domingo, 3 de junho de 2012

Sobre Fernando Pessoa


Sobre Fernando Pessoa
Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos” foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.
José Saramago, Outros cadernos de Saramago

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Vamos feliçar?


Ilustração: Kun Fruzsi

ESCOLHENDO OS VERBOS

Sou eu que faço você sofrer?
Ou é você que sofre por minha causa?
Ou, ainda, é você que sofre por sua própria causa?

Chegar a essa pergunta (leva anos e anos)
é essencial na relação de amor.
A resposta demandará muito tempo, sofrimento,
e em cada caso será diferente.
Mas, se encontrada, melhorará qualquer relação
ou constatará o seu término.

Proponho, como exercício, uma atitude de troca.
Sim, troca de palavras.
Onde se lê sofrer, leia-se feliçar
(por que felicidade não tem verbo?).
A pergunta, então, ficaria assim:
“Sou eu que faço você feliz ou é você que
feliça (eu feliço, tu feliças...) por minha causa?

Curiosa e masoquista a vida.
O verbo sofrer é complicado.
Feliçar é simples,
Por que a gente prefere conjugar o sofrer?
Artur da Távola

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Fantasmas da cidade


 
 Foto: Leo Pereira

Quando a cidade se esvazia
Das gentes que a alimentam e fazem crescer
Um exército de gente despojada, deserdada
Sai dos esconderijos diurnos
E deambula nas ruas desertas da cidade.
Os olhos acesos das lojas
Iluminam os olhos apagados dos fantasmas da cidade.
Putas baratas esperam clientes baratos.
Clandestinos, emigrantes do país e da vida
Procuram nas sobras dos outros
Os restos para sobreviver.
Corpos que fazem da droga e do álcool
Refugio e paraíso ziguezagueiam,
Cruzam-se,
Nas ruas da cidade.
Os passos das gentes fantasmas
Não ecoam na calçada
As suas vozes não se elevam.
São o lado oculto da noite
Vidas clandestinas
A face perversa da cidade.
Não ouves dentro de ti
As vozes dos fantasmas da cidade?
Encandescente

sábado, 26 de maio de 2012

Joanna Marcenal - 2 anos de setença de morte


Hoje, 26 de Maio, dois anos que Joanna Marcenal foi retirada do convívio de sua mãe para ser entregue somente um corpo torturado e sem vida.

Transcrevo o GRITO DE SOCORRO dessa mãe que há dois anos sofre e busca por JUSTIÇA.


Hoje, 26 de maio, faz 2 anos que entreguei minha filha por ORDEM JUDICIAL à guarda do próprio assassino, seu pai torturador confesso.

As suas vidas continuam e seus projetos idem. Juíza e psicólogas responsáveis pela inversão da guarda, ainda que provisória, trafegam livre por suas vidas sem sentido, creio eu, exceção se o objetivo era mesmo dar fim à vida da Joanna.

O pai e madrasta zombam de nós ao continuar livres e impunes na condição de guardiões de crianças  mesmo tendo dado, sob tortura continuada, morte à própria filha.  Mastigaram a cria como fazem animais odiosos famintos de raiva, ódio, ciúme, desprezo e horror.

Hoje imagino, como médica que sou, e não posso deixar minha essência, que nem corpo mais há naquele esquife. Na sepultura apenas grama cobre o túmulo e alguns cataventos e cartazes com desenhos feitos e deixados por crianças vez por outra. Acabou-se até o corpo.

Dilacerada em vida minha filhinha lutou por 26 dias para denunciar sua saga de destruição em vida. Era valente! Sabia que Deus não dormia. Pedia-me que orasse quando os irmãos ficavam doente. Ia à escola cantando; ”te amo, mãe, você é da hora, mas é que agora tá na hora de ir pra escola.”

Amava a bicicleta que já estava sem rodinhas. Sabia ler e escrever. Andava na ponta do pé como bailarina. Nunca dizia não aos irmãos. Era doce, amável e confiante. Consolou-me antes de partir e deixou-me uma missão: Cuidar de seus irmãos.

