentou Édipos, homens que me namoravam porque não podiam casar com suas próprias mães.
Wittgneistein eu abandonei antes de tentar entender.
Heidegger me falou da angústia que nos recolhe e renova.Aprendi muito sobre a autenticidade com ele.
Derrida desconstruiu tudo. Pra Foucault, sexo era phoder!

Mas foi um poeta, Manoel de Barros, que açucarou meu coração com açucenas.

Marla de Queiroz, in Flores de Dentro

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Fadas e Bruxas

Ilustração: Leticia Zamora

Fadas e Bruxas

Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com sol,
a outra escreve com a lua.
Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.
Uma é séria, a outra sorri;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo,
a outra sonha acordada.

Roseana Murray, In  Pêra, Uva ou Maçã, ed. Scipione, 2005

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Só por hoje....


Só por hoje

Só por hoje
vou rasgar os códigos.
Desacatar as regras,
a água morna,
os preços módicos.
Só por hoje
desacredito das retas,
descarrilho do trilho,
desvio das setas.

Preciso de tempo pra sonhar,
respirar fundo e carregar na mão
o sal da vida e o mel do mundo.

Se o compromisso tocar a campainha,
peço que aguarde na casa vizinha,
mansamente, sem fazer alarde.
Mas comunico a todos pela imprensa
que sumiu a lucidez.
Pediu licença.
É só por hoje,
mas agora é minha vez.
Flora Figueiredo

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Magia Negra



Magia negra era o Pelé jogando, Cartola compondo, Milton cantando. Magia negra é o poema de Castro Alves, o samba de Jovelina...
Magia negra é Djavan, Emicida, Mano Brow, Thalma de Freitas, Simonal. Magia negra é Drogba, Fela kuti, Jam. Magia negra é dona Edith recitando no Sarau da Cooperifa. Carolina de Jesus é pura magia negra. Garrincha tinhas 2 pernas mágicas e negras James Brow. Milton Santos é pura magia.
Não posso ouvir a palavra magia negra que me transformo num dragão.
Michael Jackson e Jordan é magia negra. Cafu, Milton Gonçalves, Dona Ivone Lara, Jeferson De, Robinho, Daiane dos Santos é magia negra.
Fabiana Cozza, Machado de Assis, James Baldwin, Alice Walker, Nelson Mandela, Tupac, isso é o que chamo de magia negra.
Magia negra é Malcon X. Martin Luther King, Mussum, Zumbi, João Antônio, Candeia e Paulinho da Viola. Usain Bolt, Elza Soares, Sarah Vaughan, Billy Holliday e Nina Simone é magia mais do que negra.
Eu faço magia negra quando danço Fundo de quintal e Bob Marley.
Cruz e Souza, Zózimo, Spike Lee, tudo é magia negra neles. Umoja, Espirito de Zumbi, Afro Koteban...
É mestre Bimba, é Vai-Vai é Mangueira todas as escolas transformando quartas-feira de cinza em alegria de primeira.
Magia negra é Sabotage, MV Bill, Anderson Silva e Solano trindade.
Pepetela, Ondjaki, Ana Paula Taveres, João Mello... Magia negra.
Magia negra são os brancos que são solidários na luta contra o racismo.
Magia negra é o RAP, O Samba, o Blues, o Rock, Hip Hop de Africabambaataa.
Magia negra é magia que não acaba mais.

É isso e mais um monte de coisa que é magia negra.

O resto é feitiço racista.

Sergio Vaz

Li no mural da minha amiga Patricia Sodré e não resisti em compartilhar aqui no Canteiros.
Viva a diversidade!!!!!!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Adivinhem o quanto nos amamos...




