Mostrando postagens com marcador datas especiais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador datas especiais. Mostrar todas as postagens

sábado, 10 de agosto de 2013

O barbeador de papai


O barbeador de papai
Ao entrar em uma farmácia para comprar um “melhoral” meus olhos se fixaram em um pequeno estojo de aparelho de barbear. Comprei-o e presenteei meu pai. Ele me deu um beijo, agradeceu e guardou-o na gaveta da cômoda de seu quarto.
Não teve tempo de usar. Três dias após ele partiu.
De repente me lembrei desse pequeno objeto, guardado na minha caixinha de afetos durante tantos anos.
Convivi com meu pai apenas 21 anos, mas tempo suficiente para absorver sua ética, sua indignação diante das injustiças sociais, seu carinho pelos desfavorecidos social e economicamente e sua maneira delicada de presentear sempre acrescentando algo afetuoso ao objeto ofertado.
Saudade de você, pai.


Regina Coeli Carvalho em
Recanto das Letras 10/08/2013
Código do texto: T4428839
Classificação de conteúdo: seguro

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Dia do Amigo - Cumplicidade

Cumplicidade

Somos amigas desde bebês, como quando os destinos são traçados na maternidade.
Passamos juntas a infância, a adolescência, dividimos alegrias e tristezas, namoramos muito e nos divertimos à beça. Tudo entre nós acabava em gargalhadas.
Na década de 70, gostávamos de freqüentar barzinhos na Ilha do Governador: atitude não vista com bons olhos pela Tia Juçara, mãe da Mara.
Um sábado estávamos em casa durante uma “fossa” da Mara pelo término de um namorico. Resolvemos sair para bater papo, nos distrairmos. No entanto, como não podíamos dizer à tia que íamos à Ilha, usamos a “mentira cor-de-rosa” ao dizermos que íamos ao teatro.
Fomos para um barzinho, que hoje não existe mais, chamado Geranius. Música ao vivo, ambiente aconchegante, ideal à troca de dores de um amor terminado por alguns olhares.
De repente, adentra ao recinto o cantor Waldick Soriano com seu inseparável chapéu. Notamos sua presença, rimos um pouco, afinal, para nossa geração, ele era considerado um cantor “brega”.  Percebemos que ele me olhava insistentemente, desviamos o olhar e ríamos baixinho da situação. Pouco depois, chega o garçom e me entrega um cartão com o telefone do tal.
Ao chegarmos a casa, contamos o ocorrido para Tia Juçara. Ela, surpresa, nos perguntou onde o tínhamos encontrado. Mantivemos a mentira, afirmando ter sido no teatro. Toda a situação fazia daquela noite memorável: rimos tanto que a “fossa” da Mara esvaiu-se pelo ralo.
Foi então que, no dia seguinte, ao acordarmos, encontramos Tia Margarida, que estava de visita rápida a casa de Mara.
Papo vai, papo vem, contamos o ocorrido e - como mentira tem perna curta - quando Tia Margarida perguntou onde o encontramos, Mara respondeu: No Geranius. Imediatamente me encolhi, já esperando a reação de sua mãe. Rapidamente, Tia Juçara, num tom de voz alto e ameaçador, bradou: “Mara, não foi no teatro que o encontraram? Já não te disse que não quero vocês pelas bandas da Ilha? Duas moças sozinhas naqueles bares...”. Mara, que era rápida no gatilho naquelas situações, afirmou: Mamãe, foi no Gerânius sim, depois falamos sobre isso. Eu, a cada momento me encolhia mais na cadeira, pensando o que iria sair dali. Conversas amenas aconteceram e, tão logo, Tia Margarida foi embora. A pobre ainda não havia chegado ao portão de saída, quando Mara se dirigiu à mãe e disse: “Mamãe, quando eu falar alguma coisa a senhora não me desminta, por favor. Tia Margarida vive me pedindo para levá-la ao teatro. Se eu dissesse a verdade, ela ficaria triste comigo”.  Minha saudosa tia, então, lhe pede desculpas. Naquele momento, eu constatei que minha prima-irmã-amiga tinha o talento nato para ser atriz.
É essa história que conto inúmeras vezes para os jovens, quando falamos sobre a juventude gostosa que vivenciamos.
Hoje, eu e Mara não nos vemos com freqüência, pois a correria da vida não permite o contato no dia a dia, mas nossa amizade foi fortalecida com os laços do afeto, que perduram em nossa memória afetiva com o nome de cumplicidade.