Quem cuidará dela?

Porque tanta demora em fazer Justiça?

Por quais pessoas se faz Justiça nesta Terra?

Eu te amarei minha filhinha por toda vida.

“Agora pois permanecem estes três : A fé , a esperança e o amor, mas o maior destes é o amor”.

Cristiane Cardoso Marcenal Ferraz

Mais detalhes sobre o Caso Joanna MarcenaL:

Caso Joanna Marcenal I – ALERJ - Depoimento Cristiane Marcenal


Caso Joanna Marcenal II – ALERJ - Depoimento Cristiane Marcenal


Caso Joanna Marcenal III – ALERJ - Depoimento Cristiane Marcenal

Torturar pode? – Deputada Cidinha Campos


Caso Joanna Marcenal


Obs: O processo encontra-se PARADO desde Outubro.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

As autorias trocadas.....



Há algo que me incomoda nas redes sociais e nos blogs são as postagens com autoria incorretas ou simplesmente quando se suprime o nome do autor e escrevem como se fossem de sua autoria.
Baseada em uma foto que a amiga Liss me enviou, ofereço a minha contribuição.


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Dicionovário



Tenho muita dificuldade para doar livros. Precisando de espaço, seleciono livros antigos, mas quando vou embalar para doação alguns voltam para seu lugar de origem.
Dez em Humor me acompanha desde a adolescência quando começou minha admiração pelo Millôr Fernandes, meu guru.
Semana passada percorri suas páginas selecionando essa grande sacada: DICIONOVÁRIO.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Igualdade Já!


Alô bacharéis e “bacharelas”,

Vamos iniciar uma campanha para que nossa polícia apure os crimes pendentes com a mesma rapidez que descobriu e prendeu os hackers daquela atriz global. #naoaquentomaisnoticiasosbreoassunto

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Golden Cross/Golden Med e sua propaganda enganosa


O péssimo atendimento da Golden Cross/Golden Med

Solicitei um atendimento a Golden Med às 20.50h para minha filha, com quadro de enxaqueca,  sendo informada pela atendente que deveria aguardar o retorno da médica. Como até às 21.22h o retorno não tinha sido dado telefonei novamente e a informação recebida foi que a médica estava atendendo outro paciente com quadro de cardiopatia. (Então se atende paciente pelo telefone?).
Somente às 21.34h recebi telefonema da médica para saber quais os sintomas e os remédios que haviam sido ministrados.
Pago um plano com direito a atendimento de emergência domiciliar para ouvir que o remédio ministrado pela manhã eu teria que repetir 8 horas depois. Argumentei que não entupiria minha filha de remédios sem saber o diagnóstico.
Resposta da DOUTORA: Dê outro comprimento e após uma hora se a dor não passar eu posso liberar o atendimento na sua residência.

Eis o que consta no site da Golden Cross:
“A Golden Cross coloca, opcionalmente, à sua disposição um excelente serviço de atendimento médico domiciliar de urgência e emergência 24 horas.”

Se isso é considerado excelente serviço não sei qual o critério adotado.
Excelente é o valor que eu pago.

domingo, 13 de maio de 2012

Dia das Mães


Dia das Mães
Sabemos do sentido comercial deste dia, porém se a nossa preocupação não estiver focada em dar presente e sim em ser presente todo dia é o dia das mães.

Hoje, se eu fosse uma menina, perguntaria à minha mãe.
"Mãe, o que é a alegria?"
E ela me responderia: "A alegria não é senão o desabrochar do amor. Do amor desinteressado. Desinteressado como o amor de mãe. E é por isso que mãe é feliz. Quanto mais desinteressado é o amor, mais a alegria é total.”
“Ah, menina, o que mais queres saber?”
 "Mãe por que tanta alegria se trabalhas tanto, se sofres tanto?"
"Minha filha, a alegria não suprime o esforço, ela o estimula. A alegria não suprime o sofrimento, ela o transfigura."
*Trecho de um texto escrito há muitos anos para minha mãe.

sábado, 12 de maio de 2012

A falta de amor...


