segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Marlowa e a Família Carvalho

Conheci as ilustrações da Marlowa através de uma pesquisa de imagens no Google.
Imediatamente me identifiquei com seu traço delicado e sua percepção da vida recheada de gentileza e afeto.
Fiz contato com ela solicitando usar suas ilustrações nas fotomontagens do blog.
Trocamos correspondências e encomendei um quadro que retratasse minha família.
Enviei-lhe algumas características nossas e me dei de presente de aniversário.


Sobre a autora
Marlowa Pompermayer Marin, iniciou suas atividades artísticas em Caçador (SC), sua cidade natal. Aperfeiçoou-as no Instituto de Desenho do Paraná, em Curitiba. Mas foi mesmo em Chapecó, onde teve a oportunidade de muita atuação, formando a artista que é hoje. Sua trajetória é composta de várias exposições individuais e coletivas no Brasil e também no exterior. Foi aprovada recentemente na Sociedade dos Ilustradores do Brasil.

“Em meus desenhos e pinturas estão inseridos o dia-a-dia, a imensidão das pequenas coisas. Gostaria que a minha produção tivesse uma íntima relação com o encantamento de viver.
Nesta singela referência à vida, tento inscrever um pouco da pureza que cada ser carrega consigo em sua essência.
No fundo este é o meu desejo de tornar o mundo um pouco melhor: é um convite para olharmos para nós mesmos e para o “universo” que nos circunda como um presente, que Deus nos outorga, valorizando-o, compreendendo-o e desfrutando-o.”


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sobre livros, presentes e Clara...

Vocês devem dizer que sou uma mãe babona. Assumo: Sou!
Esses foram os presentes de aniversário que ganhei da Clara.
Melhor que os presentes foram as dedicatórias.
Melhor que tudo isso, é ser a mãe da Clara.

Essa história está diferente – dez contos para canções de Chico Buarque, Organização Ronaldo Bressane

Dedicatória:
Das paixões que carrego porque você me fez assim: livros e Chico.

Quis te presentear com o que cheire à nossa relação, com o que vem dos laços que se formaram em nós.

Que aqui tem o que há de você em mim em você. Diante das diferenças, esbarramos em muitas semelhanças.
E é nelas que nos fazemos inteiros para seguirmos.

Com todo o meu amor de hoje, que você não se canse de sempre ganhar livros.
Se eu pudesse, compraria uma biblioteca.
Um dia eu escrevo um e será presente.
Por enquanto, Feliz aniversário!
Te amo!
Anna Clara
06/09/2010

O amor esquece de começar, Fabrício Carpinejar

Dedicatória:
“A tristeza às vezes é
Uma alegria que nasce
Sob um acaso de um disfarce
E é isso que a vida é.”
Fernando Pessoa

Os encontros são feitos de confortos e desconfortos. Estar disposto a encontrar o outro é abrir-se ao destino, para a troca.
Nem sempre ela nos oferece o que mais desejamos, mas como aprender com o que nos surpreende para, ainda assim, fortalecer o laço?

Tenho feito o melhor de mim para que você esteja feliz. Quero que saiba que te amo muito, independentemente dos pequenos desencontros. Te amo pelas diferenças. Que assim se faça, disponível, a nossa caminhada diária.
Feliz Aniversário!
Clarinha

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Caio Fernando Abreu

Foto retirada do Google de autoria desconhecida

Tenho o maior orgulho de ser contemporânea de Caio Fernando Abreu.
Comecei a ler seus contos ainda adolescente e o encanto foi de imediato. Li todos os seus livros e o último escrito pela Paula Dip, li quase que a metade durante uma viagem para Portugal. Não conseguia parar a leitura embora o sono se fizesse presente.

Hoje, 12 de Setembro, Caio faria 62 anos.

Deixo minha saudade neste trecho de sua obra:
“(...) há pequenos agostos embutidos no entremeio dos doidos setembros.”
Caio Fernando Abreu

*Programei a postagem para o dia 12 e só hoje observei que havia colocado o ano de 2011, por isso não foi publicada no dia.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

As surpresas da vida

Vida! Independente da estação, do céu nublado ou ensolarado, deve ser diariamente celebrada. Comentário que fiz no poema “Estações e improvisos – A vida”, do poeta Evandro Guzman.
Interessante a vida.
Aniversariei 2ª feira, dia de sol e calor no Rio de Janeiro. Celebrei minha vida, em casa, com marido e filha num jantarzinho íntimo regado a afeto e carinho.
Na 3ª, recebi meus familiares e amigos para uma comemoração mais festiva. Dia nublado, temperatura amena, com chuva à noite. Tarde e noite gostosas cercada de pessoas que amo.
Quarta à noite recebo a notícia que uma tia querida estava em coma sem muitas chances de sobreviver.
Ontem passei um dia triste pensando na possibilidade de ela estar em sofrimento.
Hoje, pronta para sair, o porteiro interfona.
-Encomenda da floricultura para a senhora.
-Pode subir.