Eu e Clara temos uma forma de comunicação baseada na historinha infantil “Adivinha o quanto te amo”. Vez em quando nos comunicamos, por SMS, medindo a distância do nosso amor.
Ontem após 27 dias em Berlin nos reencontramos. Depois do abraço de saudade ela retira da bolsa uma caixa de chocolates acompanhada de cartões postais baseados na historinha que faz parte da nossa relação. Presente escolhido juntamente com o cartão que segundo ela tem a minha cara.
Gratificante ler a dedicatória:

“Meu amor,
Conhecer Berlin foi um presente incrível. Dar-me férias de verdade, viver um mês em uma cidade tão distante, tão acolhedora e aprender com seu modo de vida me fez muito bem.
Bom para repensar minhas expectativas, perspectivas para esse momento de vida, bom para desejar voltar logo. A distância da rotina nos permite avaliá-la muito melhor. Com mais lucidez.
Berlin é vento, é mistura, é arte, é noite, é silêncio, educação, funcionalidade, qualidade de vida.
Uma experiência muito válida.
Obrigada pelo apoio em mais uma conquista.
Obrigada por ser suporte com tanto amor.
Adivinha o quanto eu te amo?
Clara
18/06/2012”

Pra você filha amada deixo um poema que tema nossa “cara”.

 
Epifania

Entre nós
desvios
desvão
degraus.
Mas sei que
pela porta aberta
teu coração
fabrica para mim
pequenas alegrias.
Entre nós
harmonias.
Vera Americano, In Arremesso livre

domingo, 10 de junho de 2012

Containers poéticos









Em Porto de Leixões, Matosinhos, Portugal, os containers exibem fragmentos de “Ode Marítima” de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Abaixo o Natal....


Abaixo o Natal!
do presente obrigatório,
compulsório,
de ceia-velório
e frio coração.

Abaixo o Natal!
do presunto fraticida
da mesa fingida,
noz ressequida.

Abaixo o Natal!
da neve de algodão
bolota na árvore
e frio coração.

Abaixo o Natal!
da criança sem teto
rodando nas esquinas
sem abrigo e afeto.

Abaixo o Natal!
que acorde de seu sono
escondido, em eclipse
ou como o sujeito
oculto por elipse
o espírito de Natal.

Desconhecido íntimo
em prosa cantado
sempre olvidado
faça aparição.

Recolha dos caminhos
a criança sem ninho.
Dê-lhe
pão, teto e vinho
então....Sim
Viva o Natal!
Edda Vianna Nesi, In Vinte Poetas à procura de um leitor

Que possamos vivenciar o espírito natalino de confraternização e acolhimento durante todo o ano sem necessidade de datas especiais.
Meu abraço carinhoso.

sábado, 26 de novembro de 2011

Esperança



Esperança

Muitos são os que carregam
água na peneira,
como disse o poeta
 Manoel de Barros,
e esperança como estrela
na lapela.
Muitos são os que acreditam
em coisas simples e limpas,
em coisas essenciais,
amor, amizade, delicadeza,
paz,
e tantas outras palavras,
antigas e urgentes.

Roseana Murray, In:  Manual da Delicadeza de A a Z.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Celebrar a morte deles...


Hoje é dia de finados.
Que esse dia, um dia, se torne dia de celebração:
por ter morrido
minha prepotência,
meu comodismo,
meus vícios de linguagem;
o medo que paralisa,
as relações demasiadamente mornas
e minha auto-sabotagem.
Anaclara de Castro

terça-feira, 4 de outubro de 2011

E você?


A palavra é uma roupa que a gente veste.
Uns usam palavras curtas.
Outros usam roupa em excesso.
Existem os que jogam palavra fora.
Pior são os que usam em desalinho.
Uns usam palavras caras.
Poucos ostentam palavras raras.
Tem quem nunca troca.
Tem quem usa a dos outros.
A maioria não sabe o que veste.
Alguns sabem mas fingem que não.
E tem quem nunca usa a roupa certa para a ocasião.
Tem os que se ajeitam bem com poucas peças.
Outros se enrolam em um vocabulário de muitas .
Tem gente que estraga tudo que usa.
E você, com quais palavras se veste?
Com quais palavras você se despe?
Vivane Mosé

domingo, 2 de outubro de 2011

Assombrado


 Imagem de autoria desconhecida

Ainda que me falem
de barulhos
e de correntes
que se arrastam
pela noite...
Ainda que me contem
sobre almas errantes
e seres sinistros
que nos querem – em vão desejo!
Não!
Não temo os fantasmas.
Eu tenho medo
é dos políticos!
Ney Mourão

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ponto Nevrálgico

Foto: Minha

Às cinco horas da tarde
sobe-se e desce-se o Chiado
bebe-se chá no Chiado
bebe-se o ar do Chiado
come-se nas montras do Chiado
conversa-se no Chiado
conversa-se do Chiado
literatura-se no Chiado
figura-se no Chiado
Chiada-se.