Regina Coeli Carvalho, Julho de 2011
Relatei esse episódio inspirada em uma promoção do Dia do Amigo: “Escreva uma história marcante entre você e um amigo”.
Não participei da promoção ficou somente como registro da memória afetiva.


Recanto das Letras
Regina Coeli Carvalho em 19/07/2013
Código do texto: T4394949
Classificação de conteúdo: seguro


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Dia do Trabalho



Uma homenagem ao grande trabalhador, defensor incansável dos direitos dos comerciários, homem íntegro, politizado, amigo de políticos sem NUNCA ter se valido de amizades para tirar algum proveito em causa própria.
Diferente dos dias atuais os sindicalistas de sua época não se licenciavam, trabalhavam em seus empregos, exerciam seus mandatos fora do horário de trabalho.
Com ele aprendi a lutar pelos meus direitos, a ter um olhar generoso pelos desvalidos e a me indignar perante as injustiças.
Meus valores éticos e morais aprendi com seus exemplos.
Meu pai!

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Para minha filha, parceira, companheira e amiga


Meu desejo de dar à luz a uma menina era tão grande que ao fazer as ultra-sonografias não quis saber o sexo do bebê que aguardava. Pensava que se fosse um menino a frustração seria grande e assim esperava a surpresa para o momento do nascimento.
Mas já me comunicava com ela. Deitada no sofá conversava com aquele serzinho que se formava pedindo para que mexesse do lado direito se fosse uma menina e do lado esquerdo se fosse um menino.
Durante nossas conversas enquanto eu acariciava a minha barriga ela mexia do lado direito. A certeza de que a Clara estava a caminho ia se fazendo presente.
No dia 15 de Janeiro de 1990 ela chegou. Ao contrário da maioria das mães não verbalizei que era linda ou coisa parecida. Disse para o Léo: “Ela parece uma velhinha”.
Lembro da Dra. Rosa, minha obstetra, no dia seguinte ao seu nascimento dizendo que aquele parto foi cercado de uma vibração muito positiva e que algo lhe dizia que seríamos grandes amigas.
Nesses 23 anos de convívio, de troca de aprendizagens, posso afirmar que aprendi mais do que ensinei. Minha vida tem o antes e o depois da Clara.
Obrigada filha por iluminar com a sua alegria o meu caminho.
Obrigada por colaborar para que eu me tornasse uma pessoa melhor.
Que o “azul” seja a paleta predominante no colorido do seu novo ano.
Feliz aniversário!
Para não esquecer nosso código: “Eu te amo daqui a lua dez vezes ida e volta”.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Palhaço Palito


Ano de 1995 procurávamos uma atração para a Festa do Dia das Crianças no Hospital Infantil do Fundão.
Uma amiga entrou em contato com o Palhaço Palito para saber sobre seu cachê. Quando ele foi informado do objetivo da festa prontamente concordou em participar sem que fosse necessário qualquer pagamento para sua apresentação.
Nessa época realizávamos a festa em um pequeno espaço da entrada do hospital.
Ele chegou e foi se arrumar no auditório. Depois de caracterizado de palhaço, com maquiagem e seus devidos adereços, me chamou para saber um pouco sobre as crianças.
Quando informado que eram crianças soropositivas, que algumas brincadeiras não poderiam ser realizadas, pois eram muito frágeis quis saber mais sobre os efeitos da doença.
À medida que eu relatava o estado das crianças as suas lágrimas misturavam-se com sua maquiagem.
Minha filha, então com 5 anos, espantada perguntou-me:
“Mãe, palhaço chora?”
Essa imagem do Palhaço chorando guardo na minha memória afetiva com muito carinho.
Hoje, Dia do Palhaço, deixo registrada minha admiração e eterna gratidão por levar alegria e proporcionar muitas risadas para nossas crianças e para as crianças que ainda existem em nós.
Obrigada, Palhaço Palito!  

