segunda-feira, 7 de março de 2011

A Janela Fechada de Dona Elizabeth

Quem acompanha o bloco Gigantes da Lira espera o momento especial quando diante de um sobrado a orquestra para e toca Carinhoso em homenagem a Dona Elizabeth. Senhora octagenária que chegava a janela e emocionada acenava para os foliões.

Foto Anna Clara Carvalho - Gigantes da Lira 2010

Esse ano a janela estava fechada, a homenagem foi feita da mesma maneira, mas a emoção dos foliões misturou-se a dúvida, o que aconteceu com Dona Elizabeth. Embora muitos tenham ficados surpresos não se ouviu perguntas.
Em mim as lágrimas rolaram. Clara que estava em outro ponto fotografou e depois comentou que também chorou naquele momento.

Foto Anna Clara Carvalho - Gigantes da Lira 2011
 
Creio que não surgiram comentários talvez para que a explicação da sua ausência não doesse mais.
Imagino que ela não esteja mais entre nós, mas naquele momento senti sua presença como se estivesse pelas frestas das venezianas escondida ouvindo a melodia que é um hino a sua existência.

sábado, 5 de março de 2011

O Menino que Fazia Versos


 O Menino que fazia versos
De que vale ter voz?
Se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar?
Se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

- Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
- Há antecedentes na família ?
- Desculpe, doutor ?
O médico destrocou-se por tintins, Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
- Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação. Sim, perfume de igual qualidade qual outra mulher pode sequer sonhar ? Pobres que fossem os dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e a escola do miúdo. Mas eis que começam a aparecer, pelos recantos da casa, papeis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
- São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual ? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto ?
Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
- O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões, e sobretudo lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era por cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
- Dói-te alguma coisa ?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: está a ver, doutor ? Está ver ? O médico voltou a erguer o olhos e a enfrentar o miúdo:
- E o que fazes quando te assaltam essas dores ?
- O que melhor sei fazer, excelência, é sonhar.
Serafina voltou à carga e sapateou a nuca do filho. Não lembrava o que pai lhe dissera sobre os sonhos ? Que fosse sonhar longe ! Mas o filho reagiu: longe, porquê ? Perto, o sonho aleijaria alguém ? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o riso. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, já inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
- Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte foram os últimos a serem atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos ? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever ?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho esse pedaço de vida - disse, apontando um novo caderninho - quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.
- Não importa, respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.
Mia Couto, In O Fio das Missangas

quinta-feira, 3 de março de 2011

Para Cris

Foto minha


Cris,
Um dia conversava com minha filha, bem pequenina, sobre solidariedade.
A solidariedade não se ensina em livros, se ensina em comportamentos, mas mesmo assim li para ela uma historinha que transcrevo abaixo:

AJUDANDO A CHORAR
A menina chegou em casa atrasada para o jantar.
Sua mãe tentava acalmar o nervoso pai enquanto pedia explicações sobre o que havia acontecido.
A menina respondeu que tinha parado para ajudar Janie, sua amiga, porque ela tinha levado um tombo e sua bicicleta tinha se quebrado.
- "E desde quando você sabe consertar bicicletas?" Perguntou a mãe.
- "Eu não sei consertar bicicletas!" Disse a menina.
- "Eu só parei para ajudá-la a chorar".
Não muitos de nós sabemos consertar bicicletas.
E quando nossos amigos caíram e quebraram, não as suas bicicletas mas suas vidas, poucas vezes tivemos capacidade para conserta-la.
Não podemos simplesmente consertar a vida de outra pessoa, embora isso seja o que nós gostaríamos de fazer.
Mas como a menina, nós podemos parar para lhes ajudar a chorar.
Se isso é o melhor que nós podemos fazer...
E isso é muito!
Texto de Murray Lancaster, tradução de Sergio Barros.

Eu não sei consertar bicicletas nem tão pouco aprendi a andar, meu pai nunca pode me dar uma, mas me deixou valores e um deles é o da solidariedade.
Meu abraço carinhoso,
Regina Coeli Carvalho

quarta-feira, 2 de março de 2011

Eu também busco....


BUSCA


Tenho encontrado muitas pessoas,
porém não encontro gente....

Há um vazio dentro de cada um,
um processo de fechamento em sentimentos.

Encontro sorrisos, porém daqueles
que expõem apenas os dentes, mas não a alma.

