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sábado, 28 de julho de 2012

Nise da Silveira


Nise da Silveira

Nise gigante de metrimeio. Nise tinhosa, valente, aguda. Nise terna. Nise felina, arquetípica: “Grande Mãe” com alma de “Puer Aeternus”. Nise memória do cárcere que libertou das ditaduras da psiquiatria tradicional. Nise da aventura maravilhosa de curar.
Nise que foi: mais cáctus que manga; mais mel que coca-cola; mais verdade que vacilação; mais queijo de coalho que cammembert; mais Beethoven que Chopin; mais Chaplin que Cecil B. de Mille; mais pífano que harpa; mais franqueza que medo; mais humildade que modéstia.
Nise concreta, Nise brava e forte na fragilidade maior da feminilidade imponente.
Nise mandacaru sempre florido por agudeza e percuciência, expressão estética da ética maior do ser tornado igual.
Nise alma de santa em estilo guerreiro, mescla de forças abissais com sutilezas orientais.
Nise hostil às formas de poder não oriundos do saber. Nise sacerdotisa dos gatos com quem aprendemos a sabedoria milenar do instinto e a rara civilização do sutil. Nise dos cães, seus terapeutas que ajudaram esquizofrênicos a se manifestar e a trazerem de seu pulcro mundo ocultos, tanto belezas quanto a possibilidade de alcançar universos que os chamados sadios jamais vislumbrarão.
Nise exação em pessoa como servidora pública exemplar; para quem servir era o único escopo da atividade.
Nise terapeuta ágil, leal e profunda a encadear nas imagens do inconsciente as descobertas de eras imemoriais e do patrimônio comum à humanidade. Nise do inconsciente coletivo, do self anima casado com animus, velho sábio amigo do herói, memória da célula.
Nise da arqueologia da mente e dos elos cósmicos além dos racionalismos que infelicitaram o século XX. Nise veraz, luz, claridade, franqueza, ordem direta, o fim da evasiva, o começo da verdade, a verdade final, afinal a verdade. Nise intrépida, retilínea, indômita e audaz. Exemplo de vida!
 Nise mãe geral de um Brasil menino e enfermo, pobre e desvalido. Obreira da grandeza civil, desbravadora dos continentes internos, antropóloga das profundezas. Nise asceta, seiva viva, anciã de todas as juventudes, jovem de todas as eras.
Nise pássaro, graúna azul, olhar raio x, aguda percepção da falsidade alheia tanto quanto da verdade e do bem igualmente moradores na alma do ser. Nise áspera se necessária e seixo de rio sempre que encontrava alma irmã.
Nise Brasil, Nise elo de gerações, marca da capacidade humana de ser, crescer, criar, ousar, aventurar-se no caminho maior da entrega da vida ao bem da humanidade.

Artur da Távola, Revista Quaternio - Nº 8, 2001 - Grupo de Estudo C. G. Jung.

*Artur da Távola foi Presidente da Casa das Palmeiras  de  novembro de 2005 a dezembro de 2007.

A Casa das Palmeiras é uma Instituição de reabilitação psiquiátrica com Terapia Ocupacional, Emoção de Lidar, em regime aberto, idealizada por Nise da Silveira, fundada por ela com a colaboração da psiquiatra Maria Stela Braga, da artista plástica Belah Paes Leme, da assistente social Ligia Loureiro e da educadora Alzira Lopes Cortes, na presença de muitos amigos, num domingo à tarde, dia 23 de dezembro de 1956.
A Casa das Palmeiras não segue padrões convencionais de reabilitação. É um pequeno território de relações humanas afetivas e de atividades criadoras onde os clientes têm a oportunidade de, espontaneamente, realizarem seus trabalhos expressivos lhes facilitando a entrada em contato com a vida. Os trabalhos são assinados, datados e arquivados para serem estudados em série. Método inspirado na prática terapêutica ocupacional a partir da observação com os próprios clientes e enriquecidos com a Psicologia Analítica de C. G. Jung.
A Casa das Palmeiras é pioneira na América Latina e inovadora na história da moderna psiquiatria.
Rua Sorocaba 800, Botafogo, Rio de Janeiro, Brasil.
http://casadaspalmeiras.blogspot.com.br/

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vamos feliçar?


