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sexta-feira, 5 de março de 2010

Um Durango na Daslu

Sempre tive vontade de conhecer essa tal de Daslu.
Já que estava em São Paulo, por que não ir? Ainda mais depois que me disseram que lá não existe nenhuma peça que custe menos de três dígitos, resolvi dar uma de São Tomé e ver para crer.

A entrada já foi um problema. O segurança perguntou pelo meu carro – ou motorista. Quem já foi sabe muito bem: na Daslu - acreditem - não se entra a pé, somente motorizado. Fingi que não era comigo e entrei.

Fui recepcionado por uma loira escultural com sorriso de anúncio de dentifrício, uma sósia escrita e escarrada da Ana Hickman - com direito a 1m30 de pernas, chapinha no cabelo, olho azul e muito mais.

- 'Where are you from?'.
- 'Belém do Pará'.
- 'I beg your pardon!'

Tava na cara que eu não era paulistano. Mas daí a me confundir com gringo, já é demais. Eu lá tenho cara de estrangeiro! Como um cão sabujo, onde eu ia, ela ia
atrás.

Dos milhares de itens que admirei boquiaberto, um em particular me encantou. Uma bolsa tiracolo Prada pra lá de maneira que imaginei que coubesse no meu orçamento. Ressabiado, indaguei o preço.

- 'Nove, apenas nove. E o senhor pode dividir em três vezes no cartão'.

- 'Nove o quê?'
- 'Nove mil...'
- 'Égua!'

A pequena ficou tão assustada com minha reação que cheguei a pensar que fosse chamar os seguranças. Mas não. Acho que ela sacou que daquele mato não sairia cachorro, no máximo um carrapato. Fechou a cara, deu meia-volta e sumiu. Já que estava na chuva, resolvi me molhar.

Entrei num salão onde só tinha Armani. Como já estava enturmado, perguntei o preço de um 'vestidinho' de festa. Adivinhem? 100.000 pilas. Tu és doido! Uma estola de zibelina? 60.000.

Fico imaginando quantos bichinhos foram sacrificados para esquentar o lombo de uma madame. Um blaser Ermenegildo Zegna (isso lá é nome de grife?), 13.000.

Um óculos Gucci, 4.500. Uma cuequinha básica do Valentino, 260. Com direito a ouvir essa pérola do vendedor:
- 'Leve logo meia dúzia, tá na promoção!'. Imaginem quanto ela custava antes.

Na adega climatizada não foi diferente. Um Romaneé-Conti, safra 2000 - aquele do Lula - estava por módicos 8.000 reais. Uma garrafa de Johnnie Walker Blue, envelhecida 80 anos - uma das raras existentes no planeta, 55.000.

Fiz as contas e verifiquei que no final saí no lucro. 'Charlei', vi gente famosa, coisas bonitas, tomei mineral Badoit, capuccino, Prosecco, champanhe Taittinger, fartei-me de canapés, fois gras, blinis com caviar (não era Beluga). Sou duro, mas sei o que é bom. Até confit de canard tracei. De quebra, profiteroles e apetitosos bombons trufados. As horas passaram voando. Minha acompanhante finalmente apareceu e perguntou:
- 'Vamos almoçar?'
- 'Almoço? Estou almoçado e jantado!'

Depois de conhecer quase tudo descobri que a Daslu é uma espécie de zoológico sem grades. Só que os bichos somos nós. Eu e você. Acabado, me esparramei num confortável sofá. Enquanto esperava o resto da turma chegar, abri um livro e relaxei. Mal virei a segunda página, dois novos ricos falando alto, com mais sacolas do que mãos, sentaram ao meu lado esnobando:
- 'Amanhã vamos para o nosso haras em Catanduva. O réveillon será no Guarujá'.

Me deu uma raiva... Peguei meu celular e resolvi mentir um pouco:
- 'Paulo, não encontrei nenhum 'Summer' para o réveillon. Abastece o jatinho.
Partimos amanhã cedo para Paris. Essa Daslu tá um lixo!'
A cara que os dois fizeram, não tem preço...

Denis Cavalcante

terça-feira, 2 de março de 2010

Cabelo Bandido


Imagem: Google


A mulher que já nasceu escrava do cabelo bandido

Sou escrava dos meus cabelos desde que me entendo por gente. Ainda criança, pedia à babá que os enrolasse e depois ficava encantada com a minha própria imagem de cachinhos dourados refletida no espelho. Então veio a adolescência enfatizando a vaidade e, junto com ela, uma paixão escondida que nutria por um menino do ginásio. Em nome das duas, vaidade e paixão, passei a dormir todas as noites (ou a tentar fazê-lo) de rolos, mesmo que eles repuxassem meu couro cabeludo, que os grampos o espetassem como uma coroa de espinhos e que vovó dissesse que eu ia acabar careca.

Era uma verdadeira tortura que eu suportava contanto que os cabelos ficassem pra dentro, tipo ''pagem'', com uma única onda em cima do olho. Tudo por causa da moda e do menino do ginásio, que chegava de moto, nem te ligo pra mim... Então eu voltava pra casa e falava sozinha defronte ao espelho, em inglês, como nos filmes da Metro, imaginando o motoqueiro do colégio se declarar:

- I love you...