sábado, 3 de novembro de 2012

Obrigada, Heleninha


Durante muitos anos o dia 3 de novembro era dedicado a minha mãe.
Usava meus poucos dotes culinários para preparar seu bolo de aniversário.
Casa sempre cheia. Filhos, noras, genros, netos, bisnetos, amigos e quem mais chegasse.
Seu coração e disponibilidade para o outro estavam sempre abertos do tipo “sempre cabe mais um”.
Com ela aprendi a dividir e multiplicar afetos e principalmente o valor da gratidão.
Obrigada, Heleninha, por tudo que você deixou marcado em mim.
Feliz aniversário onde quer que você esteja.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Professor...


Professor
Um dia, alguém se propôs a trabalhar na construção de vidas. Estudou Psicologia, Filosofia e as melhores técnicas de comunicação. Passou minutos, horas, dias, observando o comportamento de todas as faixas etárias do ser humano. Sentiu-se vocacionado e, atendendo aos apelos do coração, inscreveu-se na batalha de frente da luta milenar contra o analfabetismo.
Armado de pouquíssimos recursos materiais postou-se de peito aberto, levando flechadas municipais, estaduais, federais.
Alguém especializou-se nas oficinas do ser humano e candidatou-se a reformar conceitos e valores da educação mal orientada. Inscreveu-se no concurso da vida, não se importando em sacrificar o próprio corpo na concorrência desleal de convênios, convenções, tratados e dissídios.
Alguém fez-se alheio às dificuldades, tendo plena certeza delas. Saiu disposto a questionar leis, portarias, resoluções e regimentos. Nos desmaios da sobrevivência, impôs-se.
Alguém foi nomeado, designado, empossado para o exercício do magistério. Não se perdeu no labirinto do caminho e nem se assustou com o fantasma da exigência impossível. Saiu a procurar o aluno perdido nas balas perdidas da guerra civil.
Alguém convive com a distância, com a fome, com a injustiça, com a carência e a canseira. Contudo ensina gerações a acreditar no futuro, a ter fé e não se deter.
Para um ser assim tão especial, só um nome poderia identificá-lo: professor.

Ivone Boechat – Revista Mundo Jovem, outubro/2007.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sugestões de presentes para o Dia da Criança





Diariamente ao abrir minha caixa de entrada de e-mails me deparo com uma série de sugestões de presentes para o dia das crianças.
Cada vez mais substituímos o Ter pelo Ser. Muitos pais compensam sua falta de tempo, muitas vezes de afeto, com o brinquedo caro que irá se juntar aos demais e brevemente será esquecido, pois outros estarão na sua lista de desejos.
No dia da criança leve seu filho para brincar no parque, correr no mato, pular na água, se esbaldar de brincar.
Mais vale um joelho arranhado do que uma “alma” fraturada.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Dia do Psicólogo


(...)
Nós Humanos somos Seres do Desejo.
Um ser que pensa, indaga, estuda, descobre e cria,
Ama, sente alegria. Desama,  e a tristeza.
Empreende, resolve, prevê e planeja.
Tudo isso porque deseja
incessantemente mais e mais a cada dia

Amando-nos ou não,
transformamo-nos uns aos outros.
E esses quereres nos transformam
enquanto transformamos o mundo.
Porém, o quanto somos imperfeitos!
E, em nossos microuniversos
assolados por demônios escondidos,
desejos errôneos, errantes,
vacilantes ou interditos
são atores em um palco de
sofrimentos e infindáveis conflitos.

A quem interessam esses conflitos?
Ao Psicólogo, certamente.
Aquele que irá se debruçar sobre a mente,
consciência e inconsciente,
ou como queiram chamar a subjetividade.
E que buscará entender comportamentos do grupo
e condicionamentos do indivíduo,
o que este pensa, percebe e sente
o manifesto, o latente,
o desenvolvimento, o sentido
da sua dinâmica subjacente.

Aquele cujo desejo é atenuar a própria narcísea ferida
no espelhar dos desejos do outro para este outro.

Lhe oferecendo agulha e linha,
auxiliando-o a melhor alinhavar sua vida.