Ilustração: Kun Fruzsi

ESCOLHENDO OS VERBOS

Sou eu que faço você sofrer?
Ou é você que sofre por minha causa?
Ou, ainda, é você que sofre por sua própria causa?

Chegar a essa pergunta (leva anos e anos)
é essencial na relação de amor.
A resposta demandará muito tempo, sofrimento,
e em cada caso será diferente.
Mas, se encontrada, melhorará qualquer relação
ou constatará o seu término.

Proponho, como exercício, uma atitude de troca.
Sim, troca de palavras.
Onde se lê sofrer, leia-se feliçar
(por que felicidade não tem verbo?).
A pergunta, então, ficaria assim:
“Sou eu que faço você feliz ou é você que
feliça (eu feliço, tu feliças...) por minha causa?

Curiosa e masoquista a vida.
O verbo sofrer é complicado.
Feliçar é simples,
Por que a gente prefere conjugar o sofrer?
Artur da Távola

segunda-feira, 5 de março de 2012

A quem educa...


Esse texto me acompanha desde os primeiros anos de Magistério.

A Quem Educa...
Educa quem educará. E quem aprender a perder. Quem, ou cuja obra, permanecer muito depois do momento de educar. Educará quem for capaz de dar no presente, com decisão, coragem e sem culpas, tudo o que no futuro fizer lembrar - ainda que com dor mas se possível com muita alegria - o momento da educação.
Educar é perder sempre as batalhas do imediato. Menos o amor de quem percebe o quanto ele preside o gesto do educador. É perder qualquer pretensão do reconhecimento e saber que quando ele vier - se vier - já tempo não haverá para receber o agasalho de sua manifestação, nem como reparar as injustiças feitas, o silêncio, a falta do "muito obrigado". É perder porque é aceitar perdurar apenas na lembrança. É perder porque em qualquer sistema, em qualquer estrutura, em qualquer institucionalização de qualquer coisa sobre a face da terra, o verdadeiro educador estará ameaçando algo até mesmo tudo aquilo em que ele próprio acredita, porque o verdadeiro educador é aquele que acompanha as mutações da vida, dos tempos, dos comportamentos. É quem logo vê o abismo de imperfeições implícito no seu próprio ato de educar. Porque educar é educar-se a cada dia. E é ser capaz de eqüidistância de esquemas, sistemas ou fórmulas infalíveis e donas da verdade última das coisas.
Eu educo hoje com valores que recebi ontem para pessoas que são o amanhã. Os valores de ontem, os conheço. Os de hoje, percebo alguns. Dos de amanhã, não sei. Educo com os de ontem (os da minha formação)? Perderei os hojes e os amanhãs. Educo com os de hoje? Perderei o que havia de sólido nos de ontem e nada farei pelos de amanhã, que já serão outros. Educo com os de amanhã? Em nome do que? De adivinhações? Da minha precária maneira de conceber um amanha?
Se só uso os de ontem, não educo: condiciono. Se só uso os de hoje, não educo: complico. Se só uso os de amanhã, não educo: faço experiências à custa das crianças. Se uso os três, sofro. Mas educo.
Por isso educar é perder sem perder-se. Sempre. É ameaçar o estabelecido. Sempre. Mas é tudo isso sendo, também, integrar. Viver as perplexidades das mutações; conviver honradamente com angústias e incertezas; ir dormir cravado de dúvidas, mas ter sensibilidade para distinguir o que muda do que é apenas efêmero, o que é permanente do que é retardatário. É dormir assim e acordar no dia seguinte renovado pelo trabalho interior e poder devolver ao aluno, ao filho, a segurança, a fé, a confiança; formas éticas de comportamento, seu verdadeiro sentido de independência e de liberdade, seus deveres sociais consigo mesmo, com o próximo e com a sociedade, a parte que lhe cabe no esforço comum.
Educa quem educará. Quem for capaz de fundir ontens, hojes e amanhãs, transformando-os num presente onde o amor e o livre arbítrio sejam as bases. Educa quem educará porque capaz de dotar os seres dos elementos de interpretação dos vários 'presentes" que lhes surgirão repletos de "passados" e de "futuros".
O ser humano não é naturalmente bom nem é naturalmente mau. O ser humano é um feixe de emoções em conflitos, de poderes em confronto. Mas há alicerces básicos em seu comportamento, comuns a qualquer latitude ou longitude do terráqueo. Educa quem os fortalece, quem é capaz de dar proteínas, vigor e confiança ao lado humano do amor, mais forte que o do ódio, tanto que permite a vida do homem sobre a face da terra. E só quem educa transforma, por mais que as pessoas se iludam com o resto.
Educa a velha professora de quem nos lembramos, sabe Deus porque milênios depois num momento em que sua lembrança não tinha razões aparentes para vir à tona, como o velho tio, o amigo, o pai e mãe que voltam do passado com aquele olhar, aquela observação sobre a vida, à época julgados absurdo por nós. Educa aquele que só entendemos muitos anos depois e quando entendemos o espírito se liberta de antiga pressão, também chamada de remorso enrustido.
Educa o que nos exigiu forças que nos julgávamos desprovidos. Esforços de que nos acreditávamos incapazes. Confrontos conosco mesmos de que tanto fugimos e tantas desculpas menores encontramos para nos defrontar. Educa quem integra sempre e sempre pedaços de uma realidade eternamente mais ampla do que nós. E só quem educa, em qualquer nível ou atividade, merece viver integralmente as paradoxais intensidades de que é feita a vida.