Imagem: Botero, Massacre na Colômbia

“Alguém, seu pai ou o meu, deveria ter dito que não foram muitas as pessoas que morreram de amor, mas multidões inteiras morreram e estão morrendo a toda hora e nos lugares mais estranhos, por falta de amor”.
James Baldwin

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A leitura do mundo....


Ilustração Marina Seoane

É preciso entender que os meninos estão deixando de ler os livros porque estão deixando de ler o mundo, de ser capaz de ler os outros, de ler a vida.
Estão perdendo a disponibilidade de estar aberto aos demais, estar atentos às vozes, saber escutar. Há toda uma pedagogia que é preciso ser feita no conjunto.
Não se pode isolar o livro e torná-lo como se fosse bandeira única desta luta.
Uma coisa que aprendo na África é esta habilidade de se contar histórias
e fazer com que o livro seja uma maneira de estimular, que os meninos não sejam só consumidores de história, mas também produtores de história.
Quem não sabe contar uma história é pobre de alguma maneira.
Mia Couto

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Desembarga-Dor


Há algum tempo venho questionando determinadas decisões judiciais, que me fazem desesperançosa  na imparcialidade da justiça.

Através de um amigo conheci alguns artigos do Professor João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, escritor, autor de 39 livros que relata sua vivência jurídica com os olhos da ética, da generosidade e da solidariedade. Acendeu em mim a esperança de um novo tempo.

Há alguns meses  recebi por e-mail a decisão de um desembargador que me deixou orgulhosa de ser contemporânea do Dr. José Luiz Palma Bisson.

Com referência ao caso em questão deixo para reflexão um pensamento de Anatole France: “Os seres humanos estão sempre se matando por causa da palavra, ao passo que, se tivessem compreendido o que elas queriam dizer, ter-se-iam abraçado uns aos outros”.

Regina Coeli Carvalho
s.d

Desembargador do TJ/SP dá verdadeira aula de humanismo

Abaixo, a decisão do desembargador José Luiz Palma Bisson, do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferida num recurso de agravo de instrumento ajuizado contra despacho de um magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da justiça gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de atropelado por uma motocicleta.

O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário-mínimo, mais danos morais decorrentes do falecimento do pai. Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo, o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O juiz, porém, negou-lhe o direito, argumentando que ele não apresentara prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por "advogado particular".
Eis o relatório de desembargador:
"Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro - ou sem ele , com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna.
Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai - por Deus ainda vivente e trabalhador - legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em pau-brasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro - que nem existe mais - num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina.
Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é.
O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante.
Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres.
Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia d?água, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou.
Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos?
Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir.
Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal.
É como marceneiro que voto.
José Luiz Palma Bisson - relator sorteado"
Fonte: http://www.oab-rj.org.br/index.jsp?conteudo=15197

domingo, 29 de abril de 2012

Um dia atípico



Hoje foi um dia atípico.

Acordei cedo e me dirigi para “o mundo mágico do ferro”. Sim, para
encarar uma cadeira com várias peças à minha espera, é preciso que
haja magia na execução da tarefa.

Saí e dei uma passadinha na Feira da General Glicério, onde ouvi
“The Beatles” em ritmo de chorinho, delícia!, encantamento para a
 alma.

Parti para Copacabana para tratar de assuntos relativos a uma obra.
O rapaz que está prestando o serviço é um exemplo de educação,
gentileza e honestidade - artigos raros nos nossos dias.

A beira da praia caminhei sentindo a brisa marítima misturada com
alguns pinguinhos de chuva.

Dalí, caminhei até o Shopping Rio Sul, entrei nas Lojas Americanas e
aproveitei as promoções de CDs e DVDs "compre três e pague dois".

Ao chegar a casa, fui assistir “Um dia para relembrar”, com o
brilhante Al Pacino.

O filme termina e nos deixa a mensagem: Precisamos QUERER para que
os sonhos se tornem realidade. Eu, que ando há um tempo sem sonhos,
muito pé no chão, me senti feliz.