Encontro verdadeiras tocaias, e não corações.
Reservas insistentes da solidão.

Tenho encontrado pessoas medrosas,
indecisas, escondendo-se de si mesmas.

Pessoas que dizem: Não sei...,
Não sei se quero..., Não sei se posso...

Quando sabem exatamente
o que querem e o que buscam,
e não se arriscam ao menor impulso.

Pessoas duras, escuras,
impossibilitadas de amar.
Estas, cansei de encontrar...

Busco por gente que empreste o ombro,
que não tenha medo de dizer que levou um tombo.

Busco por gente que assuma que amar traz sofrer,
e, com esta certeza, não venham a se esconder.

Busco por gente que tenha a experiência
de sobrevivente de guerra.

Busco por gente, que de tanto caminhar,
não tenha receio de dizer
que seus pés ainda têm muito por machucar.

Quero gente de coragem para comigo conversar.

Gente que saiba que máscaras
não dão mais para usar,
e sendo seu perfil interno, branco ou preto,
tenha a dignidade de revelar.

Busco por gente que chore livremente,
sem preconceitos pelas lágrimas derramadas.

Quero gente que saiba exatamente
para onde está indo e o que deseja encontrar,
mesmo que esta busca jamais venha alcançar.

Busco por gente,"Seres Humanos",
que saibam se doar,
estes, eu anseio por encontrar
Gente que saiba até ferir se precisar,
mas que seja valente em seu ato
para não mais enganar,
a quem quer que seja, e a si próprio.

Gente de decisão,
sem argumento para esconder,
escusas ações.

Quero gente que é gente,
que mostra a cara,
vai à luta e dorme contente.

É desta gente que eu preciso!

Gente liberta,
que me dêem um canto em seu colo
e saibam me acariciar,
sem tempo, sem hora
e em qualquer lugar. 

Cora Maria

terça-feira, 1 de março de 2011

Feliz aniversário, Cidade Maravilhosa

 Foto: Anna Clara Carvalho

Louvação a Cidade do Rio de Janeiro

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho. 

Louvo o santo padroeiro
- Bravo São Sebastião -
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão. 

Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão.
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.

Manuel Bandeira


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Parábolas das tristes décadas



Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam,
nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam.

Há trinta e cinco anos que nos roubam,
não só os bens imediatos de que carecemos,
como a esperança que alimenta as almas
e favorece os sonhos.

Há trinta e cinco anos que cometem o pior dos pecados,
aquele que consiste na imolação da nossa vida
em favor da vossa gordura.

Há trinta e cinco anos que traem a Deus e aos homens,
sem que a vossa boca se encha da lama da mentira.

Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões
de desempregados,
de desesperados,
de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade.

Há trinta e cinco anos que tripudiam
sobre o que de mais sagrado existe em nós.

Há trinta e cinco anos que embalam as dores
de duas gerações de jovens,
e atiram-nos para as drogas, para o álcool,
para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido.

Há trinta e cinco anos que caminham,
altaneiros e desprezíveis,
pelo lado oposto ao das coisas justas.

Há trinta e cinco anos que são desonrados,
torpes, vergonhosos e impróprios.

Há trinta e cinco anos que, nas vossas luras e covis,
se acoitam os mais indecentes dos canalhas.

Há trinta e cinco anos que se alternam no mando,
e o mando é a distribuição de benesses,
prebendas, privilégios
entre vocês.

Há trinta e cinco anos que fazem subir as escarpas
da miséria e da fome
milhões de pessoas que em vocês melancolicamente
continuam a acreditar.

Há trinta e cinco anos que se protegem uns aos outros,
que se não incriminam, que se resguardam,
que se enriquecem,
que não permitem que uns e outros sejam presos
por crimes inomináveis.

Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos,
embora com rostos diferentes.

Há trinta e cinco anos que os mesmos jornais,
sendo outros,
e os mesmos jornalistas de outra configuração,
sendo a mesma,
disfarçam as vossas infâmias,
ocultam as vossas ignomínias,
dissimulam a dimensão imensa dos vossos crimes.

Há trinta e cinco anos
sem vergonha,
sem pudor,
sem escrúpulo
e sem remorso.

Há trinta e cinco anos que não estão dispostos
a defender coisa alguma
que concilie o respeito mútuo com a dimensão colectiva.