Penso com meus botões: Quem me mandou flores?
Recebo as flores com um cartãozinho carinhoso da amiga Ana Jácomo. Perfumadas como sua alma.
Já atrasada, as coloquei no jarro para arrumar quando voltasse. Feliz com o presente, mas ainda com o coração apertado pelos últimos acontecimentos.


Chego à casa e encontro, pregado na geladeira, um bilhetinho muito carinhoso da filhota que com 20 anos ainda mantém hábitos de escrever para os pais como fazia na infância.


Dia ensolarado, coração nublado, Vida celebrada.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Carta de Miguelito a Mafalda



Querida Mafalda:
Neste dia tão especial lembrei-me de teu aniversário. Como passa o tempo! Nascemos no coração de um país que sonhava. Quantas utopias! Quantos desejos de crescer, de melhorar as coisas! Coube-nos conviver com um tempo de homens criativos: Luther King, Che Guevara, João XXIII, John Kennedy; transmitiram-nos o sentido da justiça, o valor dos sentimentos, a maravilhosa aventura de pensar com a própria cabeça.
Ontem eu me perguntava por nossa amiga Libertad, aquela pequenina que um dia encontraste numa praia, não me lembro se era Santa Teresita ou Mar Del Tuyu; lembro ainda de quando a apresentaste a teus pais... Era muito viva e queimadinha pelo sol de fevereiro. Como está Libertad? É verdade que a mataram durante a ditadura? Dizem que a torturaram e seu corpo desapareceu no Rio de la Plata. Custa-me pensar que morreram seus sonhos. E se estiver viva? Estará filosofando sobre a fragilidade das coisas e o sentido de a vida?
E a Susanita? Casou-se? Terá conseguido realizar sua vocação de ser mãe?
Imagino-a vivendo em alguma cidade do interior, passeando de braços dados com o marido (um homem baixo e calvo) em uma tarde de verão, contente com seus filhos e cuidando do primeiro neto, realizada como tantas mulheres comuns ...
Soubeste da morte de Manolito? Pois é, perdeu suas economias durante o "corralito", foi à falência e não suportou: teve enfarte fulminante. Os últimos dias o viram cabisbaixo, murmurando palavras incoerentes, abandonado como um mendigo numa estação de metrô, triste e abatido, como muitos outros.
Fui informado de que Felipe vive em La Habana, que tentou fazer cinema, que tem um táxi e que fala aos turistas de Fidel e da revolução com o mesmo entusiasmo de quando vivia em Buenos Aires...
Falei com Guille, teu irmão, durante uma apresentação dele, há pouco tempo, no Scala de Milão. Contou-me que vive em Genebra, nunca se arrepende de haver emigrado nos últimos anos de Alfonsin, e que é feliz com sua nova esposa.
E tu, querida amiga, como estás?
Fazia tanto tempo que não tinha notícias tuas... Sei, através de amigos, que segues ouvindo rádio, que lês jornais de todo o mundo, que o Iraque te angustia como te angustiava o Vietnam, sei que trabalhas para a FAO pelos povos famintos, que estas indignada pela prepotência de Bush, etc. Recebi teu pedido para juntar medicamentos para os Médicos sem Fronteiras, sei que prosseguem as reuniões em tua casa em Paris, que estás confusa, inquieta e preocupada pelo futuro do mundo... Enfim, Mafalda, sei o suficiente para alegrar-me porque estás viva, viva na alma, e criança como sempre.
De minha parte prossigo escrevendo, reclamando falta de tempo; acreditando, como sempre, no valor da sinceridade, perdendo oportunidades por manifestar minhas idéias. Alguns dias fico triste e deprimido, mas é sempre mais forte a alegria que a tristeza... O mundo não melhorou muito desde a época em que vivíamos juntos em nossa pátria.
Às vezes, quando miro o globo terrestre, encontro o teu olhar, e penso em todos aqueles que o miram como tu, nos olhos dos que protestam, dos que não se conformam, e dos que vivem na atmosfera do otimismo e da justiça..
Esses olhos, junto aos meus, te desejam bons dias, querida amiga, por outros quarenta anos tão intensos e jovens como os que viveste.
Um grande beijo de teu amigo que te ama como sempre.
Miguelito.