Artur da Távola , In Mevitevendo, Salamandra, 1977.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Revisitando Artur da Távola

O encontro e a ocupação do próprio espaço implica a descoberta (tranqüila ou dolorosa) do que é realmente nosso e do que é dos outros e ficou preso dentro de nós. Aí está uma das descobertas fundamentais do ser humano.
Descobrir e ocupar o próprio espaço é encontrar a verdade existencial: no bom e no ruim que tenhamos. É ocupar com material próprio tudo o que somos e fazemos. É encontrar e seguir o próprio destino. Não o destino, no sentido fatalista. Mas o destino no sentido da destinação profunda do que somos, fazemos e queremos.
Artur da Távola, In Alguém que já não fui.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A Quem Educa


Recebi um e-mail de um amigo onde relatava a difícil tarefa de educar, de dar limites, de pais falarem a mesma linguagem, dos questionamentos de sua filha e as diferenças entre o “não” recebido na sua educação e o “não” questionado hoje pela nova geração.

Imediatamente lembrei-me deste texto que tantas vezes usei em sala de aula e embora tenha sido escrito há mais de 20 anos continua atual.

A Quem Educa...

Educa quem educará. E quem aprender a perder. Quem, ou cuja obra, permanecer muito depois do momento de educar. Educará quem for capaz de dar no presente, com decisão, coragem e sem culpas, tudo o que no futuro fizer lembrar - ainda que com dor mas se possível com muita alegria - o momento da educação.

Educar é perder sempre as batalhas do imediato. Menos o amor de quem percebe o quanto ele preside o gesto do educador. É perder qualquer pretensão do reconhecimento e saber que quando ele vier - se vier - já tempo não haverá para receber o agasalho de sua manifestação, nem como reparar as injustiças feitas, o silêncio, a falta do "muito obrigado". É perder porque é aceitar perdurar apenas na lembrança. É perder porque em qualquer sistema, em qualquer estrutura, em qualquer institucionalização de qualquer coisa sobre a face da terra, o verdadeiro educador estará ameaçando algo até mesmo tudo aquilo em que ele próprio acredita, porque o verdadeiro educador é aquele que acompanha as mutações da vida, dos tempos, dos comportamentos. É quem logo vê o abismo de imperfeições implícito no seu próprio ato de educar. Porque educar é educar-se a cada dia. E é ser capaz de eqüidistância de esquemas, sistemas ou fórmulas infalíveis e donas da verdade última das coisas.