Cansada de uma semana estafante, fui dormir o sono do descanso.
Telefones desligados. Só despertei quando a casa emitiu a energia da
chegada da minha Clara.

Agora escuto o 1º CD do Show inesquecível do Elymar Santos, quando
ele, um desconhecido para a mídia, apostou todos as suas fichas e
alugou o Canecão, mostrou seu talento e sua determinação. Para
alguns, é considerado um cantor brega. Mas o que é ser brega?

Chique ou brega: é simplesmente uma questão de estar de bem com a
vida.

Assim me sinto nessa noite de sábado de outono.

Regina Coeli Carvalho
Recanto das Letras em 29/04/2012
Código do texto: T3639227

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Para: Pero Vaz de Caminha


Para: Pero Vaz de Caminha

Interessante a carta que o Mastercard publicou no dia 22 de abril de 2012, no Jornal Estado de São Paulo, endereçada a Pero Vaz de Caminha.
Como brasileira também me sinto honrada em viver num país tropical e bonito por natureza - como bem cantou nosso Jorge Ben Jor. Porém gostaria de dar, também, minha contribuição para que nosso querido Pero se atualize com as mazelas enfrentadas pelo alegre povo brasileiro.


Querido Pero Vaz de Caminha,

Você não vai acreditar, mas a sua carta acabou virando uma espécie de certidão de nascimento do Brasil.
Ah! Talvez você não saiba ainda, mas a Terra de Vera Cruz virou Brasil. E pegou, viu.

Hoje temos uma Presidenta, não é chique? Mulher de fibra, sem deixar seu instinto maternal de lado, está sempre corrigindo os malfeitos de nossos políticos. Como boa mãe, geralmente os perdoa.

Você foi o primeiro a elogiar essa terra, apesar de ter conhecido só um pedacinho dela. Mas você vendeu bem o terreno.
Sua Alteza se interessou e logo o mundo todo estava querendo dar uma passadinha por aqui.

Nossos terrenos hoje estão muito valorizados. Temos excelentes construtoras que com um empurrãozinho dos nossos políticos fazem obras pelo país inteiro. Alguns valores são superfaturados, mas brasileiro é tão bonzinho que nem se arreta com essas insignificâncias.

Rapaz, você não imagina o que tinha atrás dos morros e montanhas que você descreveu. Um mundão.

Alguns morros e montanhas não existem mais, a especulação imobiliária destruiu grande parte da natureza. Nossos políticos não cuidaram bem de nossas terras, de forma que alguns temporais mais fortes destruíram cidades e desalojaram seus habitantes. Em Teresópolis, cidade fortemente atingida pelas chuvas, a prefeitura fez uma licitação para contratar serviço de buffet com previsão de gastos de 1 milhão. Não são fofos? Vão servir salgadinhos para os desabrigados. E veja bem: somos um país abençoado, não temos terremotos, tsunamis, nevadas - temos é um povo pacífico demais!

A galera aqui é show. Vários sotaques, jeitos,cores, culturas.
Mas com uma coisa em comum: o brasileiro é gente fina por natureza. Gosta de receber amigos, é festeiro, animado, enfim, feliz da vida.

Esse jeitinho do brasileiro, sempre festeiro, não contribui para a mudança da nossa política. Participam de shows, adoram carnaval, passeatas festivas, mas na hora de cobrar postura dos nossos representantes, é um povo acomodado.

Também o cenário ajuda, não é?
Como você bem observou, a natureza é incrível.

Principalmente no Rio de Janeiro, temos uma beleza ímpar. Mas você ficaria tão decepcionado com o estado de nossas praias, nossas calçadas, nossas praças abandonadas, a confusão no trânsito, o desrespeito com o cidadão comum.
Nossos deputados pretendendo desapropriar o antigo prédio da Bolsa de Valores, para ali construírem sua nova sede. Nosso dinheiro descendo ladeira abaixo. E por falar em ladeira, nosso famoso Bondinho de Santa Teresa, por falta de peças e manutenção causou vários acidentes - o último com a morte de seu condutor. Ah! O Secretário de Transportes? Vai bem, obrigado.