Lhe oferecendo a tesoura se preciso, e desfazendo nós.
Lhe mostrando pontos cegos e pontos de integração
entre soma e psique, afeto e razão,
parte anima e a outra parte,
numa prática rara onde ciência encontra arte.

Tesoura, agulha e linha são ferramentas
desse curioso cientista-artesão.
Porém, psicólogo, saiba que não é sua a composição.
O tecido não é você quem tece.
Por vezes, duro como couro queimado
por outras, delicado,
é algo que desconhece,
e só se revela na relação.

Seja, assim, Psicólogo
com a humildade de saber que seu saber é limitado
e nunca imponha ao outro seu próprio tecido remendado.

Seja psicólogo
na eterna busca de novos conhecimentos, abordagens e visões,
mas saiba-o bem que, em certos momentos,
será guiado por insights súbitos, valiosas intuições
e mãos invisíveis...     

Seja psicólogo,
com senso de responsabilidade profissional,
e a compreensão crítica da política e ecologia social.
Presta assistência a indivíduos, organizações e comunidade.
Sana pouco a pouco suas doenças,
promove seu bem-estar e felicidade
de forma íntegra e exemplar,
com ética e dignidade.

Enfim, seja Psicólogo
transformando a si e ao mundo,
sempre fazendo valer o nobre desejo
de ajudar o outro a tecer
um outro criativo, vivo, maduro
de seu tecido infinito...”
(...)
Leonel Tractenberg, trechos da poesia (Trans)formar-se Psicólogo, discurso de formatura da turma de Psicologia da UFRJ de 1997. Jornal Argumento, Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, Junho,1998.

 
Começaria tudo outra vez se tivesse que escolher uma profissão. Foi através da psicologia que cresci, através do contato com pessoas, com suas dores e que através de nossas trocas deixaram aflorar seus sentimentos. Aplicar a ciência sem perder de vista o olhar poético sobre o ser humano e a nossa responsabilidade no crescimento e na ciranda da vida do outro.

Complementando com um pensamento de Jung que adotei para minha vida profissional:

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas quando tocar em uma alma humana seja apenas outra alma humana." Carl Gustav Jung

domingo, 19 de agosto de 2012

Dia Mundial da Fotografia....


Imagem de autoria desconhecida

Em 19 de Agosto de 1839 Louis Daguerre apresentou  publicamente  a primeira imagem produzida por um processo fotográfico.
O dia 19 de Agosto foi escolhido pela Academia de Belas Artes Francesa como o Dia Mundial da Fotografia..

“De todos os meios de expressão, a fotografia é o único que fixa para sempre o instante preciso e transitório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo capaz de faze-Ias voltar outra vez. Não podemos revelar ou copiar uma memória.”
Henri Cartier-Bresson

Meu abraço para minha amiga parceira Regina Bentes e para minha filha Anna Clara Carvalho.

domingo, 13 de maio de 2012

Dia das Mães


Dia das Mães
Sabemos do sentido comercial deste dia, porém se a nossa preocupação não estiver focada em dar presente e sim em ser presente todo dia é o dia das mães.

Hoje, se eu fosse uma menina, perguntaria à minha mãe.
"Mãe, o que é a alegria?"
E ela me responderia: "A alegria não é senão o desabrochar do amor. Do amor desinteressado. Desinteressado como o amor de mãe. E é por isso que mãe é feliz. Quanto mais desinteressado é o amor, mais a alegria é total.”
“Ah, menina, o que mais queres saber?”
 "Mãe por que tanta alegria se trabalhas tanto, se sofres tanto?"
"Minha filha, a alegria não suprime o esforço, ela o estimula. A alegria não suprime o sofrimento, ela o transfigura."
*Trecho de um texto escrito há muitos anos para minha mãe.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher .....


Como mulher me vejo inserida diariamente no meu dia. Dia de trabalhar, amar, gritar contra as injustiças, valorizar minhas amizades, minha família e buscar o crescimento.
Muitas vezes não sabemos a origem de nossa força, mas buscamos no fundo das nossas entranhas e nos parimos constantemente.
Meu abraço procês.


domingo, 1 de janeiro de 2012

Quem receberá a agenda?


