Mostrando postagens com marcador Mia Couto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mia Couto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A leitura do mundo....


Ilustração Marina Seoane

É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida.
Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto.
Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta.
Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias
e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história.
Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.
Mia Couto

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tradutor de Chuvas


Tradutor de Chuvas

Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.

Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Editora Caminho.

“Quando começo a escrever a poesia surge-me como um estorvo.” Mia Couto em entrevista ao JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Portugal

sábado, 5 de março de 2011

O Menino que Fazia Versos


 O Menino que fazia versos
De que vale ter voz?
Se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar?
Se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

- Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na família ?
- Desculpe, doutor ?
O médico destrocou-se por tintins, Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
- Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação. Sim, perfume de igual qualidade qual outra mulher pode sequer sonhar ? Pobres que fossem os dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e a escola do miúdo. Mas eis que começam a aparecer, pelos recantos da casa, papeis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
- São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual ? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto ?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
- O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões, e sobretudo lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era por cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa ?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: está a ver, doutor ? Está ver ? O médico voltou a erguer o olhos e a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores ?
- O que melhor sei fazer, excelência, é sonhar.
Serafina voltou à carga e sapateou a nuca do filho. Não lembrava o que pai lhe dissera sobre os sonhos ? Que fosse sonhar longe ! Mas o filho reagiu: longe, porquê ? Perto, o sonho aleijaria alguém ? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o riso. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, já inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte foram os últimos a serem atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos ? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever ?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho esse pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho - quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.
- Não importa, respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.
Mia Couto, In O Fio das Missangas

domingo, 4 de abril de 2010

Abrigando...


Mia Couto diz que não é a casa que nos abriga, nós é que abrigamos a casa.
Fiz essa foto na 6ª feira, na casa do meu sobrinho, registrando a visita diária que os micos fazem para receberem banana acompanhada de afeto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

II - Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Desencontro (2)