Autoria desconhecida, tradução de José Dervil

Recebi do amigo Max, por e-mail, e não consegui ficar imune a emoção de ler tanta verdade acomopanhada de muita ternura.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobre viagens e livros II


Sempre que alguém viaja para Portugal minha encomenda é sempre a mesma: livros.


Embora já tenha lido muita coisa de Inês Pedrosa, dessa vez pedi três livros e chegou de quebra “Nas tuas mãos”, nova edição com a capa bem mais bonita que a anterior.


“(...) A minha amizade por ti tem agora mais dedos, mais carícias – encontro nas rugas do meu coração seco restos de rímel, restos do pó-de-arroz que trocávamos, na casa de banho dos bares e dos cinemas, para esconder as lágrimas e fazer de valentes, na década em que ainda demasiado inocentes para podermos ser corajosas.” Inês Pedrosa, In: Carta a uma amiga (Fotografias de Maria Irene Crespo)


“(...) O amor dos amigos entra por todas as moradas, sem pedir licença ao tempo, e dorme em qualquer canto para acudir fora de hora às emergências imperceptíveis.” Inês Pedrosa, In: Carta a uma amiga (Fotografias de Maria Irene Crespo)


“Não há entendimento para o sofrimento do outro - só essa distância paternalista a que, nos casos dos felizes, se chama compaixão.” Inês Pedrosa, In: Fazes-me falta.


“Desta vez, esqueci-me dos meus princípios. Fotografei com paixão, cor, libertinagem, imprudência. Fiz grandes planos de rostos desmantelados no público, aplausos e lágrimas. Usei exposições intermináveis. Usei tudo aquilo que normalmente considero “truques baixos”, a as máquinas que habitualmente me servem para fugir à vida devolveram-me imagens de dança onde se inscreve a verdade do sonho da minha vida.”  Inês Pedrosa, In: Nas tuas mãos


“A maior ambição dela era conseguir ultrapassar a precariedade das relações. Parecia-lhe absurdo deixar de amar as pessoas que tinha amado, não suportava a idéia de que a vida se resumisse a uma coleção de recordações sem eco. Escalava as escarpas da história numa ânsia de escapar à rarefeita atmosfera do presente. Queria aprender o segredo da continuidade. Mas não havia segredo nenhum; a permanência não era mais do que uma tempestade de rupturas e repetições.” Inês Pedrosa, In: Do grande e do pequeno amor, Um romance fotográfico. Fotografias de Jorge Colombo


“(...) Talvez o riso seja mais contagioso do que a dor. Talvez. Mas, por agora, dou as mãos à memória da tua voz para regressar a casa, dançando do passeio para o asfalto as canções de Nova Iorque que tu cantavas por cima da minha voz, quando eu te ralhava. Por agora, danço entre os arranha-céus até que eles se diluam, danço como se tu pudesses renascer da água dos meus olhos, inundada de luz.” Inês Pedrosa, In: Fica comigo esta noite

domingo, 29 de agosto de 2010

Você sabia? Largo do Machado








  Fotos: Regina Coeli Carvalho



A VOZ DO POVO – MEMÓRIA DO RIO EM DITOS – O objetivo da mostra coletiva é proporcionar um diálogo entre o povo, o espaço urbano, seus patrimônios e memórias por meio de instalações e intervenções. Tudo isso com a irreverência dos ditados populares, que anunciam curiosas memórias da cidade e nosso patrimônio, no intuito de popularizar esse rico conteúdo. A exposição é a céu aberto, com instalações montadas pela cidade do Rio de Janeiro, em um circuito que se inicia no Largo do Machado e passa pelo Catete, Glória, Lapa, culminando no Centro da cidade, com instalações na Cinelândia e Praça XV. Largo do Machado, Catete (Museu da República), Glória (Rua da Glória e Praça Paris), Lapa (Ruas Riachuelo e Lavradio), Cinelândia e Praça XV. Grátis. Até 17 de setembro.
Fonte: http://jbonline.terra.com.br/leiajb/2010/08/27/revista_programa/exposicoes.asp

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Dia do Psicólogo

27 de Agosto – Dia do Psicólogo

Peço licença à autora do texto para posta-lo aqui,
É um texto que explica a nossa profissão, sem perder de vista o olhar poético sobre o ser humano e a nossa responsabilidade no crescimento e na ciranda da vida do outro.
Começaria tudo outra vez se tivesse que escolher uma profissão. Foi através da psicologia que cresci, através do contato com pessoas, com suas dores e que através de nossas trocas deixaram aflorar seus sentimentos.
Complementando com um pensamento de Jung que adotei para minha vida profissional:
"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas quando tocar em uma alma humana seja apenas outra alma humana." Carl Gustav Jung


Trechos de Ser terapeuta: falando de amores e dores, Jean Clark Juliano, In A arte de restaurar histórias.