Querida Solange,
Entre em contato através de e-mail e envie teu endereço completo para que eu possa enviar pelo correio teu brinde.
Que tenhas muitas alegrias  para registrar nas páginas da agenda.
Meu abraço a todos que postaram seus comentários .

sábado, 31 de dezembro de 2011

Novo Ano...


 Imagem: Liniers
 
"Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu o que dá beleza à nossa vida." Milan Kundera, In A Insustentável Leveza do Ser

Durante o ano de 2011 não foram poucos os tropeços, alguns sofreres, algumas dores, porém minha “memória poética” registrou muitos momentos agradáveis, novos amigos juntando-se a lista dos amigos de uma vida, muito carinho recebido, reencontros com ex-alunos queridos, surpresas e alegrias da filha, família se realinhando novamente.

Agradeço e celebro a Vida.
Agradeço aos amigos ao meu redor que me emprestam asas no momento que as minhas estão impedidas de voar.
Agradeço o carinho manifestado em várias situações de dificuldades.
Agradeço aqueles que gritaram comigo quando as injustiças me incomodavam.

Peço emprestado a amiga Ana Jácomo o trecho abaixo e faço minhas as suas palavras.
“Para o ano novo, se eu conseguir ser nova, quero o sabor de saber, na prática, que somos feitos para a felicidade. Para a troca. Para a paz. Para a bondade. Para facilitarmos a existência uns dos outros. Para a coragem e a alegria de simplesmente ser”.

Que possamos ser:
A mão estendida,
O braço que abraça,
O colo que acolhe e
O coração que abriga.

Meu carinho,
Regina Coeli Carvalho


sábado, 24 de dezembro de 2011

Abaixo o Natal....


Abaixo o Natal!
do presente obrigatório,
compulsório,
de ceia-velório
e frio coração.

Abaixo o Natal!
do presunto fraticida
da mesa fingida,
noz ressequida.

Abaixo o Natal!
da neve de algodão
bolota na árvore
e frio coração.

Abaixo o Natal!
da criança sem teto
rodando nas esquinas
sem abrigo e afeto.

Abaixo o Natal!
que acorde de seu sono
escondido, em eclipse
ou como o sujeito
oculto por elipse
o espírito de Natal.

Desconhecido íntimo
em prosa cantado
sempre olvidado
faça aparição.

Recolha dos caminhos
a criança sem ninho.
Dê-lhe
pão, teto e vinho
então....Sim
Viva o Natal!
Edda Vianna Nesi, In Vinte Poetas à procura de um leitor

Que possamos vivenciar o espírito natalino de confraternização e acolhimento durante todo o ano sem necessidade de datas especiais.
Meu abraço carinhoso.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Carta para Joanna Marcenal

Joanninha,
Infelizmente não a conheci em vida, mas aprendi a lhe amar através das suas fotos, das histórias contadas pela sua mamãe. Pela sua garra em permanecer em coma durante 26 dias para que a verdade pudesse vir à tona.
Mundo cruel esse em que você viveu durante cinco anos, onde pessoas maltratam crianças para se vingarem da rejeição.
Falsos profetas pregam a paz, mas seus comportamentos diabólicos denunciam suas mentes perversas.
Pessoas que se acham poderosas são cúmplices de crimes hediondos, porém todos trazem na testa a marca da tortura.
Hoje é seu aniversário - uso o presente, pois você permanece VIVA no coração de todos que lhe amam! Faz 7 anos que você nasceu para trazer alegria para família Marcenal.
Nessa cartinha, segue meu compromisso em lutar por JUSTIÇA independente de qualquer ameaça ou dificuldade que surja no caminho.
Joanna Marcenal, hoje você é a filha de todos que querem acreditar na imparcialidade dos que fizeram o juramento de exercer com dignidade e independência defendendo a Constituição, os direitos humanos, a justiça social e a boa aplicação das leis.
Nós continuamos a lutar por um mundo mais digno e humano, por uma sociedade ética e um poder judiciário que sacie a fome e a sede de justiça.


