quinta-feira, 11 de junho de 2009

Caixinha Mágica

Caixinha mágica

Fabrico uma caixa mágica
para guardar o que não cabe
em nenhum lugar:
a minha sombra
em dias de muito sol,
o amarelo que sobra
do girassol,
um suspiro de beija-flor,
invisíveis lágrimas de amor.

Fabrico a caixa com vento,
palavras e desequilíbrio,
e para fechá-la
com tudo o que leva dentro,
basta uma gota de tempo.

O que é que você quer
esconder na minha caixa?

Roseana Murray

terça-feira, 9 de junho de 2009

Rodrigo Andreiuk


Rodrigo Andreiuk, façam uma visitinha, vocês vão gostar!


Site Oficial: www.rodrigoandreiuk.com


Blog: http://rodrigoandreiuk.blogspot.com/



Sucesso procê Rodrigo!



segunda-feira, 8 de junho de 2009

O que seduz uma mulher

Imagem: Abellán A Despedida

“Uma mulher não se interessa por um homem que seduz como quem dá as cartas, um homem que solicita a conta como quem fecha um negócio, que a envolve como se fosse um investimento. Uma mulher não se interessa por um homem que não tenha também músculo nas pálpebras para chorar por ela, músculos na boca para guardar sua língua.

Uma mulher não se interessa por homens prontos, fechados, absolutamente perfeitos.”


Fabricio Carpinejar

sábado, 6 de junho de 2009

Os labirintos espelhados e Helio Pellegrino

Imagem daqui

Vago por labirintos espelhados,
Feitos de duros bronzes e de prantos,
Ando por descaminhos tais e tantos
Que seus desvios geram destroçados

Clarões de perdição, alcatilados
Declives enganosos, e mais quantos
Desconcertos couberem na alma, e espantos

Desfilando vertigens, e enforcados

Gritos que assomam, pedras proferidas

Como calhaus de noite, e maldição

Porejando da boca, e desferidas

Perguntas de asas rotas – sim e não

Ceifando córneas, ossos e feridas –

E a dor do cravo assassinado na mão.

Hélio Pellegrino

Poema escrito no Regimento Caetano de Farias, em 22/2/1969, quando Hélio estava preso, acusado de líder comunista pela ditadura militar. O poema consta do livro “Minérios domados, ed. Rocco, 1993. In, Hélio Pellegrino, Lucidez Embriagada, organização Antonia Pellegrino.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O Encontro com o Outro

”O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio.

Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade.

O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo.

É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma.

Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome.”

Carta de Hélio Pellegrino para Fernando Sabino

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Puxando nossos cordões

Puxando seus próprios cordões

Somos ligados

de maneiras invisíveis

aos nossos medos,

somos o títere

& o titereiro,

as vítimas de nossas

expectativas.

Fios de seda puxam,

braços & pernas

mexem-se & se sacodem.

Dançamos de acordo com a música

de nossos medos,

corpos encolhidos por dentro,

crianças escondendo-se, fingindo,

sob pedras,

por trás daquela árvore,

em algum lugar, em toda parte,

não o que controlamos.

Puxe seus próprios cordões,

entre no seu corpo

& de acordo com o compasso da vida

corte seus cordões,

estenda a mão para o desconhecido,

caminhe pela escuridão,

abra os braços

para o abraço do ar,

transforme-os em asas

que voam.

Gayle Spanier Rawlings

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Educação??????

Imagem recebida por e-mail

“A educação benevolente e frouxa que hoje predomina nas casas e escolas é mais nociva do que uma sala de aula com tetos, chãos furados e livros aos frangalhos”
Lya Luft



terça-feira, 2 de junho de 2009

Para Chico Buarque de Hollanda

A Carolina, de olhos fundos,
ficou na janela,
enquanto estava à-toa na vida
perdeu algum tempo ao ver a banda passar.
Quem não soube correr atrás do vento
acabou bebendo a tempestade
encurtando o vestido de quem se dedicou a ficar
parada, pregada, na pedra do porto.
Sem coragem para enfrentar o perigo
alguns se limitaram a jogar pedra na Geni
E o pedaço arrancado de mim dói tanto
quanto a saudade do revés de um parto.
Mas... tudo se resolve quando...
A mulher amada é cantada na semente
Naquele dia em que ele vem, tão diferente,
Num seja lá o que for que dá dentro da gente...
Neste cantar Severino
Navegando mesmo quando não é preciso...
Que, finalmente,
o mundo compreende, e o dia amanhece... em Paz.
Glenda Maier

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Arrumar o armário....

Arrumar o armário

passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário

passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário

E nesse arrumar de armário

há um desarrumar de emoções

coisas desaparecidas

aparecem no armário, na mente, no coração.

Pouca coisa é necessária para se arrumar o armário

Um pequeno banco,

uma grande cesta de lixo

alguma criatividade

muita boa-vontade

e tempo

o tempo passa ao se arrumar o armário

passa-se o tempo

ao contrário do sentido do relógio

pensa-se o tempo.

Caixas e gavetas

coisas acumuladas

pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos

ao arrumar a coleção empilhada

a ampulheta da mente revira

Por que guardei isso no armário e não na memória?

Por que errei esta questão na prova de história?

Lixo!

A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área

do círculo ao redor

Lixo!

Um papel dobrado como gaivota

apenas a palavra azul desenhada a pena

(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)

E um pouco do passado é rasgado e jogado na cesta de lixo

Tudo é novamente selecionado

e novamente guardado

no armário e na mente

armariamente

mente novamente armada

armário novamente limpo

tentativa de organizar a memória e o quarto

por pouco tempo

pois mais um quarto da vida será passado

pensando-se em arrumar o armário.

Ângela Carneiro

domingo, 31 de maio de 2009

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.