Há trinta e cinco anos que praticam o desacato moral
contra a grandeza da justiça e a elevação do humano.

Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo,
construíram um país só para vocês.

Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social,
que esculpiram as várias faces da miséria e, agora,
sem recato e sem pejo,
um de vocês faz o discurso da indignação.

Há trinta e cinco anos começaram a edificar o medo,
e o medo está em todo o lado:
nas oficinas, nos escritórios,
nos entreolhares, nas frases murmuradas,
na cidade, na rua.
O medo está vigilante.
E está aqui mesmo, ao nosso lado.

Há trinta e cinco anos encenaram e negociaram,
conforme a situação,
o modo de criar novas submissões
e impor o registro das variantes que vos interessavam.

Há trinta e cinco anos engendraram,
sobre as nossas esperanças confusas,
uma outra história natural da pulhice.

Há trinta e cinco anos que traíram os testamentos legados,
que traíram os vossos mortos,
que traíram os vossos mártires.

Há trinta e cinco anos que asfixiam
o pensamento construtivo;
que liquidaram as referências norteadoras;
que escarneceram da nossa pessoal identidade;
que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito;
que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença;
que condenam a norma imperativa do equilíbrio social.

Riam-se, riam-se.
Vocês são uma gente que não presta para nada;
que não vale nada.

Malditos sejam!

Baptista-Bastos, In Jornal de Negócios - Lisboa


*Em homenagem a escolha de Tiririca para integrar a Comissão de Educação e Cultura da Câmara

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

E a Pátria mãe continua adormecida...

“Dormia, a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações...” Chico Buarque


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Nise da Silveira

15 de Fevereiro – 106 anos do nascimento de Nise da Silveira

Conheça sua obra:




Nise da Silveira - Senhora das Imagens
De Daniel Lobo
Neste drama multimídia, que mescla teatro, música e dança, Mariana Terra representa a psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999). Aluna e discípula de Carl Jung (1875-1961), ela revolucionou o tratamento de doentes mentais ao defender a substituição das sessões de eletrochoque por atividades de pintura e modelagem. Com todo o material produzido nos ateliês de terapêutica ocupacional, fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no bairro do Engenho de Dentro, no Rio. A ficha técnica da produção conta com colaboradores de peso como Ferreira Gullar (biógrafo de Nise) e o doutor em literatura Marco Lucchesi, na elaboração do texto. A coreografia é assinada pela bailarina Ana Botafogo e a trilha sonora original é executada ao vivo pelo pianista João Carlos Assis Brasil.

Caixa Cultural – Teatro de Arena
Av. Almirante Barroso, 25 Centro - Rio de Janeiro
Quarta a sábado, 19h - Até o dia 26.
R$ 30,00
Resenha da Veja Rio

Temporada prorrogada até 20 de Março - de Quarta a Domingo

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Joanna Marcenal - carta de sua mãe ao Governador Sergio Cabral

Carta da mãe de Joanna Marcenal ao Governador Sergio Cabral ainda sem respota.
A sociedade aguarda um pronunciamento do Sr. Governador.


EXMO Sr. GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
SERGIO CABRAL FILHO

Joanna Cardoso Marcenal Marins, de 5 anos, era uma menina linda, feliz e cheia de saúde e vida. Teve a vida e os sonhos destruídos pela tortura e crueldade, na casa de seu pai, o funcionário do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, André Rodrigues Marins, e sua mulher, Vanessa Maia Furtado Marins. 

Tudo começou em maio de 2010. A Juíza Claudia Nascimento Vieira, da 1º Vara de Família de Nova Iguaçu, com base nos relatos das psicólogas Roberta M. N. Ferreira de Carvalho e Vânia Sueli Mafra Aniz – que nunca ouviram Joanna -, alegou que a criança sofria de alienação parental, ordenando a inversão de guarda  para o pai, por 90 dias, sem que  eu pudesse ter contato com a minha filha. Joanna foi entregue ao pai no fórum de Nova Iguaçu no dia 26 de maio de 2010 em perfeitas condições de saúde, atestadas e DOCUMENTADAS pela funcionária do Fórum de Nova Iguaçu Christina Seghetto ,do cartório da 1º Vara de Família.(documento anexo ). Dia 19 de julho de 2010 recebi um recado em meu trabalho  informando que Joanna estava em estado gravíssimo no Hospital Amiu, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