Leia também:




Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras  em 20/10/2011
Código do texto: T3287119

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Carta para o Caio


Querido Caio,
Hoje é seu aniversário.
De repente, senti uma vontade imensa de escrever pra você.
Tenho o maior orgulho de ser sua contemporânea. Quando li “Limite branco” e “O ovo apunhalado”, ainda adolescente, confesso que não entendi muito bem - estava na fase romântica, sua ironia em alguns trechos não foram bem captadas por mim. Mas algo ficou no ar. A vontade de ler posteriormente com mais tempo e disposição (acredito que nascia, ainda que inconsciente, uma vontade de o conhecer melhor).
Mais madura, percebi outro Caio, diferente daquele que minha percepção foi capaz de absorver inicialmente.
Desde então li tudo que você escreveu: tenho na minha estante o “Cantinho do Caio”, logo abaixo do “Cantinho do Pessoa” - os outros autores estão juntos e misturados.
No exercício do magistério, incentivei muitos jovens a ler a  sua obra, embora não seja professora de Literatura, acredito que os significados psicológicos que sua escrita contém são caminhos indispensáveis para ajudar no olhar para o outro.
Em 2009, quando do lançamento do livro da Paula Dip, estava de viagem marcada para Portugal. Sem poder esperar para ler “Para sempre teu, Caio F.", dei uma escapa na Livraria da Travessa, a única onde o poderia comprar num domingo de manhã.
Não senti as horas de viagem. A leitura de suas cartas me fizeram viajar para outro mundo: o das pessoas sensíveis, delicadas, gentis, irônicas, que estão sempre prontas para o outro e abertas para o amor. Assim é (era?) você.
Você afirmou: “Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi”. Hoje há uma geração que nem era nascida quando você começou a escrever e que lhe venera; trechos de sua obra nas redes sociais, nos blogs, nas dedicatórias e por ai afora.
Se você ainda estivesse entre nós sofreria muito com tanta violência, corrupção, hipocrisia, injustiças, discriminações. Talvez, sua sensibilidade o levaria para outro caminho da escrita: o das denúncias.
Não sei.
Como você, "Ando bem, mas um pouco aos trancos. Como costumo dizer, um dia de salto 7, outro de sandália havaiana".
Com todos os tropeços, continuo seguindo a sua máxima: “Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele...Guardei a minha no bolso. E fui.”
Fique bem.
"Vai um cheirinho de alecrim e muito carinho",
Regina Coeli Carvalho

“Tenho pena das pessoas que não escrevem cartas.”
“A gente não deve permitir que as cartas se tornem obsoletas, mesmo que, talvez, já tenham se tornado.”
Caio Fernando Abreu

Dedico essa homenagem ao Paulo César, meu ex-aluno, filho do coração, que de Berlim me envia cartas. Quando o presenteei com "Para sempre teu". Caio F., livro da Paula Dib, publicação das cartas trocadas entre eles, meu lindinho falou: "Vamos guardar nossas cartas, quem sabe publicaremos um livro." Estou em débito, ele escreve mais do que eu.

Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 12/09/2011
Código do texto: T3216079

sábado, 27 de agosto de 2011

Cleyde Prado Maia


Amiga,
Onde quer que você esteja receba minha saudade.

À Doutora dos Afetos

 Imagem daqui:

Hoje, dia do psicólogo, deixo minha eterna gratidão a Dra. Nise da Silveira, psiquiatra que olhava o ser humano antes de enxergar a doença.
Através de meu pequeno contato como estagiária, de sua obra, da leitura e releitura constante de suas lições de vida cresci como pessoa e profissional.
Compartilho com vocês uma das passagens de sua vida narradas no livro Nise: arqueóloga dos mares por Bernardo Carneiro Horta.

Aos 90 anos, foi coroada com cocar de cacique. Um xavante convidou-a para ser sua mãe

Idosa, Nise se comovia cada vez mais com suas histórias - não somente as antigas, mas também as daquela ocasião.

"Ontem, me aconteceu uma coisa: dois índios vieram me visitar. Fato curioso... Nós conversamos, almoçamos e tudo foi muito agradável. No dia seguinte, um deles foi embora. Mas, para minha surpresa, o outro retornou e me disse: 'Sonhei com minha avó e ela pediu para que eu voltasse aqui e convidasse a senhora para ser mãe xavante - minha mãe...' Nem é preciso dizer que fiquei impressionadíssima com tal convite!", contou a Dra.