Eu educo hoje com valores que recebi ontem para pessoas que são o amanhã. Os valores de ontem, os conheço. Os de hoje, percebo alguns. Dos de amanhã, não sei. Educo com os de ontem (os da minha formação)? Perderei os hojes e os amanhãs. Educo com os de hoje? Perderei o que havia de sólido nos de ontem e nada farei pelos de amanhã, que já serão outros. Educo com os de amanhã? Em nome do que? De adivinhações? Da minha precária maneira de conceber um amanha?

Se só uso os de ontem, não educo: condiciono. Se só uso os de hoje, não educo: complico. Se só uso os de amanhã, não educo: faço experiências à custa das crianças. Se uso os três, sofro. Mas educo.

Por isso educar é perder sem perder-se. Sempre. É ameaçar o estabelecido. Sempre. Mas é tudo isso sendo, também, integrar. Viver as perplexidades das mutações; conviver honradamente com angústias e incertezas; ir dormir cravado de dúvidas, mas ter sensibilidade para distinguir o que muda do que é apenas efêmero, o que é permanente do que é retardatário. É dormir assim e acordar no dia seguinte renovado pelo trabalho interior e poder devolver ao aluno, ao filho, a segurança, a fé, a confiança; formas éticas de comportamento, seu verdadeiro sentido de independência e de liberdade, seus deveres sociais consigo mesmo, com o próximo e com a sociedade, a parte que lhe cabe no esforço comum.

Educa quem educará. Quem for capaz de fundir ontens, hojes e amanhãs, transformando-os num presente onde o amor e o livre arbítrio sejam as bases. Educa quem educará porque capaz de dotar os seres dos elementos de interpretação dos vários 'presentes" que lhes surgirão repletos de "passados" e de "futuros".

O ser humano não é naturalmente bom nem é naturalmente mau. O ser humano é um feixe de emoções em conflitos, de poderes em confronto. Mas há alicerces básicos em seu comportamento, comuns a qualquer latitude ou longitude do terráqueo. Educa quem os fortalece, quem é capaz de dar proteínas, vigor e confiança ao lado humano do amor, mais forte que o do ódio, tanto que permite a vida do homem sobre a face da terra. E só quem educa transforma, por mais que as pessoas se iludam com o resto.

Educa a velha professora de quem nos lembramos, sabe Deus porque milênios depois num momento em que sua lembrança não tinha razões aparentes para vir à tona, como o velho tio, o amigo, o pai e mãe que voltam do passado com aquele olhar, aquela observação sobre a vida, à época julgados absurdo por nós. Educa aquele que só entendemos muitos anos depois e quando entendemos o espírito se liberta de antiga pressão, também chamada de remorso enrustido.

Educa o que nos exigiu forças que nos julgávamos desprovidos. Esforços de que nos acreditávamos incapazes. Confrontos conosco mesmos de que tanto fugimos e tantas desculpas menores encontramos para nos defrontar. Educa quem integra sempre e sempre pedaços de uma realidade eternamente mais ampla do que nós. E só quem educa, em qualquer nível ou atividade, merece viver integralmente as paradoxais intensidades de que é feita a vida.

Artur da Távola , In Mevitevendo.

*Os grifos são meus.


sexta-feira, 16 de maio de 2008

“É preciso muito viver, muito desilusionar-se, muito gostar, muito sentir, muito experimentar, muito perder, muito entediar, muito renunciar, para encontrar o próprio amor. Falo do amor guardado não se sabe em que dobra da gente.”

Artur da Távola, trecho da crônica “Sobre amor e alegria”.