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segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Professor...


Professor
Um dia, alguém se propôs a trabalhar na construção de vidas. Estudou Psicologia, Filosofia e as melhores técnicas de comunicação. Passou minutos, horas, dias, observando o comportamento de todas as faixas etárias do ser humano. Sentiu-se vocacionado e, atendendo aos apelos do coração, inscreveu-se na batalha de frente da luta milenar contra o analfabetismo.
Armado de pouquíssimos recursos materiais postou-se de peito aberto, levando flechadas municipais, estaduais, federais.
Alguém especializou-se nas oficinas do ser humano e candidatou-se a reformar conceitos e valores da educação mal orientada. Inscreveu-se no concurso da vida, não se importando em sacrificar o próprio corpo na concorrência desleal de convênios, convenções, tratados e dissídios.
Alguém fez-se alheio às dificuldades, tendo plena certeza delas. Saiu disposto a questionar leis, portarias, resoluções e regimentos. Nos desmaios da sobrevivência, impôs-se.
Alguém foi nomeado, designado, empossado para o exercício do magistério. Não se perdeu no labirinto do caminho e nem se assustou com o fantasma da exigência impossível. Saiu a procurar o aluno perdido nas balas perdidas da guerra civil.
Alguém convive com a distância, com a fome, com a injustiça, com a carência e a canseira. Contudo ensina gerações a acreditar no futuro, a ter fé e não se deter.
Para um ser assim tão especial, só um nome poderia identificá-lo: professor.

Ivone Boechat – Revista Mundo Jovem, outubro/2007.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O desafio de ser professor


O DESAFIO DE SER PROFESSOR
- O Caos na Educação e no Ensino -  
Nilson Calasans *
Raul Robson Sippel **

Houve um tempo em que a pessoa centrada, ponderada, atenciosa, paciente, disposta a dar-se incondicionalmente a outrem e a uma causa nobre e justa, a fim de estudar e aprender ao longo da vida, buscava ser professor ou professora.
Nesse tempo, ser professor era algo de uma ordem totêmica, tamanha importância. O professor tinha o estatuto de um pai, de um padrinho, de um tio querido, de alguém a quem se devia respeito. Mais do que isso, presteza e solicitude. Consideração. Carinho até. Nessa época, os pais educavam, iniciavam seus filhos na trilha da cidadania, preparando-os para o ingresso em uma comunidade escolar, onde se desenvolveriam sob diversos aspectos. Havia um Maternal, um Jardim da Infância, que davam suporte à família no sentido de ajudá-la a constituir seu rebento, preparando-o para o ingresso no universo do aprendizado disciplinar e de conteúdos específicos. A dedicação e o empenho eram compromissos inerentes e tácitos dos alunos. O desenvolvimento e o progresso eram comemorados com gáudio e júbilo. Um bom aluno tornava-se referência no meio e na região e uma nota vermelha podia gerar grande constrangimento; um risco de reprovação era vergonhoso indício de anormalidade, a ser investigada.
Nesse Brasil, poucos ascendiam aos cursos superiores, pouquíssimos tinham acesso ao aprendizado de idiomas, os cursos de graduação eram raros, difíceis; uma pós-graduação, por vezes, requeria anos de preparação; não raramente, necessidade de cursá-la no exterior. Professores universitários eram semideuses e, até hoje, há uma enorme mística em torno da figura do catedrático, do responsável pela cátedra; tudo isso muito antes das “cadeiras” terem sido substituídas por disciplinas.
Obviamente, não se deseja um retrocesso no tempo. O mundo mudou, o país mudou, tudo se transforma. A vida tornou-se muito difícil para todos. Hoje, milhões são pais levianamente, pela liberação dos costumes; a escola não tem como fazer maternagem e, para não ficarem nas ruas, as crianças são levadas à escola. Não há necessariamente desejo ou intenção ou compromisso de se aprender. E nessa escola, os professores precisam fazer a tal maternagem, fundar cidadãos, educar, ensinar, corrigir provas e trabalhos às centenas, fazer diários, preencher cadernetas, fazer cursos de aprimoramento presenciais e on line; tudo isso em troca de salários aviltantes, escorchantes, indignos, trabalhando sobre pressão, expostos a toda sorte de constrangimento, na medida em que não se pode reprovar, não se pode expulsar, não se pode revidar ofensas, apesar de agressões e até ameaças eventuais de morte. Isso existe e não há nessas palavras qualquer exagero. Institucionalizou-se a farsa, a fraude, a barbárie, o desgoverno e a impostura. O estado finge que paga; o professor finge que ensina, já que não há como sequer fazer valer sua autoridade em sala de aula, onde mal é ouvido; a direção tenta manter equilibrado todos esses vetores corrompidos e falidos, o que torna o ofício de lecionar um desafio inaquilatável, se não uma grande perda de tempo, de energia e de dinheiro público.
Não estamos conseguindo trabalhar. Não estamos conseguindo realizar um trabalho minimamente satisfatório e, mais cedo ou mais tarde, acabarão por chegar à conclusão que estamos a necessitar de assistência psicológica nas escolas, para alunos e professores; não obstante ser fundamental a presença, igualmente, se não policial, ao menos de segurança, que garanta a integridade física dos que padecem nesse turbilhão surreal, nesse inferno de Dante, penalizados, afinal, por terem descoberto e resolvido fazer valer suas vocações para o magistério. Padecem, principalmente, aqueles que ora estão a completar por volta de duas décadas de profissão, pois são estes que vivenciaram, em cheio, a transição; do paraíso – ou quase –, ao inferno!
É verdade que, em se fazendo vista grossa, toca-se o barco e empurra-se com a barriga. Porém, esse jamais será o caminho da vocação e da dignidade. Algo precisa ser pensado e feito, se desejam que existam professores responsáveis no futuro. Mesmo sabendo-se que, embora hoje, existam cursos de graduação em garagens, galpões, depósitos e buracos de metrô; pós-graduação por correspondência e uma nau de incompetentes vaidosos e inconsequentes dispostos a subempregos para ocupar esse honroso lugar de professor, não serão cafajestes e marginais, formados e pós-graduados em espeluncas, que ocuparão lugar de maior destaque e importância na sociedade; por mais insana e absurda que esta tenha se tornado.
*Escritor e cirurgião-dentista.
**Professor de Inglês e Mestre em Letras (UERJ)
Jornal O Impacto, Guararapes, 02 de Junho de 2012.