Daniel Faria, In Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)

sábado, 30 de maio de 2009

Olhares da Alma....


“Há um olhar que sabe discernir o certo do

errado e o errado do certo.

Há um olhar que enxerga quando a obediência

significa desrespeito e a desobediência

representa respeito.

Há um olhar que reconhece os curtos caminhos

longos e os longos caminhos curtos.

Há um olhar que desnuda, que não hesita

em afirmar que existem fidelidades perversas

E traições de grande lealdade.

Este olhar é o da alma.”

Nilton Bonder, In A alma imoral

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Tempo de delicadeza

Sei que as pessoas estão pulando na jugular uma das outras.

Sei que viver está cada vez mais dificultoso.

Mas talvez por isso mesmo ou, talvez, devido a esse maio azulzinho, a esse outono fora e dentro de mim, o fato é que o tema da delicadeza começou a se infiltrar, digamos, delicadamente nesta crônica, varando os tiroteios, os seqüestros, as palavras ásperas e os gestos grosseiros que ocorrem nas esquinas da televisão e do cinema com a vida.

Talvez devesse lançar um manifesto pela delicadeza. Drummond dizia: "Sejamos pornográficos, docemente pornográficos". Parece que aceitaram exageradamente seu convite, e a coisa acabou em "grosseiramente pornográficos". Por isso, é necessário reverter poeticamente a situação e com Vinícius de Morais ou Rubem Braga dizer em tom de elegia ipanemense:

Meus amigos, meus irmãos, sejamos delicados, urgentemente delicados.

Com a delicadeza de São Francisco, se pudermos.

Com a delicadeza rija de Gandhi, se quisermos.

Já a delicadeza guerrilheira de Guevara era, convenhamos, discutível. Mas mesmo ele, que andou fuzilando pessoas por aí, também andou dizendo: "Endurecer, sem jamais perder a ternura".

Essa é a contradição do ser humano. Vejam o nosso sedutor e exemplar Vinícius, que há 20 anos nos deixou, delicadamente.

Era um profissional da delicadeza. Naquela sua pungente "Elegia ao primeiro amigo" nos dizia:

Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente.

E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha alma

Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.

Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento.

Se me entediam, abandono-as delicadamente, despreendendo-me delas com uma doçura de água.

Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim

Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível

Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher

Mas com singular delicadeza. Não sou bom

Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado

Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida

Como um lobo.

Esta aí: porque somos ferozes precisamos ser delicados. Os que não puderem ser puramente delicados, que o sejam ferozmente delicados.

Houve um tempo em que se era delicado. E Rimbaud, que aos 17 anos já tinha feito sua obra poética, é quem disse um dia: "Por delicadeza, eu perdi minha vida."

Intrigante isso.

Há pessoas que perdem lugar na fila, por delicadeza. Outras, até o emprego. Há as que perdem o amor por amorosa delicadeza. Sim, há casos de pessoas que até perderam a vida, por pura delicadeza. Não é certamente o caso de Rimbaud, que se meteu em crimes e contrabandos na África. O que ele perdeu foi a poesia. E isso é igualmente grave.

Confesso que buscando programas de televisão para escapar da opressão cotidiana, volta e meia acabo dando em filmes ingleses do século passado. Mais que as verdes paisagens, que o elegante guarda-roupa, fico ali é escutando palavras educadíssimas e gestos elegantemente nobres. Não é que entre as personagens não haja as pérfidas, as perversas. Mas os ingleses têm uma maneira tão suave, tão fina de serem cruéis, que parece um privilégio sofrer nas mãos deles.

Tudo é questão de estilo.

Aquele detestável Bukovski, sendo abominável, no entanto, num poema delicado dizia que gostava dos gatos, porque os gatos tinham estilo. É isso. É necessário, com certa presteza, recuperar o estilo felino da delicadeza.

A delicadeza não é só uma categoria ética. Alguém deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza é uma categoria estética.

Ah, quem nos dera a delicadeza pueril de algumas árias de Mozart. A delicadeza luminosa dos quadros dos pintores flamengos, de um Vermeer, por exemplo. A delicadeza repousante das garrafas nas naturezas mortas de Morandi. Na verdade, carecemos da delicadeza dos adágios.

Vivemos numa época em que nos filmes americanos os amantes se amam violentamente, e em vez de sussurrarem "I love you" arremetem um virótico "Fuck you".

Sei que alguém vai dizer que com delicadeza não se tira um MST - com sua foice e fúria - dos prédios ocupados. Mas quem poderá negar que o poder tem sido igualmente indelicado com os pobres deste país há 500 anos?

Penso nos grandes delicados da história. Deveriam começar a fazer filmes, encenar peças sobre os memoráveis delicados. Vejam o Marechal Rondon. Militar e, no entanto, como se fora um místico oriental, cunhou aquela expressão que pautou seu contato com os índios brasileiros: "Morrer se preciso for, matar nunca".

A historiadora Denise Bernuzzi de Sant'Anna anda fazendo entre nós o elogio da lentidão, denunciando a ferocidade da cultura da velocidade. É bom pensar nisso. Pela pressa de viver as pessoas estão esquecendo de viver. Estão todos apressadíssimos indo a lugar nenhum.

Curioso. A delicadeza tem a ver com a lentidão. A violência tem a ver com a velocidade. E outro dia topei com um livro, A descoberta da lentidão, no qual Sten Nadolny faz a biografia do navegador John Franklin, que vivia pesquisando o Pólo Norte. Era lento em aprender as coisas na escola, mas quando aprendia algo o fazia com mais profundidade que os demais.

Sei que vão dizer: "A burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados."

- E eu não sei?

Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.

Affonso Romano de Sant'Anna, In Tempo de delicadeza