Este índio se chama José Luís Tsereté. É cacique xavante e foi apresentado à Nise pela antropóloga May Waddington, amiga e participante do Grupo de Estudos C.G.Jung. O fato emocionou a psiquiatra, pois aquele índio de 45 anos de idade tocara num ponto especial: a maternidade. A Dra. não teve filhos... Como se não bastasse, o convite, por sincronicidade, lhe chegou no dia das mães. Então, o xavante já adulto, perante a anciã, perguntou em tom oficial: "A senhora aceita ser minha mãe?" Ela se comoveu. Aos noventa anos, era a primeira vez que alguém a chamava, tão diretamente, de mãe.

De pé, vestido de calças jeans, camiseta e cocar, José Luís esperava atentamente pela resposta. A mulher lhe disse: "Sim. Eu aceito. Mas quero saber quais são as obrigações de uma mãe xavante." Ele revelou: "Estar ao lado de uma pessoa que sofre, que está doente. Estar ao lado de um animal que sofre, que está doente. Amar, ajudar, curar."

"Ao fim da visita, o cacique me convidou para jantar numa estrela. Achei aquilo uma coisa linda...", comentou Nise. Tomaram-se amigos.
Sempre que vinha de sua tribo para o Rio de Janeiro, ele a visitava. Outro momento importante, na amizade da dama do inconsciente e de José Luís, foi quando o índio a presenteou com um cocar grande e vistoso, multicolorido. Na ocasião, o filho decidiu que ela não seria somente sua mãe, mas sim mãe da natureza. Ao receber o presente, deu-se uma cena desconcertante: o xavante, solenemente, colocou o cocar na cabeça da notável anciã, que disse sentir-se coroada. A Dra. conta: "Então, ele me explicou que a pena maior, a azul, representa o céu, pela cor e pela autoridade. Outra coisa: aquela que é mãe da natureza é também cacique. Sendo assim, eu fui graduada: agora, sou cacica da natureza..."

No final da visita, a senhora das imagens surpreendeu o filho adotivo: pediu asilo existencial ao povo xavante. Comentou que não sentia mais vontade de estar na civilização. Estava cada vez mais apegada aos animais. Desejava ir para a floresta... Ela prossegue: "Eu lhe confessei que estou cansada do mundo dos brancos. Aí, pedi: 'Me leve com você para a floresta dos Índios...’ O cacique me respondeu que gostaria de me levar, mas isso não é possível. Explicou-me que eu não agüentaria a viagem. É muito desgastante. Depois de ir até Brasília, de avião, é preciso pegar um outro avião e, chegando lá, tem muito chão pela frente - a estrada é de terra... Sim, eu entendi. Nasci neste mundo, e devo morrer aqui. Ontem, o José Luís voltou para a sua tribo."

Tempos depois do episódio, Nise fez um mea culpa diante dos membros do Grupo de Estudos, citando o xavante. Após chegar visivelmente abalada, na biblioteca, interrompeu a leitura e disparou:
"Peguem a ata da reunião de hoje e escrevam o que vou dizer agora: quando aceitei ser mãe xavante, o cacique José Luís repetiu que minha função é proteger todos os bichos, os vegetais e as criaturas. Eu aceitei. Pois bem: digam a ele que cometi um erro terrível. Falhei na minha função de ser mãe... Contem ao xavante o que aconteceu aqui. Faz algum tempo, um de meus gatos passou mal, adoeceu. Então, chamei o veterinário e dei pessoalmente o remédio pra ele. Às duas da madrugada, fraquejei e tive a impressão de que era um caso perdido. Desci para
o meu quarto, a pedido das acompanhantes - foi uma falha fatal da mãe xavante. O gato amanheceu morto. Agora, eu estou sofrendo com isso - sofro por ter abandonado o gato naquela madrugada. Sofro pela minha falha como mãe. Me arrependo e declaro a todos vocês. Isto é uma confissão pública. Escreveram tudo o que eu disse? Passe a ata pra cá - vou assinar embaixo."

Horta, Bernardo Carneiro in: Nise: arqueóloga dos mares

Veja também: Dia do Psicólogo