segunda-feira, 5 de março de 2012

A quem educa...


Esse texto me acompanha desde os primeiros anos de Magistério.

A Quem Educa...
Educa quem educará. E quem aprender a perder. Quem, ou cuja obra, permanecer muito depois do momento de educar. Educará quem for capaz de dar no presente, com decisão, coragem e sem culpas, tudo o que no futuro fizer lembrar - ainda que com dor mas se possível com muita alegria - o momento da educação.
Educar é perder sempre as batalhas do imediato. Menos o amor de quem percebe o quanto ele preside o gesto do educador. É perder qualquer pretensão do reconhecimento e saber que quando ele vier - se vier - já tempo não haverá para receber o agasalho de sua manifestação, nem como reparar as injustiças feitas, o silêncio, a falta do "muito obrigado". É perder porque é aceitar perdurar apenas na lembrança. É perder porque em qualquer sistema, em qualquer estrutura, em qualquer institucionalização de qualquer coisa sobre a face da terra, o verdadeiro educador estará ameaçando algo até mesmo tudo aquilo em que ele próprio acredita, porque o verdadeiro educador é aquele que acompanha as mutações da vida, dos tempos, dos comportamentos. É quem logo vê o abismo de imperfeições implícito no seu próprio ato de educar. Porque educar é educar-se a cada dia. E é ser capaz de eqüidistância de esquemas, sistemas ou fórmulas infalíveis e donas da verdade última das coisas.
Eu educo hoje com valores que recebi ontem para pessoas que são o amanhã. Os valores de ontem, os conheço. Os de hoje, percebo alguns. Dos de amanhã, não sei. Educo com os de ontem (os da minha formação)? Perderei os hojes e os amanhãs. Educo com os de hoje? Perderei o que havia de sólido nos de ontem e nada farei pelos de amanhã, que já serão outros. Educo com os de amanhã? Em nome do que? De adivinhações? Da minha precária maneira de conceber um amanha?
Se só uso os de ontem, não educo: condiciono. Se só uso os de hoje, não educo: complico. Se só uso os de amanhã, não educo: faço experiências à custa das crianças. Se uso os três, sofro. Mas educo.
Por isso educar é perder sem perder-se. Sempre. É ameaçar o estabelecido. Sempre. Mas é tudo isso sendo, também, integrar. Viver as perplexidades das mutações; conviver honradamente com angústias e incertezas; ir dormir cravado de dúvidas, mas ter sensibilidade para distinguir o que muda do que é apenas efêmero, o que é permanente do que é retardatário. É dormir assim e acordar no dia seguinte renovado pelo trabalho interior e poder devolver ao aluno, ao filho, a segurança, a fé, a confiança; formas éticas de comportamento, seu verdadeiro sentido de independência e de liberdade, seus deveres sociais consigo mesmo, com o próximo e com a sociedade, a parte que lhe cabe no esforço comum.
Educa quem educará. Quem for capaz de fundir ontens, hojes e amanhãs, transformando-os num presente onde o amor e o livre arbítrio sejam as bases. Educa quem educará porque capaz de dotar os seres dos elementos de interpretação dos vários 'presentes" que lhes surgirão repletos de "passados" e de "futuros".
O ser humano não é naturalmente bom nem é naturalmente mau. O ser humano é um feixe de emoções em conflitos, de poderes em confronto. Mas há alicerces básicos em seu comportamento, comuns a qualquer latitude ou longitude do terráqueo. Educa quem os fortalece, quem é capaz de dar proteínas, vigor e confiança ao lado humano do amor, mais forte que o do ódio, tanto que permite a vida do homem sobre a face da terra. E só quem educa transforma, por mais que as pessoas se iludam com o resto.
Educa a velha professora de quem nos lembramos, sabe Deus porque milênios depois num momento em que sua lembrança não tinha razões aparentes para vir à tona, como o velho tio, o amigo, o pai e mãe que voltam do passado com aquele olhar, aquela observação sobre a vida, à época julgados absurdo por nós. Educa aquele que só entendemos muitos anos depois e quando entendemos o espírito se liberta de antiga pressão, também chamada de remorso enrustido.
Educa o que nos exigiu forças que nos julgávamos desprovidos. Esforços de que nos acreditávamos incapazes. Confrontos conosco mesmos de que tanto fugimos e tantas desculpas menores encontramos para nos defrontar. Educa quem integra sempre e sempre pedaços de uma realidade eternamente mais ampla do que nós. E só quem educa, em qualquer nível ou atividade, merece viver integralmente as paradoxais intensidades de que é feita a vida.