Quando cheguei  ao hospital não encontrei o pai que me desse explicações. Estavam na calçada do hospital o avô paterno, José Gomes Marins, a cunhada Maria Helena R. Biscaia e o conselheiro tutelar de Botafogo conversando.( fotos anexas). Joanna estava em morte encefálica clínica, sem ninguém que a acompanhasse. Um choque para toda minha família, já que Joanna nunca tinha frequentado hospitais antes, a não ser para COMEMORAR a chegada de seus dois irmãos mais novos. Assim que entrei me deparei com a pior cena de toda a minha vida: a Joanninha estava entubada, cheia de hematomas nas pernas, nos braços, no rosto e com queimaduras na região do tórax e uma queimadura enorme nas nádegas. As unhas sem cortar ,e o estado de higiene degradante. Havia micose em suas unhas não cortadas e na vagina uma secreção que depois de dar banho descobrimos ser SUJEIRA!!!!!! O conselheiro tutelar de Botafogo foi chamado, mas não adentrou ao hospital para avaliar as lesões. O conselho tutelar de Nova Iguaçu atendeu ao pedido, compareceu e constatou maus tratos.

Depois disso, foram 26 dias de angústia, sofrimento e plantão 24 horas da minha família e de amigos, que NUNCA deixaram Joanna sozinha por um minuto sequer, mesmo quando proibidos pela mesma Juíza Claudia Nascimento Vieira. É exatamente isto que o senhor está lendo!

 Mesmo em coma gravíssimo, depois de alguns dias em que Joanna estava internada no hospital, a juíza ordenou que as famílias maternas e paternas tivessem dias alternados de visitas. Durante os dias de visita da família paterna, os familiares não demoravam nem 10 minutos no hospital. Enquanto isso, a minha família  passava dias e noites do lado de fora do hospital para me apoiar. Já o pai, hoje réu, tratava de pedir à juíza que impedisse ( olha que absurdo) a presença de meu marido e meu cunhado no hospital. No mesmo ensejo pedia a visitação de sua mulher e ,irmão e cunhada.(?????)

Também tratou de,  com um documento que já não tinha validade, pois a Juíza revertera a guarda pra mim no dia 20, dia 26 de julho propor uma ação de alimentos na Vara de Família na Barra da Tijuca contra mim. A Joanna estava morrendo e ele tentando ludibriar o Judiciário e tirar proveito financeiro da situação, enquanto eu inerte, mesmo médica , acreditava em um milagre. Foram longas horas de oração, sofrimento e muita solidariedade.

Mas, infelizmente, Joanna não resistiu e no dia 13 de agosto faleceu. Com ela foi embora toda a alegria e a esperança de um mundo melhor, a minha vida , o sorriso de meus outros filhos e de meu marido que a amava profundamente. Pouquíssimo tempo. Deixou saudades que o tempo não vai curar e uma dor que nunca vai passar. Eram 17:30 h e o Dr. Hilton Correa pediu que eu ficasse com ela porque estava morrendo e mesmo sendo dia de visitação do pai, não havia familiar paterno. Peguei a mãozinha inchada , agarrei-me ao ultimo abraço e entreguei-a como sacrifício a Deus. O milagre com o qual eu podia contar era de  Deus recebê-la em seu Trono de Glória. O coração foi parando ,ela ficando cianótica, e eu ali vendo meu amor se desvanecer. Com o corpo dilacerado, esmagado, torturado e o cérebro sem resposta. Triste morte. E era tão feliz em vida!!!!!

Depois de sua morte, apareceram vários relatos de que Joanna sofreu diferentes tipos de tortura física e psicológica dentro da casa do pai e, como se não bastasse, ainda foi atendida por um falso médico no Hospital Rio Mar. Enquanto esteve com André, Joanna passou por alguns hospitais, inclusive com a presença de seus avós paternos, sendo atendida pelo nome de sua irmã paterna, Maria Eduarda Maia Furtado Marins em algumas consultas. Seria uma forma de ocultar o que estava acontecendo com Joanna? Em uma das poucas vezes que falou com a imprensa, André confessou, em rede nacional, que deixava Joanna amarrada no chão e suja de fezes e urina. Na mesma ocasião fez questão de avisar que PERSEGUIRIA qualquer pessoa que se colocasse contra ele.