Depois, com os anos 60, vieram os Beatles. Fui vê-los no Teatro Olympia, em Paris, e esperá-los na porta de saída pra gritar de histeria, na chuva, no meio dos outros tietes. Daí em diante, os Beatles passaram a ditar a moda dos pensamentos, palavras e obras de todos os jovens do planeta. Aí começou o problema. Porque cabelos crespos naquela época era sinônimo de palavrão e alisá-los, pra mim, era muito mais difícil que encrespá-los. Então comecei a passá-los a ferro, ajoelhada no chão do quarto de empregada, em frente à tábua de passar roupa, com a mesma babá que um dia os havia ondulado, numa nova modalidade de tortura.

Depois fazia uma touca e colocava um pano por cima achatando-os para que não armassem. Repetia todas as semanas o mesmo ritual e chegávamos ao ponto, eu e minhas amigas, de enrolarmos os cabelos no escurinho do cinema e só soltá-los quando iam acender a luz. Um dia perdi uma paquera porque a luz acendeu enquanto eu tentava desprender o grampo do lenço que, por sua vez, tinha agarrado no brinco. Minha amiga gargalhava e eu escondia o rosto, apavorada, com medo de que o rapaz me visse daquele jeito. Até hoje ele deve achar que lhe dei o bolo, faltando à sessão das quatro.

Depois, mais tarde, quando já era atriz, fiz uma peça viajando pelo Nordeste e não saía do hotel refrigerado pros cabelos não encresparem, enrolando-se nas gotas da umidade local. O cabeleireiro do teatro perguntou se eu queria fazer a ''rodilha depois do mise-en-plis''. Levei um tempo até descobrir que rodilha era touca. E passei a temporada inteira de rodilha, dormindo de touca.

Lugar quente era um problema sério pra mim naquela época, a ponto de me recusar a passar os fins de semana na ilha particular do pai do meu namorado porque teria que mergulhar na água transparente e secá-los ao léu, o que faria com que meu namorado e o da minha amiga descobrissem que tínhamos cabelos crespos.

Então preferíamos Petrópolis, que era frio e tinha tomada e luz elétrica onde podíamos conectar o secador e nos sentir mais protegidas, embora chovesse a cântaros e os respingos e a umidade estragassem todo o nosso mise-en-plis.

Metade da minha vida e dos passeios maravilhosos, perdi, na época, por culpa dos Beatles e dos Rolling Stones, que vieram para nos libertar de muitos tabus, mas não o da forma ou fôrma obrigatória dos cabelos. Então veio a época hippie e resolvi adotar os cachos para, escrava da moda, não parecer careta. Mas me achava horrível! Gostava da bata indiana, da calça boca-de-sino, mas dos cabelos ondulados, forçava a barra pra tolerar.

Até que chegou a fase pós-moderna (graças a Deus!), quando cada um usa a moda que lhe fica melhor, do jeito que lhe der na telha, numa gama de escolhas que vai da década de 20 ao século 21. Escolhi ficar lisa de novo, voltei a enrolar o cabelo, a usar touca. Então fui fazer escova no cabeleireiro e ele perguntou se eu não preferia um alisamento japonês, definitivo. Disse que não. Detesto aquele horror espetado, de ponta seca feito Visconde de Sabugosa. E sobretudo qualquer coisa definitiva!

Então o cabeleireiro ajeitou o piercing do nariz, fez um trejeito contrariado e disse que pra cabelo ''bandido'' era o único jeito. Perguntei o que era cabelo bandido e ele respondeu mal-humorado:

- É aquele, madame, que quando não está preso, está armado.

Maria Lucia Dahl , JB, 23/04/2004



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Carnaval

Nosso carnaval em Praia Seca, na casa do meu irmão Sergio, e seu bloco “A Toca de Don Ratão”.




Carro Abre Alas,


Don Ratão após ser coroado pelo amigo Carlinhos, “Don Ratão Gay”,



Léo, o Carvalhão, dando os últimos retoques no microfone do cantor,


Marianna, nossa porta estandarte,


Marquinhos na bateria,


Temos vovós também na bateria,


Parte do bloco,


Parte do bloco.





















terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Inspiração para o pipi....

Fotos: Regina Coeli Carvalho

Portas dos banheiros de Señor Tango, casa de show em Buenos Aires.



sábado, 29 de novembro de 2008

O que é, o que é?


Que troço esquisito

que começa com para sempre

atravessa até que a morte nos separe

e termina com preferia nunca ter te conhecido?


Estrela Ruiz Leminski



segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Prazeres pela metade

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido ? Uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação. O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.
A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco.

Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.
Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão..

Às vezes dá vontade de fazer tudo 'errado' ? deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.. Recusar prazeres incompletos e meias porções.
Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim:

'Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora'..

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do 'Law and Order', uma caixa de trufas bem macias e o Clive Owen embrulhado pra presente. Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

Leila Ferreira



domingo, 10 de agosto de 2008

Encerramento de atividade

Comunico que a partir desta data estou encerrando as atividades profissionais pois com o alto preço do aluguel, INSS,ISS,Conselho Regional, CEDAE,LIGHT,TELEMAR, e a concorrência desleal não dá mais para continuar.
Caso você esteja sem grana para pagar a terapia, seus problemas acabaram.....consulte o colega abaixo.





domingo, 8 de junho de 2008

sexta-feira, 25 de abril de 2008


O anúncio quando é bem feito
Criado com muito jeito,
Convence mãe, filho ou pai.
Se o anúncio disser com arte
Que vá a esta ou àquela parte,
Garanto que você vai!
Do poema "Anunciando" de Bastos Tigre