Artur da Távola , In Mevitevendo, Salamandra, 1977.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Adolescentes e Autonomia: a metáfora da pipa

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Quem já empinou pipa sabe que o segredo para o sucesso da brinca­deira está em aproveitar a força e a direção do vento para fazê-la subir e depois, quando já no ar, saber tensionar a linha, pois quando muito esti­cada rompe-se, fazendo com que a pipa solta se perca pelos ares, ou, ao contrário, quando muito frouxa, leva a pipa a rodopiar nas alturas e cair.

Temos o conhecimento de que o jovem adolescente, objetivando a au­tonomia adulta, vez por outra não apresenta ferramentas que lhe permitam um posicionamento autônomo. Assim, trata-se de um tempo de construção de autonomia, e não uma época de um comportamento autônomo.

Por esse motivo, recorro à representação da pipa. Ao “dar linha" , lança­mos nossos adolescentes para as escolhas e decisões que já são capazes de fazer. Não podemos cerceá-los, pois corremos o risco de estar possibilitando a formação de adultos irresponsáveis.

Todavia não podemos confundir autonomia com irresponsabilida­de. Os novos jovens precisam ser responsabilizados pelas suas ações, pois, se ser autônomo é "ser dono do próprio nariz", também significa saber cuidar, ser responsável pelo próprio nariz. O saber cuidar só se consolida quando ocorre um exercício de responsabilidade pelas esco­lhas realizadas e pelas conseqüências que delas possam advir.

Por outro lado, os pais não podem se esquecer de que, se tensão demais arrebenta a linha da pipa, tensão de menos faz com que ela perca a estabi­lidade e o sentido.

Deixar o adolescente solto, sem limite ou sem orientação, é uma omissão do papel educativo que deve ser exercido pelos pais. Há momentos em que, pressionados pela mídia e pelos pares, os adolescentes sentem-se oprimidos e incapazes de reações de enfrentamento a determinadas pressões. É hora de puxar e enrolar a linha para reconduzi-lo a uma postura de equilíbrio.

Pais e mães comprometidos com a educação de seus filhos não devem ter medo de dizer não. Devemos esclarecer que pais não são "coleguinhas" e que, algumas vezes, mesmo correndo o risco de sermos tomados como antipáticos, temos a responsabilidade de impor alguns limites.

Os pais, então, têm a árdua tarefa de "puxar" e "soltar" o filho, como possivelmente fizeram com a pipa, quando crianças, até que se atinja o obje­tivo da educação, ou seja, que ele saiba" gerenciar" a angústia das escolhas e vivê-las de forma intensa.

Francisca Paris, In Almanaque Saraiva, Outubro 2008.



quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A Quem Educa


Recebi um e-mail de um amigo onde relatava a difícil tarefa de educar, de dar limites, de pais falarem a mesma linguagem, dos questionamentos de sua filha e as diferenças entre o “não” recebido na sua educação e o “não” questionado hoje pela nova geração.