Em 2007, eu previra esse fim! Em uma das voltas da visita de Joanna, foi constatado pelo IML que ela sofreu maus tratos. Este processo ficou parado durante 3 anos. Este ano, enquanto Joanna estava internada no hospital, chegou até a mim uma gravação da promotora Elisa Pittaro Neves durante uma aula na EMERJ onde ela fala que conhece André e seus advogados  e que ia arquivar esse processo de 2007. Então entendi parte da história. Joanna foi alvo de manipulação política e jurídica e ninguém lhe deu sequer o direito de falar.

Esse país tem a história manchada e tenta se retratar todos os dias dos  terríveis tempos de ditadura em que eram empregadas as  técnicas de tortura  para persuadir as vítimas . Eles eram adultos e  o Brasil tem vergonha dessa história. Hoje 40 anos após estamos diante de novo da mesma situação no País, com as mãos sujas de sangue inocente de uma criança de 5 anos com a mesma prática e a população estarrecida assiste ao desenrolar de uma história que se torna cada vez mais sombria, que envolve juíza, psicólogas, promotoras, ex-procurador geral, sub secretário de direitos humanos,  tráfico de influência, pai , madrasta e parentes da criança que se omitiram ao socorrê-la. Custa-nos acreditar que depois de tantos anos querendo apagar do País esta história macabra de tortura em todas as suas formas as autoridades judiciais estejam perfilando as páginas da mídia como responsáveis pela barbárie.

Não me consta que o Ministério Público seja conivente com essa prática, tampouco poder judiciário, visto que contrariando o que alguns imaginavam  já há dois réus devidamente denunciados por tortura e homicídio qualificado por meio cruel, estando um deles preso e outro respondendo em liberdade, porém é necessário que as ações sejam exatamente impingidas na proporção do que têm acontecido : tão rápida e agressivas quanto às mãos daqueles que se apressaram em matar a Joanna antes que chegasse os 90 dias e ela pudesse dar testemunho das atrocidades contra ela cometidas. Eles só não contavam com o Poder de Deus e a impressionante capacidade de uma menina de 5 anos de sobreviver em coma por 26 dias pra denunciar o crime contra ela. Por isso o Brasil está perplexo e o mundo logo estará, todos de olhos bem atentos, para saber como as autoridades brasileiras tratam tortura seguida de morte, um crime há muito inadmissível desde os tempos de Auschwitz e que alguns “Inbrasileiros” nos fizeram o favor de relembrar e viver. Pobre de nós que tivemos que presenciar esse horror, pobre de nós se não respondermos à esses criminosos com a firmeza que devemos. (Pobre de mim que apesar de acreditar e brigar pela Democracia viverei sem minha filha eternamente!) Teremos então nos tornado um Brasil sem lei que aceita o que há muito o Mundo inteiro já condenou!

Pois bem, cabe à mim como cidadã , médica , exercer meu papel social de informar-lhe, crendo fielmente que essa informação não lhe foi enviada, que o Sub Secretário de DIREITOS HUMANOS de seu Governo atualmente é o tio do homem apontado como réu deste processo. Isso mesmo: Antonio Carlos Biscaia é casado com Maria Helena Rodrigues Biscaia, irmã gêmea da mãe de André Rodrigues Marins, Helena Maria Rodrigues Marins, que segundo testemunho da babá Gedires, presenciou a crueldade com minha filha e calou-se. Maria Helena, esposa de Biscaia é promotora da Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça deste Estado ,onde encontra-se lotado como técnico de judiciário o réu André Rodrigues Marins. Isso mesmo: O André trabalha no Tribunal do Rio de Janeiro com a tia , Promotora de Justiça , mulher de Biscaia. Notadamente isso não o tornaria no mínimo amoral para o cargo não fosse sua influência direta e irrestrita no processo de visitação (segue anexo documento que consta nos autos do processo 2007.038.005435-0 da 1º Vara de Família de Nova Iguaçu) onde ameaça  um oficial de justiça na época em que era procurador de Justiça.Também Elisa Pittaro responde a queixa – crime (processo 2011-17844)  nesta comarca  além de processo administrativo na Corregedoria do Ministério Público. Mas a maior pena cumpro eu : a de viver dia após dia acordando sem poder ver minha filha e lembrar de cada momento de sofrimento à que foi submetida. Trago a alma rasgada ,sangrando e o corpo definhando ,mas não desistirei de buscar Justiça para que pelo menos a memória de minha filha seja respeitada. Ela não ficará esquecida naquele cemitério. Ela não desistiu, resistiu 26 dias para denunciar o que fizeram com ela, eu não posso desistir, nem por ela , nem por meus outros filhos.