Tem enredo para você escrever mil cartas.

Você escreveria um livro imenso, quiçá um compêndio.

Você precisava estar aqui para conhecer a Amazônia, o Pantanal, todas as praias, as festas típicas, comer um bom churrasco e tomar cerveja com os amigos depois do futebol.

A Amazônia, que alguém chamou erroneamente de pulmão do mundo, já não é tão verde, sofre conflitos agrários, alguns dizem que está sendo vendida em partes.
O Pantanal tem sofrido tantas agressões dos humanos que acarretam vários prejuízos a flora e a fauna.
Quanto às festas e comidas típicas, não abuse da cerveja. Agora temos a Lei Seca, que embora tenha seu valor, é levada ao pé da letra - ou se preferir da multa.
Aliás, hoje o que temos é uma grande indústria de arrecadação: Guardas não orientam o trânsito, mas tem como principal função multar. E se você for feliz, pode encontrar aquele que, com um agradinho, troca a multa pela cervejinha.

Aliás, bata no peito e grite, meu amigo.
Você é pentacampeão mundial de futebol.

Embora pentacampeões, nossos jogadores, hoje, estão mais preocupados com o corte do cabelo, as baladas, os carrões possantes, os salários milionários, do que propriamente com o futebol.
Preparação física, treino e aquele futebol de outrora ficaram no passado do Maracanã.


A verdade é que a gente já passou por altos e baixos por aqui, sempre com uma perspectiva boa para o futuro.
Que nunca chegava.

Na realidade, continuamos com muitos baixos: salários, índices de Desenvolvimento da Educação, qualidade de atendimento nos hospitais, investimento nos transportes coletivos, tudo isso bem baixo.
Está a caminho o futuro.
Aguardamos melhoras nos transportes de massa, trens que funcionem adequadamente; barcas que façam o percurso Rio-Niterói sem aqueles probleminhas diários, que tenham em quantidade suficiente coletes salva-vidas, que saiam nos horários estabelecidos; Metrô funcionando sem atrasos, ar condicionado em perfeito estado, menos lotação e mais respeito com o povo! Esperamos também que as benesses concedidas para os empresários de ônibus sejam estendidas para a população que faz uso desse meio de transporte.
Aguardamos reformas nos hospitais, melhores condições de trabalho para médicos e paramédicos; equipamentos em perfeito funcionamento; macas para atender a demanda e não precisarmos mais assistir a pacientes estirados em bancos nos corredores dos hospitais.
Menos propinas nas licitações para medicamentos e materiais hospitalares, pois quem rouba da saúde está matando seu semelhante.

Mas chegou. O Brasil está bombando. Dá para sentir isso nas ruas.
Nas pessoas. Na atmosfera.

O Brasil está bombando é na corrupção, nos desvios de verbas, em propinas que jorram como cachoeiras (não tão belas como as que você conheceu quando por aqui esteve). Nas ruas, sentimos o cheiro do esgoto que vaza, da poluição no ar, das pessoas abandonadas pelo poder público, das maracutaias engendradas nos palácios, dos passeios de políticos nos jatinhos dos amigos.

Fico imaginando como seria o seu e-mail para Sua Alteza hoje. Vou arriscar, ta? Não fique bravo.
Vossa Alteza, não volto mais.
Viver num país feliz por natureza: não tem preço.

Ai parceiro, não volto mais. Isso aqui é muito bom.
Venha para cá também.
Nossa grande produção é de CPIs (que geralmente acabam em pizzas, iguaria muito apreciada por nossos políticos, alguns considerados imortais).
Somos um país feliz e lindo por natureza, mas pagamos um preço muito alto por não termos aprendido a VOTAR.

Meu Brasil não tem preço, Mastercad, O Estado de São Paulo, Caderno 2, 22 de Abril de 2012.