Mendes de Carvalho

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Poeta e o Juiz

Em Cachoeiro de Itapemirim (ES) o povo ergueu na praça principal o busto de um poeta. E esculpiu nesse busto versos do poeta. O poeta chama-se Newton Braga, tão universal e humano quanto seu irmão, o cronista Rubem Braga, embora menos conhecido do que este porque escolheu residir na sua terra natal.

O primeiro aspecto a realçar é que a homenagem máxima da cidade foi fruto de uma subscrição popular. Centenas de pessoas assinaram a lista de doações tendo havido contribuições minúsculas, algumas destas sumamente expressivas porque os signatários colocaram toda a força da alma ao assinar. Destaque-se ainda que não se tributava honra a um homem de poder, como é bem mais comum ocorrer.

Os versos esculpidos no granito são os versos finais do poema “Fraternidade”:

 Esta sensibilidade, que é uma antena delicadíssima,
 captando pedaços de todas as dores do mundo,
 e que me fará morrer de dores que não são minhas.

Vejo uma identidade entre o juiz e o poeta. O juiz também morre de dores que não são suas. Deve ser capaz de viver o drama dos processos, descer às pessoas que julga, incorporar na alma a fome de Justiça do povo a que serve.

O juiz haverá de ser um misto de juiz e poeta, não com o sentido pejorativo que se desse a essa fusão. Mas com o verdadeiro sentido que há em ver como atributos da Justiça a construção da Beleza, obra do artista, e a construção do Bem, obra do homem que procura trilhar o caminho da virtude.
  
Diverso e oposto desse paradigma de juiz seria o juiz distante, distante e equidistante, cuja pena se torna para ele um peso, não por sentir as dores que não suas, mas pelo enfado de julgar, pela carência do idealismo e da paixão que tornariam seu ofício uma aventura digna da dedicação de uma existência.
  
A lei como instrumento de limitação do poder é um avanço da cultura humana, caracteriza o Estado de Direito.

Mas a tábua de valores de um povo não está apenas na lei. Está sobretudo no estofo moral dos aplicadores da lei. Não há arquitetura política, sistema de freios do poder, concepção de instâncias superpostas a permitir a utilização de recursos, não há enfim engenharia processual que assegure a um povo tranquilidade e Justiça se os juízes forem corruptos, preguiçosos, egoístas, estreitos, sem abertura para o social, ciosos apenas de suas vaidades.

O juiz-poeta será aberto ao universal porque a Poesia descortina os horizontes do mundo e rompe com as estreitezas.
  
Aberto ao universal, terá do Direito uma visão sistêmica, percebendo a relação do Direito com os outros saberes humanos. Portador de cultura ampla, impulsionado pela Poesia a ver sempre além, terá consciência de seu papel social, mediador de culturas num Brasil plural.
  
O juiz-poeta cultivará o estudo, o trabalho intelectual, os livros. Seguirá o conselho de Olavo Bilac: “Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve! No aconchego do claustro, na paciência e no sossego, trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

O juiz-poeta não se fechará no estreito mundo do jurídico e menos ainda no estreito mundo de códigos e leis interpretados literalmente. Abrirá as janelas para enxergar toda a complexidade dos problemas humanos, pensará sempre nas consequências sociais de suas decisões. Nunca lavará as mãos, como Pilatos, jogando sobre o legislador a culpa por sentenças que, a seu próprio critério, sejam profundamente injustas, sem o esforço de buscar caminhos de interpretação para que prevaleçam, nos julgados, os valores éticos que a própria Constituição Federal coloca como parâmetros da organização social brasileira, como muito bem analisou em livro o jurista gaúcho Juarez Freitas.
  