No avesso das palavras

na contrária face

da minha solidão

eu te amei

e acariciei

o teu imperceptível crescer

como carne da lua

nos nocturnos lábios entreabertos


E amei-te sem saberes

amei-te sem o saber

amando de te procurar

amando de te inventar


No contorno do fogo

desenhei o teu rosto

e para te reconhecer

mudei de corpo

troquei de noites

juntei crepúsculo e alvorada


Para me acostumar

à tua intermitente ausência

ensinei às timbilas

a espera do silêncio

Julho 1981

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Regresso

Voltar

a percorrer o inverso dos caminhos

reencontrar a palavra sem endereço

e contra o peito insuficiente

oferecer a lágrima que não nos defende


Recolher as marcas da minha lonjura

os sinais passageiros da loucura

e adormecer pela derradeira vez

nos lençóis em que anoitecemos


Reencontrar secretamente

o fugaz encanto

o perfeito momento

em que a carne tocou a fonte

e o sangue

fora de mim

procurou o seu coração primeiro

Bilene, Janeiro 1981

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Confidência

Diz o meu nome

pronuncia-o

como se as sílabas te queimassem

[os lábios

sopra-o com a suavidade

de uma confidência

para que o escuro apeteça

para que se desatem os teus cabelos

para que aconteça


Porque eu cresço para ti

sou eu dentro de ti

que bebe a última gota

e te conduzo a um lugar

sem tempo nem contorno


Porque apenas para os teus olhos

sou gesto e cor

e dentro de ti

me recolho ferido

exausto dos combates

em que a mim próprio me venci


Porque a minha mão infatigável

procura o interior e o avesso

da aparência

porque o tempo em que vivo

morre de ser ontem

e é urgente inventar

outra maneira de navegar

outro rumo outro pulsar

para dar esperança aos portos

que aguardam pensativos


No húmido centro da noite

diz o meu nome

como se eu te fosse estranho

como se fosse intruso

para que eu mesmo me desconheça

e me sobressalte

quando suavemente

pronunciares o meu nome

Agosto 1979

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Despedida

Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos

quando anunciaste a despedida

e eu que habitara lugares secretos

e me embriagara com os teus gestos

recolhi as palavras vagabundas

como a tempestade que engole os barcos

porque ama os pescadores


Impossível separarmo-nos

agora que gravaste o teu sabor

sobre o súbito

e infinito parto do tempo


Por isso te toco

no grão e na erva

e na poeira da luz clara

a minha mão

reconhece a tua face de sal


E quando o mundo suspira

exausto

e desfila entre mercados e ruas

eu escuto sempre a voz que é tua

e que dos lábios

se desprende e se recolhe


Ali onde se embriagam

os corpos dos amantes

o te ventre aceitou a gota inicial

e um novo habitante

enroscou-se no segredo da tua carne



Nesse lugar

encostámos os nossos lábios

à funda circulação do sangue

porque me amavas

eu acreditava ser todos os homens

comandar o sentido das coisas

afogar poentes

despertar séculos à frente

e desenterrar o céu

para com ele cobrir

os teus seios de neve

Maio, 1977

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Saudade

Magoa-me a saudade

do sobressalto dos corpos

ferindo-se de ternura

sói-me a distante lembrança

do teu vestido

caindo aos nossos pés


Magoa-me a saudade

do tempo em que te habitava

como o sal ocupa o mar

como a luz recolhendo-se

nas pupilas desatentas


Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,

tua noite sem remédio

tua virtude, tua carência

eu

que longe de ti sou fraco

eu

que já fui água, seiva vegetal

sou agora gota trémula, raiz exposta


Traz

de novo, meu amor,

a transparência da água

dá ocupação à minha ternura vadia

mergulha os teus dedos

no feitiço do meu peito

e espanta na gruta funda de mim

os animais que atormentam o meu sono

Outubro, 1979

in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Foto: minha

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato

morro
no mundo por que luto

nasço

Setembro, 1977
Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Trajecto

Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher

Setembro, 1980

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Manhã

Estou

E num breve instante

Sinto tudo

Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo

E despeço-me de mim

Para me encontrar

No próximo olhar .

Ausento-me da morte

não quero nada

eu sou tudo

respiro-me até à exaustão .

Nada me alimenta

porque sou feito de todas as coisas

e adormeço onde tombam a luz

[e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)

deve ser bebida

quando os lábios estiverem

[já mortos

Educadamente mortos

Novembro, 1979


Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Palavra que desnudo

Entre a asa e o voo

nos trocámos

como a doçura e o fruto

nos unimos

num mesmo corpo de cinza

nos consumimos

e por isso

quando te recordo

percorro a imperceptível

fronteira do meu corpo

e sangro

nos teus flancos doloridos

Tu és o encoberto lado

da palavra que desnudo

Abril, 1981

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Primeira Palavra

Aproxima o teu coração

e inclina o teu sangue

para que eu recolha

os teus inacessíveis frutos

para que prove da tua água

e repouse na tua fronte

Debruça o teu rosto

sobre a terra sem vestígio

prepara o teu ventre

para a anunciada visita

até que nos lábios humedeça

a primeira palavra do teu corpo

Agosto 1980

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas


Desencontro (1)

Não ter morada

Habitar

Como um beijo

Entre os lábios

Fingir-se ausente

E suspirar

(o meu corpo

não se reconhece na espera)

percorrer com um só gesto

o teu corpo

e beber

toda a ternura

para refazer

o rosto

em que desapareces

o abraço

em que desobedeces

Outubro 1979

Mia Couto, in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Vocação para o silêncio

"Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silencio: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural, sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é musica em estado de gravidez."

Mia Couto, In Antes de nascer o Mundo

sábado, 15 de agosto de 2009

Foto: minha

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura...

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava...

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência...

Mia Couto

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Confidência


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Mia Couto


Foto: Anna Clara Carvalho


“Sou filho de poeta, nasci entre livros e mais do que entre livros, nasci com essa doença do não nos bastar o mundo real”. Mia Couto