Esta carta seguirá com cópia para  vários órgãos governamentais e não governamentais ligados aos direitos humanos, inclusive, para toda imprensa escrita e falada, denunciando que o atual SUBSECRETÁRIO DE ESTADO DE DIREITOS HUMANOS, DR.ANTONIO CARLOS BISCAIA, tentou beneficiar seu sobrinho torturador e assassino, vale dizer, antes da morte de minha filha  quando poderia e deveria ter uma postura diferente. Afinal de contas, QUEM DEFENDEU OS DIREITOS HUMANOS DA JOANNA?
Enquanto podia interviu em favor de seu sobrinho ,quase assassino confesso, já que em cadeia nacional admitiu tê-la “amarrada com fita crepe e deixá-la num tapete assim ó,” dentro do closet onde ninguém poderia vê-la. Uma menina de  5 anos feliz foi brutalmente arrancada de sua família por manipulação e tráfico de influência para MORRER sob TORTURA. Porque Biscaia agora retorna como defensor de DIREITOS HUMANOS? Tentará defender novamente seu sobrinho assassino?

Custou-me crer que alguém com sua história política ,filho do grande escritor Sérgio Cabral,que penso eu, deve ter crescido ouvindo histórias de como se tornar cidadão num país de  adversidades compactue com esse tipo de nomeação. Essa é minha indignação. Aguardo com ansiedade e mesma crença que motivaram Ministério Público e Judiciário portarem-se como instituições que não se dobram sobre tráfico de influência, que o senhor tenha alguma explicação plausível (ainda creio na sua total falta de informação dos fatos) para colocar o tio de alguém que está respondendo processo por tortura na Secretaria de Direitos Humanos. Por quais direitos ele vai pleitear? 

Atenciosamente,
Dra Cristiane Cardoso Marcenal Ferraz.


Acompanhe o caso completo:  Caso Joanna Marcenal

Publicada com autorização da Dra. Cristiane Cardoso Marcenal Ferraz


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ausência....

Para Daiana com meu carinho e minha saudade....

“Os mortos, transcendidos, são o espaço vazio onde a palavra de um outro trama as tintas que farão reviver um rosto para sempre ausente.”
Hélio Pellegrino, In O irmão insone

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Um carinho procês

Abro minha caixa de e-mails e encontro tantas mensagens de carinho que surgiu a vontade de enviar essa música para vocês.


Rio de Janeiro, sol escaldante, vou colocar meu chapéu (igual àquela velhinha que coloca o chapéu roxo e sai serelepe) vou passear na feira de Antiguidades com certo receio que me deixem por lá, rs
Carinho procês.

P.S. Meu chapéu não é roxo, ainda!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Marcio Jr, Feliz aniversário!

Quando criei minha página no Recanto das Letras, o fiz sem quaisquer pretensões literárias. Foi um meio para publicar alguns rabiscos que escrevo vezenquando e alguma coisa guardada no meu baú.

Num dado momento, recebi um e-mail do Marcio Jr., (um dos primeiros leitores) me incentivando a transformar alguns pensamentos em crônicas, pois segundo ele, havia em mim um potencial de cronista.

Inicialmente relutei, pois achava um pouco de pretensão rotular meus rabiscos como tal, porém após seus argumentos me rendi e os reclassifiquei segundo sua orientação.

Marcio tornou-se um amigo irmão – atualmente está afastado do Recanto, mas mantém seu blog Abismo das Vaidades, diariamente nos presenteia com crônicas e atualmente com poesias apaixonadas e apaixonantes.

Hoje é seu aniversário e meu carinho segue em forma de poesia que peguei emprestada do Ulisses Tavares:

Amizade
Amigo não se guarda apenas
No lado esquerdo do peito.
Como não existe
Meia amizade,
Amigo é proprietário,
Não meeiro,
Se guarda no peito inteiro.
Ulisses Tavares

Para você Márcio, meu carinho, meu agradecimento e meu desejo que a vida lhe acaricie diariamente.
Feliz Aniversário!