Regina Coeli Carvalho
Recanto das Letras em 26/04/2012
Código do texto: T3635097

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Meu agradecimento ao prefeito do Rio de Janeiro

Aqui no Rio de Janeiro os nobres políticos costumam confeccionar faixas com as seguintes mensagens:
“Os moradores da rua tal agradecem ao vereador fulano de tal e ao prefeito Eduardo Paes pelo asfalto colocado”.
“Os moradores da rua tal agradecem ao vereador fulano de tal e ao prefeito Eduardo Paes pela colocação de quebra-molas”.
“Os moradores da rua tal agradecem ao vereador fulano de tal e ao prefeito Eduardo Paes pela dragagem do rio tal”.
“Obrigado vereador fulano de tal e prefeito Eduardo Paes pelo novo viaduto”.

Eis minha faixa de agradecimento.

domingo, 22 de abril de 2012

O Alcoolismo – a doença da negação







Dois cafés e a conta....com Claudio Leite
Por Mario ventura, Revista O Globo 08 de Abril de 2012

Claudio Leite era o maior cirurgião infantil do país. Palavras do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho. Claudio perdeu a conta das vidas operou. Teve época em que parei, a mão tremia que salvou. Integrou as três maiores associações pediátricas do mundo. Criou uma técnica de entubação traqueal de recém-nascidos e desenvolveu cuidados pioneiros no pré e no pós-operatório. “Em uma época em que operar recém-nascidos e devolvê-los aos pais era praticamente um milagre, ele, com seus anestesistas e assistentes, resultados surpreendentes”, diz Rosa Célia, criadora do Pró-Criança Cardíaca. Por trás do sucesso, reconhecido no Brasil e no exterior, escondia-se uma doença que só a família sabia: alcoolismo. No dia 25, às 19h, ele lança rua na livraria Timbre o livro “Alcoolismo — doença da negação” (Editora Lacre). Aos 83 anos, mais de 20 como alcoólatra, Claudio está há 14 sóbrio, desde que entrou no Alcoólicos Anônimos (AA).
“Durante anos sofri e me destruí, destruí minha família, minha profissão e cheguei à solidão extrema e à completa desmoralização. Estou me expondo
muito com o livro, mas o benefício que ele pode trazer para quem é alcoólatra e ainda não se identificou com a doença compensa a quebra do anonimato.”

REVISTA O GLOBO: Como o senhor começou a beber?
CLAUDIO LEITE: Tomando um uisquinho à noite, para relaxar e descontrair. O alcoólatra se justifica: “Hoje trabalhei muito, mereço.” Bebia moderadamente. Mas o alcoolismo é uma doença de progressão lenta. Entre beber porque quer e porque precisa há um espaço muito grande de tempo. E há a negação. Dificilmente o alcoólatra admite que está bebendo demais. Passei anos bebendo sem controle e sem consciência dessa doença gravíssima, que mata mais do que o câncer e a Aids. O álcool é aceito pela sociedade, identificado à beleza e ao sucesso, mas há mais de 60 doenças secundárias associadas a ele.

Por que o senhor precisava beber?
Essa ideia de que você bebe porque tem um sofrimento muito grande é coisa do passado. Por séculos, o alcoólatra era aquele morador de rua, cheio de apelidos pejorativos, como pé de cana e pudim de cachaça. Acreditava-se que era vício, defeito de caráter, falta de força de vontade ou loucura. Mas é uma dependência química que afeta os componentes físico, mental e espiritual. Espiritualidade não é religiosidade, é uma força interna que nos mantém bem nós mesmos. E há uma herança genética. Eu tinha avô, tio, irmão, primo alcoólatras.

Como o senhor conciliava a medicina e o álcool?
 Procurava não beber na véspera de cirurgia. Meu amor pela Medicina era tão grande que suplantava a vontade de beber. Nunca entrei num centro cirúrgico bêbado. Um dia, com o  paciente já na mesa de cirurgia, liguei para meu assistente e disse que não tinha condições. Ele operou. Teve época em que parei, amão tremia muito, estava completamente doido. Em 1978, se tive um infarto. Não quis ficar internado, porque não poderia beber. Fui para casa e bebia uma - garrafa e meia de uísque por dia, infartado.