Um juiz e uma Justiça que participem do esforço de superação das injustiças estruturais, isto é o que se espera como programa de ação de um Judiciário sensível e vigilante. Em síntese: juízes-poetas que se desdobrem para fazer da Justiça uma obra de Poesia e de Grandeza.



HERKENHOFF, João Baptista. O poeta e o juiz. Disponível em http://www.lfg.com.br - 01 de dezembro de 2010.

*Os grifos são meus.

Dedicado à Juíza Paula Fernandes Machado de Freitas


terça-feira, 5 de julho de 2011

Neste mesmo instante...

Neste mesmo instante
há um homem que sofre,
um homem torturado
tão somente
por amar a liberdade.

Ignoro onde vive,
que língua fala,
de que cor é a sua pele,
como se chama,
mas neste mesmo instante,
quando os teus olhos lêem
o meu pequeno poema,
esse homem existe,
grita,
pode-se ouvir o seu pranto
de animal acossado,
enquanto morde os lábios
para não denunciar os amigos.

Ouves?
Um homem, só, grita
amarrado,
existe em algum lugar.
Eu disse só?
Não sentes, como eu,
a dor do seu corpo
repetida no teu?
Não te brota o sangue
sob os golpes cegos?

Ninguém está só.
Agora,
neste mesmo instante,
também a ti e a mim
nos mantêm amarrados.

José Agustín Goytisolo
Tradução de Antonio Miranda

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tradutor de Chuvas


Tradutor de Chuvas

Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.

Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Editora Caminho.

“Quando começo a escrever a poesia surge-me como um estorvo.” Mia Couto em entrevista ao JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Portugal

quarta-feira, 2 de março de 2011

Eu também busco....


BUSCA


Tenho encontrado muitas pessoas,
porém não encontro gente....

Há um vazio dentro de cada um,
um processo de fechamento em sentimentos.

Encontro sorrisos, porém daqueles
que expõem apenas os dentes, mas não a alma.

Encontro verdadeiras tocaias, e não corações.
Reservas insistentes da solidão.

Tenho encontrado pessoas medrosas,
indecisas, escondendo-se de si mesmas.

Pessoas que dizem: Não sei...,
Não sei se quero..., Não sei se posso...

Quando sabem exatamente
o que querem e o que buscam,
e não se arriscam ao menor impulso.

Pessoas duras, escuras,
impossibilitadas de amar.
Estas, cansei de encontrar...

Busco por gente que empreste o ombro,
que não tenha medo de dizer que levou um tombo.

Busco por gente que assuma que amar traz sofrer,
e, com esta certeza, não venham a se esconder.

Busco por gente que tenha a experiência
de sobrevivente de guerra.

Busco por gente, que de tanto caminhar,
não tenha receio de dizer
que seus pés ainda têm muito por machucar.

Quero gente de coragem para comigo conversar.

Gente que saiba que máscaras
não dão mais para usar,
e sendo seu perfil interno, branco ou preto,
tenha a dignidade de revelar.

Busco por gente que chore livremente,
sem preconceitos pelas lágrimas derramadas.

Quero gente que saiba exatamente
para onde está indo e o que deseja encontrar,
mesmo que esta busca jamais venha alcançar.

Busco por gente,"Seres Humanos",
que saibam se doar,
estes, eu anseio por encontrar
Gente que saiba até ferir se precisar,
mas que seja valente em seu ato
para não mais enganar,
a quem quer que seja, e a si próprio.

Gente de decisão,
sem argumento para esconder,
escusas ações.

Quero gente que é gente,
que mostra a cara,
vai à luta e dorme contente.

É desta gente que eu preciso!

Gente liberta,
que me dêem um canto em seu colo
e saibam me acariciar,
sem tempo, sem hora
e em qualquer lugar. 

Cora Maria