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terça-feira, 7 de maio de 2013

Dignidade não pode ter CEP


Confesso que ao ler ontem o pronunciamento do Marcelo Freixo sobre a operação que matou o traficante Matemático a minha emoção falou mais alto e pensei que ele estava defendendo um bandido. Porém, quando a razão entrou na história entendi seu posicionamento. Não estava defendendo o traficante e sim a forma como a operação foi realizada.
Convivi durante muitos anos com alunos que moravam em comunidades constantemente vítimas de tiroteios entre polícia e bandidos.
Quando lecionava à noite cansamos de liberar alunos mais cedo, pois os pais ligavam para a escola solicitando que seus filhos voltassem para casa porque “o tiro ia comer solto”.
Precisamos sair um pouquinho da nossa zona de conforto e lançar um olhar generoso para aqueles que são reféns dessa guerra que atinge em maior proporção quem vive nas zonas norte e oeste.
Transcrevo parte do discurso do Freixo entendendo que a dignidade não pode ter CEP.


"O que estamos defendendo é que se tenha controle legal sobre as ações de quem responde pelo Estado. Que aja conforme o interesse público. Porque hoje se mata um traficante e a amanhã pode matar qualquer pessoa. Não se trata de uma defesa de um traficante ou outro. O tráfico é cruel, é violento e massacra a vida dessas comunidades, mas o Estado não pode competir com o tráfico de quem tem mais capacidade de ser violento. Tem algo que diferencia o Estado e o crime, que é a nossa necessidade de cumprirmos a lei. E esse episódio precisa ser investigado. Por que o helicóptero estava sozinho, já que não tinha operação por terra? Por que os tiros são dados colocando a vida de terceiros em risco? Não podemos permitir isso. Uma operação como essa jamais aconteceria em outro território que não fosse uma favela da Zona Norte ou Zona Oeste do Rio. A dignidade das pessoas não pode ter CEP. O tráfico é bárbaro, tem que ser enfrentado, mas o Estado não pode abrir mão do seu papel legal. Nós queremos uma política de segurança pública eficaz, que os policiais sejam valorizados, mas que garanta direitos e, acima de tudo, seja comprometida com a dignidade humana", afirmou Marcelo Freixo.

sábado, 22 de setembro de 2012

Esclarecimento ao Deputado Pedro Paulo, coordenador da campanha do candidato Eduardo Paes


Foto Marta Antunes, disponibilizada no Facebook

 
Esclarecimento ao Deputado Pedro Paulo, coordenador da campanha do candidato Eduardo Paes

Ao ler na coluna Informe do dia, do Jornal O Dia de 22-09-2012, a declaração, em tom jocoso, do deputado Pedro Paulo, um dos coordenadores da campanha do Sr. Eduardo Paes, ironizando a frase usada por artistas que apóiam Marcelo Freixo: “Sou São Pedro e fecho com Eduardo Paes”, gostaria de informar-lhe que São Pedro deve ter fechado com o Freixo e a chuva que desabonou no Rio de Janeiro, horas antes do comício histórico, desceu com o objetivo de lavar a cidade do lamaçal em que ela se encontra.
Felizmente a chuva não impediu que milhares de eleitores do Freixo comparecessem ao comício, embora não fossem servidores intimados por e-mail, com o “delicado” convite alertando que a presença era obrigatória.*
Os eleitores de Freixo foram convidados através das redes sociais e chegaram por lá encharcados, após engarrafamentos causados pelo trânsito caótico da cidade, problemas nos trens, metrô, esses acontecimentos diários que atravancam a vida do carioca.
Estivemos lá sem ônibus fretados, sem cachês de “ajuda de custo”, sem lanchinhos distribuídos ao final.
Nossa presença na campanha do Marcelo Freixo e no comício histórico foi unicamente para demonstrarmos que queremos MUDANÇAS.
Não queremos mais ser governados por partidos em disputas de cargos, por coligações estapafúrdias, por deboches com o eleitor, com maquiagens na cidade.
Eu não quero fazer parte desse “Somos um Rio” fictício, o Rio que quero é o Rio rebelde com participação massiva da juventude como tenho visto nos últimos meses.
O Rio de Janeiro PRECISA de outros homens, homens com ideais.
Regina Coeli Carvalho


terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Rio rebelde


O Rio rebelde
Começo pelas propostas defendidas pelo candidato.

Sobre a educação, o diagnóstico é preciso: "As escolas públicas estão sem alma." Educação séria, em qualquer lugar do mundo, requer horário integral e professores bem pagos, excluída a famigerada "terceirização", que destrói os vínculos entre os funcionários e os serviços. Em cada escola, autonomia pedagógica, observados parâmetros democraticamente construídos.