Como isso se refletia na sua família?
Nenhuma outra doença tem a capacidade de destruir a família como o alcoolismo. Minha mulher já quase não falava comigo. Há dez anos não dormíamos juntos, porque ela não agüentava meu bafo. A angústia e o sofrimento eram brutais. Eu tinha mania de arma, fiz tiro ao alvo. Um dia meu filho tirou tudo de casa, porque eu já estava com intenção de dar um tiro na cabeça. Diziam: “Claudio é mulherengo, adora mulher.” Não. Você adora a mulher que não fica dizendo: o “Não beba.” Por isso eu ia para motel e ficava dois, três dias com prostituta, para beber.

Como foi o processo de recuperação?
Minha família já tinha feito várias tentativas para - eu ir ao AA, mas eu, médico, agnóstico, orgulhoso e prepotente, me julgava acima de tudo. E o alcoólatra, nessa fase, tem um egocentrismo brutal, só pensa nele. Eu não queria entender  que é uma doença que nos faz iguais. No AA, você vê juiz ao lado de rapaz de 17 anos que roubou carro para o tráfico. Eu vivia trancado no quarto, sem tomar banho, bebendo vodca. Até que meu filho disse: “Papai, vou te dar uma última chance. Tome um banho e venha comigo.” Não sei por que obedeci. Era dia 11 de Um dia, com o novembro de 1997. Tinha 68 anos e estou sóbrio desde então. Tenho uma gratidão eterna pelo AA. Perdi muito tempo bebendo minha vida.

sábado, 24 de março de 2012

Joanna Marcenal e Lavínia Azeredo


Joanna Cardoso Marcenal Marins, de 5 anos, era uma menina linda, feliz, cheia de saúde e vida. Teve a vida e os sonhos destruídos pela tortura e crueldade, na casa de seu pai, o funcionário do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, André Rodrigues Marins, e sua mulher, Vanessa Maia Furtado Marins.
Faleceu em 13 de Agosto de 2010. *

A menina Lavínia Azeredo foi morta por asfixia com o cadarço do próprio tênis, assassinada pela ex-amante de seu pai, Luciene Reis Santana, em 28 de fevereiro de 2011.**

A Justiça do Rio de Janeiro condenou, no final da noite de quinta-feira, Luciene Reis Santana a 43 anos de prisão pelo assassinato da menina Lavínia Azeredo, 6 anos. ***

Enquanto isso o Caso Joanna Marcenal continua parado....

A assassina da menina Lavínia é negra e pobre.

Tirem suas conclusões.



Fontes:



quarta-feira, 21 de março de 2012

Arrogância


“Eike Batista contrata ex-ministro para defender o filho.
No Twitter, bilionário diz que 'só contrata o melhor'.”

Fonte: http://odia.ig.com.br/portal/rio/eike-batista-contrata-ex-ministro-para-defender-o-filho-1.422360

Após a leitura da matéria só posso exclamar: AI QUE POBREZA!

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia da Mulher .....


Como mulher me vejo inserida diariamente no meu dia. Dia de trabalhar, amar, gritar contra as injustiças, valorizar minhas amizades, minha família e buscar o crescimento.
Muitas vezes não sabemos a origem de nossa força, mas buscamos no fundo das nossas entranhas e nos parimos constantemente.
Meu abraço procês.


segunda-feira, 5 de março de 2012

A quem educa...


Esse texto me acompanha desde os primeiros anos de Magistério.