P.S. Surpresa organizada pela Ester Marques do Uni ver sos ...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para os Amigos Especiais do Recanto

CANÇÃO DO AMIGO
Quando digo
a palavra amigo
minha alma abre os postigos.
Amigo é um código
sem artigos.
É um sentimento
tão mais recente
quanto mais antigo.
Amigo não chega
na hora da colheita.
Vem plantar o trigo. 

Amigo que é amigo
desafia as leis do tempo
e do espaço.
Viaja no vento,
longe,
está contigo.
E sua presença é doce
como os figos. 

Amigo
conhece as confidências
do silêncio.
Ao seu lado
não há maus presságios,
perigos.
O mundo não pode
te ferir,
magoar,
pois tens um amigo.
E o seu abraço
é um abrigo. 

Luiz Coronel

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Tsunami do Descaso Governamental




O TSUNAMI DO DESCASO GOVERNAMENTAL
A TRAGÉDIA DA REGIÃO SERRANA DO RIO

Cidadão fluminense, em pouco mais de um ano, três tragédias (Angra dos Reis, Morro do Bumba e Região Serrana) mataram quase 1.000 cidadãos fluminenses.
Querem culpar as chuvas pelas mortes, porém especialistas internacionais e nacionais que se manifestaram sobre o fato declararam que o número de mortes seria muito menor, caso o Rio de Janeiro dispusesse de um sistema de monitoramento de chuvas e de alerta para a população que fossem eficazes.
Diante do exposto nos resta questionar:
Por que o Rio de Janeiro não possui a tecnologia necessária para salvar vidas?
A tecnologia existe, outros países a utilizam, tanto que na Austrália, uma enchente muito pior vitimou apenas 20 cidadãos australianos.
O Rio é o segundo estado em arrecadação no país, nos últimos quatro anos teve total apoio do governo federal, que nunca 1nvestiu tanto no estado, portanto, dinheiro não faltou.
Tanto não faltou que o governador Sérgio Cabral gastou quase MEIO BILHÃO em propaganda política ao longo do seu governo.
Diante dessas verdades, existem indícios de que o DESCASO GOVERNAMENTAL foi um forte determinante para o gigantesco número de mortes.
É hora de AJUDAR, de PREVENIR, de INVESTIGAR e de PUNIR.
Ocorreu em Angra dos Reis, fizemos uma mobilização para AJUDAR as vítimas, mas não para PREVENIR, INVESTIGAR e PUNIR.
Ocorreu novamente no Morro do Bumba, nova mobilização para AJUDAR, mas nada para PREVENIR, INVESTIGAR e PUNIR. Novamente, estamos mobilizados somente para AJUDAR, será que repetiremos o erro?        ­
O nosso protesto é para que a RESPONSABILIDADE DOS DETENTORES DE CARGOS PÚBLICOS (governador, prefeitos, secretários de defesa civil, etc.) seja apurada, com todo rigor e isenção, opinando inclusive pelo afastamento temporário (no período da investigação) de todos para que a isenção seja garantida.
Una-se a nós, não podemos permitir que prossigamos enterrando nossos familiares e amigos, enquanto os políticos continuam saindo ilesos e impunes. Temos que responsabilizá-los, caso sejam culpados, administrativa, penal e civilmente.      
Protestaremos também na ALERJ, no Ministério Público e no Tribunal de Justiça, acompanhem nas redes sociais as datas e os horários.
MOVIMENTO CÍVICO JUNTOS SOMOS FORTES! ­

domingo, 16 de janeiro de 2011

Catarse...

Afilhado
 
Ele foi meu filho emprestado até os 12 anos. Acompanhei a gestação de minha irmã, seu nascimento, a notícia dada pelo médico de que nascera com um problema congênito.

Sofri e chorei durante 1 ano e meio em que usou gesso nas duas pernas até a 1ª cirurgia.

Sofri, mais ainda, quando na operação mal sucedida seus tecidos foram necrosados.

Chorei de alegria quando deu os primeiros passinhos, sem o gesso, usando botinhas ortopédicas.

Aos 5 anos nova cirurgia, levava-o para o parque com gesso nas pernas a fim de que brincasse com um barquinho a motor, seu brinquedo predileto.

Sofri quando constatamos que na 2ª cirurgia cortaram um pedaço do tendão agravando o problema inicial.

Vibrei quando enfrentou com galhardia o deboche cruel de um coleguinha na nova escola.