Imediatamente lembrei-me deste texto que tantas vezes usei em sala de aula e embora tenha sido escrito há mais de 20 anos continua atual.

A Quem Educa...

Educa quem educará. E quem aprender a perder. Quem, ou cuja obra, permanecer muito depois do momento de educar. Educará quem for capaz de dar no presente, com decisão, coragem e sem culpas, tudo o que no futuro fizer lembrar - ainda que com dor mas se possível com muita alegria - o momento da educação.

Educar é perder sempre as batalhas do imediato. Menos o amor de quem percebe o quanto ele preside o gesto do educador. É perder qualquer pretensão do reconhecimento e saber que quando ele vier - se vier - já tempo não haverá para receber o agasalho de sua manifestação, nem como reparar as injustiças feitas, o silêncio, a falta do "muito obrigado". É perder porque é aceitar perdurar apenas na lembrança. É perder porque em qualquer sistema, em qualquer estrutura, em qualquer institucionalização de qualquer coisa sobre a face da terra, o verdadeiro educador estará ameaçando algo até mesmo tudo aquilo em que ele próprio acredita, porque o verdadeiro educador é aquele que acompanha as mutações da vida, dos tempos, dos comportamentos. É quem logo vê o abismo de imperfeições implícito no seu próprio ato de educar. Porque educar é educar-se a cada dia. E é ser capaz de eqüidistância de esquemas, sistemas ou fórmulas infalíveis e donas da verdade última das coisas.

Eu educo hoje com valores que recebi ontem para pessoas que são o amanhã. Os valores de ontem, os conheço. Os de hoje, percebo alguns. Dos de amanhã, não sei. Educo com os de ontem (os da minha formação)? Perderei os hojes e os amanhãs. Educo com os de hoje? Perderei o que havia de sólido nos de ontem e nada farei pelos de amanhã, que já serão outros. Educo com os de amanhã? Em nome do que? De adivinhações? Da minha precária maneira de conceber um amanha?

Se só uso os de ontem, não educo: condiciono. Se só uso os de hoje, não educo: complico. Se só uso os de amanhã, não educo: faço experiências à custa das crianças. Se uso os três, sofro. Mas educo.

Por isso educar é perder sem perder-se. Sempre. É ameaçar o estabelecido. Sempre. Mas é tudo isso sendo, também, integrar. Viver as perplexidades das mutações; conviver honradamente com angústias e incertezas; ir dormir cravado de dúvidas, mas ter sensibilidade para distinguir o que muda do que é apenas efêmero, o que é permanente do que é retardatário. É dormir assim e acordar no dia seguinte renovado pelo trabalho interior e poder devolver ao aluno, ao filho, a segurança, a fé, a confiança; formas éticas de comportamento, seu verdadeiro sentido de independência e de liberdade, seus deveres sociais consigo mesmo, com o próximo e com a sociedade, a parte que lhe cabe no esforço comum.

Educa quem educará. Quem for capaz de fundir ontens, hojes e amanhãs, transformando-os num presente onde o amor e o livre arbítrio sejam as bases. Educa quem educará porque capaz de dotar os seres dos elementos de interpretação dos vários 'presentes" que lhes surgirão repletos de "passados" e de "futuros".

O ser humano não é naturalmente bom nem é naturalmente mau. O ser humano é um feixe de emoções em conflitos, de poderes em confronto. Mas há alicerces básicos em seu comportamento, comuns a qualquer latitude ou longitude do terráqueo. Educa quem os fortalece, quem é capaz de dar proteínas, vigor e confiança ao lado humano do amor, mais forte que o do ódio, tanto que permite a vida do homem sobre a face da terra. E só quem educa transforma, por mais que as pessoas se iludam com o resto.

Educa a velha professora de quem nos lembramos, sabe Deus porque milênios depois num momento em que sua lembrança não tinha razões aparentes para vir à tona, como o velho tio, o amigo, o pai e mãe que voltam do passado com aquele olhar, aquela observação sobre a vida, à época julgados absurdo por nós. Educa aquele que só entendemos muitos anos depois e quando entendemos o espírito se liberta de antiga pressão, também chamada de remorso enrustido.

Educa o que nos exigiu forças que nos julgávamos desprovidos. Esforços de que nos acreditávamos incapazes. Confrontos conosco mesmos de que tanto fugimos e tantas desculpas menores encontramos para nos defrontar. Educa quem integra sempre e sempre pedaços de uma realidade eternamente mais ampla do que nós. E só quem educa, em qualquer nível ou atividade, merece viver integralmente as paradoxais intensidades de que é feita a vida.

Artur da Távola , In Mevitevendo.

*Os grifos são meus.