A Quem Educa...
Educa quem educará. E quem aprender a perder. Quem, ou cuja obra, permanecer muito depois do momento de educar. Educará quem for capaz de dar no presente, com decisão, coragem e sem culpas, tudo o que no futuro fizer lembrar - ainda que com dor mas se possível com muita alegria - o momento da educação.
Educar é perder sempre as batalhas do imediato. Menos o amor de quem percebe o quanto ele preside o gesto do educador. É perder qualquer pretensão do reconhecimento e saber que quando ele vier - se vier - já tempo não haverá para receber o agasalho de sua manifestação, nem como reparar as injustiças feitas, o silêncio, a falta do "muito obrigado". É perder porque é aceitar perdurar apenas na lembrança. É perder porque em qualquer sistema, em qualquer estrutura, em qualquer institucionalização de qualquer coisa sobre a face da terra, o verdadeiro educador estará ameaçando algo até mesmo tudo aquilo em que ele próprio acredita, porque o verdadeiro educador é aquele que acompanha as mutações da vida, dos tempos, dos comportamentos. É quem logo vê o abismo de imperfeições implícito no seu próprio ato de educar. Porque educar é educar-se a cada dia. E é ser capaz de eqüidistância de esquemas, sistemas ou fórmulas infalíveis e donas da verdade última das coisas.
Eu educo hoje com valores que recebi ontem para pessoas que são o amanhã. Os valores de ontem, os conheço. Os de hoje, percebo alguns. Dos de amanhã, não sei. Educo com os de ontem (os da minha formação)? Perderei os hojes e os amanhãs. Educo com os de hoje? Perderei o que havia de sólido nos de ontem e nada farei pelos de amanhã, que já serão outros. Educo com os de amanhã? Em nome do que? De adivinhações? Da minha precária maneira de conceber um amanha?
Se só uso os de ontem, não educo: condiciono. Se só uso os de hoje, não educo: complico. Se só uso os de amanhã, não educo: faço experiências à custa das crianças. Se uso os três, sofro. Mas educo.
Por isso educar é perder sem perder-se. Sempre. É ameaçar o estabelecido. Sempre. Mas é tudo isso sendo, também, integrar. Viver as perplexidades das mutações; conviver honradamente com angústias e incertezas; ir dormir cravado de dúvidas, mas ter sensibilidade para distinguir o que muda do que é apenas efêmero, o que é permanente do que é retardatário. É dormir assim e acordar no dia seguinte renovado pelo trabalho interior e poder devolver ao aluno, ao filho, a segurança, a fé, a confiança; formas éticas de comportamento, seu verdadeiro sentido de independência e de liberdade, seus deveres sociais consigo mesmo, com o próximo e com a sociedade, a parte que lhe cabe no esforço comum.
Educa quem educará. Quem for capaz de fundir ontens, hojes e amanhãs, transformando-os num presente onde o amor e o livre arbítrio sejam as bases. Educa quem educará porque capaz de dotar os seres dos elementos de interpretação dos vários 'presentes" que lhes surgirão repletos de "passados" e de "futuros".
O ser humano não é naturalmente bom nem é naturalmente mau. O ser humano é um feixe de emoções em conflitos, de poderes em confronto. Mas há alicerces básicos em seu comportamento, comuns a qualquer latitude ou longitude do terráqueo. Educa quem os fortalece, quem é capaz de dar proteínas, vigor e confiança ao lado humano do amor, mais forte que o do ódio, tanto que permite a vida do homem sobre a face da terra. E só quem educa transforma, por mais que as pessoas se iludam com o resto.
Educa a velha professora de quem nos lembramos, sabe Deus porque milênios depois num momento em que sua lembrança não tinha razões aparentes para vir à tona, como o velho tio, o amigo, o pai e mãe que voltam do passado com aquele olhar, aquela observação sobre a vida, à época julgados absurdo por nós. Educa aquele que só entendemos muitos anos depois e quando entendemos o espírito se liberta de antiga pressão, também chamada de remorso enrustido.
Educa o que nos exigiu forças que nos julgávamos desprovidos. Esforços de que nos acreditávamos incapazes. Confrontos conosco mesmos de que tanto fugimos e tantas desculpas menores encontramos para nos defrontar. Educa quem integra sempre e sempre pedaços de uma realidade eternamente mais ampla do que nós. E só quem educa, em qualquer nível ou atividade, merece viver integralmente as paradoxais intensidades de que é feita a vida.

Artur da Távola , In Mevitevendo, Salamandra, 1977.