A saúde pública também deve basear-se em médicos, enfermeiros e auxiliares concursados, estáveis e decentemente remunerados, encerrando-se a experiência das Organizações de Saúde/OS, uma privatização mascarada, baseada na anarquia salarial e na falta de compromisso dos profissionais com os centros de saúde e os hospitais: "Vamos fazer concurso público, até porque o dinheiro que banca as OS é público e muito." Quanto à habitação popular, critérios rigorosos na efetivação das chamadas "remoções": "A política atual é irresponsável." Em questão, uma "concepção de cidade". O que se quer? Entregar a cidade aos negócios ou às pessoas? Dá para combinar os dois? Dá, mas numa "cidade de direitos". Freixo cita exemplos concretos: "Em Londres, por lei, metade das moradias da Vila Olímpica foi destinada à população de baixa renda. A Vila dos Jogos Pan-Americanos na Barra foi toda jogada para o mercado imobiliário."

Na área dos transportes públicos, "enfrentar o poder das empresas de ônibus, reunidas na Federação dos Transportes (FETRANSPOR)." Os consórcios funcionam como um cartel, impondo tarifas escorchantes, recusando-se a aceitar o bilhete único, praticado, há anos, nas grandes capitais do mundo. Em jogo, o "modelo rodoviário". O atual tem custo alto, polui e inferniza a vida das pessoas. Por que não viabilizar o transporte sobre trilhos? As vans assumiriam uma vocação "complementar", organizando-se licitações individuais, para neutralizar o poder das milícias.

Finalmente, em relação à segurança, é falso dizer que se trata de matéria exclusiva do estado. As milícias fundamentam seu poder em atividades econômicas que se efetuam em territórios determinados. Ora, tais atividades e territórios são - ou deveriam ser - regulados pela autoridade municipal. Haveria um largo campo a ser aí explorado, sempre em parceria com os governos estadual e federal, sem nenhuma conciliação com as milícias.

Selecionei cinco questões essenciais. É clara, em todas elas, a vontade de mudança, respeitando-se os valores democráticos. A marca rebelde contra o marasmo, um sistema exaurido que se repete e se rotiniza à custa das grandes maiorias.

Mas os sinais de rebeldia aparecem principalmente na mobilização e no incentivo à auto-organização das gentes. A recuperação da militância gratuita e espontânea, motivada por valores - políticos e éticos. Cada reunião é um comício. Cada comício surpreende pela afluência das pessoas. Renasce o melhor da tradição democrática brasileira, viva e promissora, em especial na primeira metade dos anos 1980, com destaque para a participação de artistas, meio sumidos nos últimos anos dos embates políticos. Pois eles estão de volta, generosos e solidários. Não seria esta uma indicação de tendências profundas? A sintonia fina entre artista e sociedade?

O exercício de cidadania não vai morrer após a campanha eleitoral. O candidato propõe - "eixo central da sua política" - a construção de Conselhos de Políticas Públicas e a reanimação das associações de bairros, destinados, em conjunto com os vereadores, a formular e a controlar a aplicação das políticas e das leis, viabilizando uma "outra concepção de governo", distinta do atual troca-troca de favores por votos, onde quase sempre se encobrem interesses escusos. O Rio tem tradição rebelde.

Em 1968, houve aqui o movimento estudantil mais atuante, e as maiores passeatas contra a ditadura. Na segunda metade dos anos 1970, a luta pela anistia - ampla, geral e irrestrita. Nas primeiras eleições livres para governadores, em 1982, a vitória de Leonel Brizola - "Brizola na cabeça" - representou desafio à ordem vigente. Ao longo da campanha das Diretas-já, o povo nas ruas contribuiu para consolidar o processo de transição democrática. Na sequência, Fernando Gabeira quase foi eleito prefeito da cidade contra ampla coligação de interesses conservadores. Em 1989, nas primeiras eleições diretas para presidente, outros comícios - imensos - por Lula e Brizola. A partir dos anos 1990, porém, no quadro da "administração das coisas", as eleições perderam encanto, cada vez mais dominadas pelo dinheiro e pelo marketeiros.

Não terá chegado a hora de mais uma virada? Retomando tradições críticas que existem no tempo longo, enraizadas na cidade?

É verdade que outra candidatura fala de si mesma como "um rio". Pode ser um rio qualquer. Mas o Rio rebelde, nas eleições de outubro, além de um programa, tem nome e sobrenome: Marcelo Freixo.

Daniel Aarão Reis, O Globo, 18 de Setembro de 2012.

*Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da UFF

Há um candidato que usa o slogan “Somos um Rio”. Eu não faço parte desse Rio fictício, o Rio que quero é o Rio rebelde com participação massiva da juventude como tenho visto nos últimos meses.