“(...) Para dar conta dessa profissão só mesmo sendo inquieta e muito sensível. É justamente essa inquietude que nos move. A sensibilidade nos faz diminuir o passo e escutar com atenção...
(...) Um dos privilégios é ter a licença, a possibilidade de se estar em um nível muito alto de intimidade com uma outra pessoa. Permanecer junto dela até que encontre seu trilho. E ver que existe um caminho, singular para cada um. E torcer por ela, irradiando energia, nos colocando nos bastidores, enquanto a pessoa está fazendo o seu trabalho. E, se tivermos a paciência necessária de esperar, podemos ver e constatar, muitas e muitas vezes, que a mágica funciona!
(...) Quanto à maioria daqueles que cruzam nossa vida, podemos mesmo caminhar junto com eles até que encontrem seu trilho, quando então ganham velocidade. Nesse momento, ficamos no umbral de sua vivência, podemos chegar perto, mas quem transpõe aquele portão é ele. Sozinho.... por mais que queiramos ir junto...
(...) Temos sempre a dupla tarefa de, estando alertas para o que se passa em nós, ao mesmo tempo nos estendermos até aquele que está conosco. Sem que nos percamos. Mas sempre a serviço do Outro.
(...) E, depois de tudo, desse longo trabalho de alfabetização, o passo a passo, toda a longa caminhada, quando atingimos o ponto de diálogo, da maturidade, é hora de encerrar o processo!
Para novamente abrir espaço e receber uma outra pessoa, começando do começo, e assim vamos... Nessa ciranda eterna...
Coisa estranha essa profissão. Cheia de sabores. Cheia das possibilidades. Cheia de possíveis disfarces. Condenada à solidão pessoal pela proximidade com a alma alheia. Abençoada em alguns encontros... E o que nos mantém nesse percurso? Será a onipotência, a loucura, a teimosia?
A fé, acho....”

Registro meu respeito para os colegas psicólogos por quem nutro um carinho especial: Ana Campelo, Cidinha,, Cirleide, Jussara,, Mauricio Carneiro, Ney Gonçalves, Nisha Novaes, Rita Martins, Rosangela Baruffaldi, Sergio Affonso, Verinha,

Publicado no Recanto das Letras em 27/08/2010
Código do texto: T2461797

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Dr. Formol

Ontem fui ao lançamento do livro do médico patologista e poeta Antonio Gutman.
Leitura imperdível!



Dr. Formol – poesia e crônicas intercaladas com algumas frases, observações, sátiras, todas baseadas em fatos reais.
Edição do Autor, 2010.
Contato: antoniogutman@hotmail.com

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Claire Feliz Regina

Quando estive em São Paulo fui convidada pelo amigo poeta do #Versificados, André Al. Braga, a assistir ao Sarau da Casa das Rosas. Lá conheci uma senhorinha, jovial, poetisa, alegre e embora com a filha hospitalizada compareceu ao evento por ter se comprometido anteriormente.
Ao final fui cumprimentá-la e abraça-la contagiada com a alegria que ela apresentou sua poesia.

A estrada da vida

A cidade onde eu nasci
As ruas por onde andei
Os lugares que eu conheci
E as paredes onde eu amei.

Deles eu nunca me esqueci

São os lugares da minha vida
Espaços da minha memória
Se um dia eu for poeta
Vou cantar em sua glória.

Ela pensa que se lembra de todos
Mas, há uma estrada que anda muito esquecida
Justamente aquela, que foi a primeira,
Por todos nós percorrida.

Nenhum poeta fez versos para ela
Nem você, se lembra do nome dela

"Perereca", " xoxota" e até " periquita"
São nomes que dão para ela
Mas, você sabe na verdade o que ela é
Ela é a porta de entrada da vida

E se você não nasceu de cesariana
Tenha mais carinho ainda com a

"perseguida"

Pois, ela já foi um dia
A sua única saída.