Vibrei quando se preparava para jogar futebol, embora não pudesse usar outro calçado que não fosse a bota. Percorri várias lojas até encontrar um tipo de tênis que servisse no seu pé para usar somente uma vez na disputa do torneio de futebol.

Acompanhei seu desempenho escolar, suas redações sempre elogiadas, suas medalhas conquistadas pelo excelente desempenho escolar.

Vibrei quando passou para a Escola Técnica Federal e me desdobrei em várias no momento em que precisou fazer uma nova cirurgia, necessitando ficar um período em cadeira de rodas, e como estava cursando o 1º ano não era permitido trancar a matrícula. Corri atrás, na frente, ao lado, procurei orientadores, psicólogos, diretores e consegui que abrissem uma exceção.

Chorei de agradecimento ao Dr. Arnaldo Santiago que com suas mãos mágicas devolveu-lhe o andar normal.

Tinha 12 anos quando engravidei, recebeu a notícia enciumado talvez pensando que a madrinha iria abandoná-lo. A forma que encontrei para abrandar seu ciúme foi participando que ele seria o padrinho do neném.

Clara afirma que eu não poderia ter escolhido um melhor padrinho para ela, se entendem muito bem. Ela cita um trecho da música do Cazuza “Nossos destinos foram traçados na maternidade”, dizendo ser o fundo musical da relação deles. Foi através dele que sua paixão pelo cinema foi despertada.

Na semana passada minha irmã comentou que ele havia sido convidado para ir trabalhar em Angola. Não registrei bem a notícia, achei que era uma coisa para um futuro distante.

Hoje conversamos por telefone e fiquei sabendo que assumirá seu novo posto na próxima semana. A ficha caiu!

Choro um misto de alegria, de saudade, de tristeza. Não consigo identificar esse choro. Sei que será uma nova experiência profissional, terá um melhor salário, um cargo mais elevado, por outro lado sabê-lo tão longe bate uma saudade cheia de antecedência.

Meu afilhado, meu compadre, meu sobrinho, meu amigo, seja feliz na nova caminhada. Eu daqui vou torcer por você. Coração apertado, chorando de saudade, mas vibrando pelo seu sucesso.

Sua dinda.
04/01/11

*Escrito como uma catarse, sem revisão.

 
Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 07/01/2011
Código do texto: T2715920

**Neste momento ele está voando rumo a Angola, um pedacinho do meu coração viaja junto dele.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Eu acuso...


Os professores deixaram de ser heróis de seus alunos para tornarem-se vítimas. Eu também ACUSO!

Recebi da amiga Ana Campelo e compartilho com vocês o tributo/desabafo.


J’ACUSE !!!
(Eu acuso !)

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

 "Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice".
("Meu dever é falar, não quero ser cúmplice”)
(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que... estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.

Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de  convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando...

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente...

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e  do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os  “cabeça-boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição;

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor  universitário.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Bulimia...

Charge de Dominho

Bulimia
Engulo todos os dias
mediocridades
vaidades
hipocrisias!
Pessoinhas fúteis
palavrinhas vãs!
Esperando o final da tarde
quando vomito
toda essa comidinha inútil!!!
Tâmara Rossene


domingo, 2 de janeiro de 2011

O Buraco no muro



"Não quero fazer especulações sobre o que a cultura computacional pode vir a fazer pelas crianças, mas apenas dizer que se o ciberespaço for considerado um lugar, então há pessoas que estão nele, e pessoas que não estão. E parece haver um consenso geral de que tal segregação entre 'cibernéticos' e 'não cibernéticos' é nociva e poderia causar uma divisão. Se for assim, então eu acho que o Buraco no Muro é um método para criar uma porta, por assim dizer, através da qual, um grande número de crianças possa irromper para essa nova conjuntura. E quando isso ocorrer poderemos ter mudado nossa sociedade para sempre." Dr. Sugata Mitra

sábado, 1 de janeiro de 2011

O ano passou?

Revisitando o baú

Passou
O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba.
Já passei ano só, em terra estranha, ou – o que é mais amargo – na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de bar ruidoso; ou tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno – braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.
Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra.
Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles não me aborreçam..
Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o 'd' pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou - e a Deus, o Novo. Que vá com maiúscula também esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.
E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: "Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, ás vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão.
Rio, janeiro de 1952
Rubem Braga, A borboleta amarela