Claire Feliz Regina



terça-feira, 10 de agosto de 2010

Carta para Josefa, minha avó

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela raparigado teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o Sol todos os dias.De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal!Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do Mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos da rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietnam é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja.(Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?...) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses.E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu risoé como um foguete de cores. Como tu não vi rir ninguém.
Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este Mundo e não curaste de saber o que é o Mundo. Chegas ao fim da vida, e o Mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos- e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente.Porque foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto entendo eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesses compreender. Já não vale a pena.O mundo continuará sem ti- e sem mim.Não teremos dito um ao outro o que mais importava.
Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas-e isso ainda é pior. Mas porque, avó, porque te sentas tu na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!"
É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.
José Saramago

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ode aos herdeiros políticos




Autor: José Miguel Silva poeta português
Interpretação de Antônio Abujamra

domingo, 8 de agosto de 2010

O relógio de papai



Lembro-me de seu relógio humilde, um "cebolão" como era chamado antigamente, o mostruário amarelado, números grandes, um relógio comum.
Mas que interessante! Papai nunca esqueceu da hora de nos acordar à noite para nos dar o remédio, de nos acordar para irmos à escola e principalmente papai nunca precisou de hora para nos dar amor e carinho.
Lembranças! Quando entrávamos na adolescência, hora de usar um relógio, já que naquele tempo era um artigo de luxo, papai procurava alguém que pudesse fazer um preço "mais em conta" ou até mesmo comprar um relógio de "2ª mão", ou seria 2º pulso?
Papai partiu há 35 anos, mas ainda hoje guardo com recordação seu relógio antigo, sem marca, sabedora de que ele não era consultado na hora de nos dar amor.
Saudades pai!

sábado, 7 de agosto de 2010

#Versificados - Pai


A proposta do #Versificados deste mês foi com o tema Pai.

 Dá uma passadinha por lá para ver os poetas versificando nos classificados dos jornais.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Poemas Errados (Dias Intranqüilos)






 

O homem debaixo do banco
Mendigando
Sujo e caduco
Segue andando
Com muito pouco
O vagabundo

Na praça, debaixo do banco
Vigiado pelo herói de bronze
Dorme tranqüilo o saltimbanco
Por horas: nove, dez, onze...

E eu, passando admirado
Vejo-o ali, jogado
E recordo que não me lembro mais
Quando dentro do meu sobrado
Dormi com tanta paz
André Al. Braga

domingo, 1 de agosto de 2010

Antigos e Soltos, poemas e prosas da pasta rosa


























O livro 'Antigos e soltos' reúne escritos da carioca Ana Cristina Cesar. A publicação é o testemunho do processo criativo da escritora, que se tornou ícone da poesia nos anos 1970/1980, e apresenta textos de diversos gêneros, poemas, fragmentos de diário, anotações íntimas em cadernos de aula, relatos de viagem, bilhetes e cartas nunca enviadas. O material foi preservado pela mãe da poeta, Maria Luiza, e doado pela família ao Instituto Moreira Salles, onde se encontram todos seus originais. Posteriormente, foi catalogado por Manoela Daudt d'Oliveira e reorganizado para a presente edição por Viviana Bosi. *


Por Enquanto
Quando
então
sentada na cama de casal
lembro que nela te perdes de
beijos
estou sem ar
no ar mexo as mãos
olhos
força nos ombros no nariz;
a garganta solapa; via
estreita,
nossa conversa amena;
nossa amizade;
até o previsto e casto
adeus;
o tempo se poupa;
nos economiza;
e teu ouvido
mouco;
e o troco;
e enquanto isso,
fora,
o real constrói o poema,
imbatível.

Ana Cristina César

*O livro tem 475 páginas, já estou na metade.

sábado, 31 de julho de 2010

Sobre viagens e livros



Fui passar quatro dias em São Paulo para dar uma descansada e minha filha conhecer a cidade.
Foi um reencontro com as amigas gratificante, não nos víamos desde 2006 e conhecer a Mimi também foi muito prazeroso.
Porém, viajar sem conhecer livrarias não é viagem completa. A mala voltou um pouco mais pesada.


Fiquei encantada com a Livraria Cultura. São várias livrarias numa só. Visitei o Instituto Moreira Sales, editor do meu objeto de desejo: “Antigos e Soltos, poemas e prosas da pasta rosa, Ana Cristina César, organizado por Viviana Bosi. (merece uma postagem separada 1)


Fui convidada pelo André para assistir ao Sarau da Casa das Rosas e aproveitei para comprar o livro dele, recentemente lançado, com direito a autógrafo. (merece uma postagem separada 2)


Visitamos o Museu da Língua Portuguesa, visita rápida pois estávamos com horário apertado de volta. Dentre os 4 livros que comprei  estão essas preciosidades:



quinta-feira, 29 de julho de 2010

O perigo dos ralos de piscina

 O poder do amor – Entrevista com Odele Souza, do blog Flavia Vivendo em Coma
Blog da Jana
Para os que não conhecem a história da Flavia: