domingo, 7 de fevereiro de 2010

João e Maria

Resgatei esse texto usado, nos anos 80, com meus alunos do Curso de Formação de Professores.

Continua atual.


João e Maria


Maria e João fugiram daquela gaiola horrível

em que uma velha malvada os estava preparando

para cozinhar no feijão...Fugiu Maria, fugiu João...

E a psicologia explica: ficaram com um medo incrível

de toda e qualquer prisão !


Crescendo fizeram, um dia, uma escola de alegria,

Uma escola diferente, sem limites, sem programa...

Mas uma escola tão boa que logo ela ganhou fama.


Subiam no alto dos morros prá contemplar lá de cima

o sol se pôr no horizonte...

e para atender o rio...iam buscar sua fonte.


Observavam as larvas, os bichinhos no quintal...

Comentavam sobre a vida, sobre o bem e sobre o mal.


Era uma escola diferente, sem limite, sem programa...

Mas uma escola tão boa que logo ela ganhou fama.


As crianças se espantavam quando falavam!

Adultos ao redor delas - as escutavam!


Mas um dia...triste dia...os homens da Educação

foram ver a escolinha de Maria e de João.


Não gostaram! Detestaram! Que loucura...Que tolice!

Sem programa ? Quem lhes disse

Que escola se faz assim ?

Como haverá, repetência, sem as séries, sem um fim?

Como haverá reprovados sem os alunos da escola devidamente testados ?


E logo naquele dia em que na escola era o tema

Sentir o perfume das flores que estava no ar.


O poderoso sistema fez a escolinha fechar

- POR ONDE ANDA MARIA / ONDE ENCONTRAR JOÃO ?


Em qualquer sala de aula onde um mestre inteligente

sorrindo com seus alunos, soltar a imaginação...

Há sempre algum sinalzinho de Maria e de João.

No ar, no mar, no arco-íris, no fundo do coração

para quem ama criança...nunca morre a esperança

de ser Maria ou ser João.

Dra. Fernanda Barcellos

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mila


Foto: Regina Bentes

Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me profundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?


Amá-la — foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.


Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu "fumos fidalgos", como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Saba numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.


No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.

Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

Carlos Heitor Cony, Folha de São Paulo , 04/06/1995


domingo, 31 de janeiro de 2010

O ritual do café


Estampa-se o sol em delicados raios
Sobre o mármore branco e liso da cozinha.


Suavemente me debruço e uma porta abro,
Recolho a chávena fina e o florido prato.


Ergo o meu braço e num voo livre,
No gesto de um armário desvendar,
Recolho o nobre pó de inebriante aroma.


Alongo a mão que a gaveta encontra,
E dela escolho, enfim, a colher mais bela,
Brilhante, pequena, com terno recorte.


Tudo coloco em ordem e harmonia:
O prato tranquilo e a expectante chávena,
Nesta, o torrado grão moído, de castanho intenso.


No açúcar rico, centro o meu cuidado,
A montanha branca transportando, pura,
Em bojuda prata que doce se inclina.


E luzem cristais em cascata linda!


Depois, a água borbulhante, quente,
A mistura inunda, dissolvendo-a
Em espirais de espuma que a colher adorna.


Café! Café! Precioso encanto!


Em dégagé devant te cumprimento,
Os meus braços lanço em acolhimento grato.


Da janela aberta me acerco então.


Tão bela é a vista que o Outono pinta no jardim!
Castanho da terra e verde das plantas unem-se
À água que brilha em bebedouro antigo.


Aspiro, feliz, da manhã tranquila, o seu odor
A quente café e à relva orvalhada.
Olho o céu e sorvo um gole, outro e outro.


E assim me quedo, por instantes longos.
Entre o prazer forte do café e a doçura da manhã
Mais um dia de vida se inicia!

Ilona Bastos



quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sonhos de infância


Reuni os comentários dos amigos sobre seus sonhos na postagem que fiz em outubro: “Meu sonho de infância”. Saiu uma historinha meio sem pé sem cabeça mas foi uma forma de resgatar o sonho de cada um.

Meu carinho procês.


Era uma cidade pequena com poucos habitantes e as tardes resumiam-se nas conversas no comércio local.

Gigi, a quitandeira, proseava com Denise, proprietária da fábrica de doces de leite, famoso produto da região.

O assunto na cidade era um só: a chegada da menina Lis, arqueóloga, que faria grandes escavações a procura de tesouros.

Doraci bailava ao som de Chiquititas enquanto Clara ensaiava para sua apresentação no teatrinho da cidade.

A Profa. Geórgia tentava acalmar Mimi que encontrava-se triste pois seus pais estavam sempre a brigar.

Viviam, a lavadeira, passa com sua trouxa na cabeça e anuncia que Max, o bombeiro, fraturou o braço na tentativa de salvar o gato da Zootécica, Anna Maria que sem saber de nada, encontrava-se no consultório da dentista Thaiz.

A jornaleira Andréa encarrega-se de levar a notícia para a proprietária do gato enquanto a enfermeira Vânia busca desesperadamente a médica Maria Thereza.

Professora Mônica, que estava de passagem pela cidade, percebendo a confusão que se instalara no pequeno vilarejo oferece sua ajuda e solicita a presença do piloto Sergio Affonso que chega com a aeromoça Ivone, resgata o ferido e a cidadezinha volta ao seu normal.


Eis os comentários.....


Andréa

Tive vários mas um deles foi ser jornaleira pois adorava revistinhas, figurinhas e bonequinhas de papel!


Anna Maria

Meus sonhos de criança: primeiro ser cientista e ajudar a muitos com as minhas descobertas. Depois ser zootecnista pela minha paixão incondicional aos animais.
Tornei-me professora... Ajudo que outros descubram o amor aos estudos e tenho em meus alunos, os "animais" humanos mais sublimes!


Clara

Meu sonho declarado de criança era ser CHIQUITITA.

Ah, que saudade. E graças a ele estou agora, assim, no caminho, com meu coração no teatro.

Agradeço muito por sonhar tanto.


Denise

O meu sonho era ser dona da fábrica de doces de leite que havia em frente a minha casa. rsrsr


Doraci

O meu sonho de menina era ser uma bailarina clássica. Na época nem usava o termo "clássica"... nem havia TV... e na minha cidadezinha não se ouvia falar em teatro... nada! O circo, sim, era a inspiração.

Com o rádio ligado... eu vivia nas pontas dos pés, jogava as pernas para o alto...

rodopiava...
Quanta felicidade!

Aí minha mãe chegava do quintal e dizia: "Ainda não acabou de limpar a casa?"

Mal sabia ela que eu ficara bailando... bailando...bailando...!


Geórgia

Eu queria ser professora e fui durante 15 anos, agora sou professora só dos filhos e do marido que fala muito bem o português.


Ivone

O meu sonho era ser aeromoça.


Lisete

Meu sonho era ser arqueóloga, escavar no Egito, em Roma, descobrir civilizações esquecidas...Ganhei uma coleção de livros sobre arqueologia. Como idéia, até hoje me apraz. A idade impede.

Outro sonho era ter uma escola e ser professora. ....com a paciência que (não) tenho, ia se chamar "Escolinha do tio Herodes"....


Maria Thereza

Se medica biocibernética....

É a parte da medicina que trata das partes biológicas trabalhando com as cibernéticas em conjunto. Favorecendo pessoas amputadas e outras mais. Moral da historia? Sabe quanto custa ser uma M. bioci...?

Pois é, a realidade foi bem outra e aí meu interesse por artes começou a aparecer....hoje sou tec. planejamento turístico( tudo a ver, né?) e designer gráfico e...web designer. Tudo a ver, não é!? Mas o principal? Sou feliz pra caramba com o que faço!!!! Amo meu trabalho.


Max

Meu grande sonho era ser bombeiro. Acredita que a minha avó fez um uniforme todo vermelho para eu brincar.

Uma vez cai de uma árvore fraturando o braço pois estava brincando de salvar um gato.


Mimi

Sonhava ver meus pais não brigando(tantooooooo) nunca mais...

Eita sonhinho que não deu prá realizar até hoje... Os dois velhinhos (85 e 84 anos) continuam brigando feito gato e cachorro!

E eu... Cadê que me acostumo....rs,rs,rs


Mônica

Meu grande sonho era ser Professora....e consegui realizá-lo com tanto sacrifício....Ah!!! Como é bom poder sonhar....


Sergio Affonso

Meu sonho de infância era pilotar avião da FAB... Na minha inocência eu achava que devia ser a coisa mais difícil do mundo... Consegui pilotar avião da FAB... Vi que era fácil e deixou de ser sonho... Estou até hoje à procura de novo sonho...


Thaiz

Nossa... quando eu era menos pequena..rsrs... sempre pensei eu ser dentista.

Achava engraçado, sempre ouvir que muitas pessoas tinham medo dos dentistas.


Vânia

Então meu sonho de criança era ser enfermeira,,hoje nem pensar tenho horror a hospital,,


Vivian

Estou aqui tendo crise de risos. Quitanda? Rural?

Pois eu em pequena vivia no interior de Minas e via aquelas senhoras lavadeiras passarem com trouxas na cabeça e queria crescer para fazer o mesmo.

Acho que é por isso que hoje passo longe do tanque.

Seria sonho ou pesadelo?







terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Memória afetiva....

Aos 9 anos já era independente. Comprava seus presentes sem a ajuda de adultos.

Presenteou-me com este caderninho no Dia das Mães.


Com direito a dedicatória:


Mãe,
hoje e sempre, onde quer que seja; vou estar com você lhe amando!
Esse livro vai te ajudar a criar sonhos e realidades a respeito da vida!
Um beijão de sua filha
Anna Clara
09-05-99


Obrigada filha, você foi o presente mais significativo que a vida me deu.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tremendo nos Nervos




O Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro convida para o desfile do Bloco “Tremendo nos Nervos”, a realizar-se no dia 03 de fevereiro de 2010, no horário de 14 às 18 horas, na Praça da Harmonia, Bairro da Saúde.


Esclarecemos que o CPRJ atende a população residente na região Ap.1 e Ap.3.1 na área de saúde mental.


A Unidade tem como objetivo coordenar a articulação entre a atenção à crise e assistência necessária ao processo de ressocialização da população atendida, de forma ágil, com atendimento humanizado, resolutivo e integrado aos demais serviços internos no CPRJ e aos da rede de atenção à saúde mental.


Buscamos com inovações deste serviço, romper barreiras, acolhendo estas pessoas de forma humanizada, compreendendo fundamentalmente o sentido do “cuidado”.


Inserimos novas equipes constituídas por Musicoterapeutas, Psicólogos, Arte-terapeutas, Terapeutas Ocupacionais, Recreadores, Dançarina, etc. que através de atividades nas oficinas modificam o ambiente e o sentido dado aquele momento, contribuindo mais uma vez na humanização de atenção à crise.


É no Hospital-Dia Harmonia que se desenvolve o projeto de atendimento a população com transtorno mental e que se encontra em situação de rua.


O uso de arte tem sido um dos traços fundamentais desse processo que vem se desenvolvendo nas oficinas de pintura, de artesanato, carnaval, de música, de teatro, de poesia, de culinária, de informática, restauração de móveis e estas sendo utilizadas de forma a permitir a expressão de todos os envolvidos no projeto do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro.


Dentro deste espírito criamos um trabalho onde o samba é o protagonista, organizamos o Bloco Tremendo dos Nervos que é formado por usuários, técnicos e familiares do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro.


A experiência surgiu no ano de 2005, como uma forma de expressão que proporcionasse um encontro entre os espaços da Instituição e o da comunidade ao redor, entre diversas experiências sócio-culturais, acolhendo as diferentes possibilidades de sentirem-se criativos e protagonistas de suas criações.


Trabalho fundamental na reabilitação psicossocial dos pacientes portadores de transtornos psiquiátricos.

Telma Rangel – Gerente de RH/ CPRJ –2332.5683

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Boa Esperança....


Foto minha


Ele nasceu numa cidade de nome bonito: Espera Feliz. Mas a vida inteira se perguntou: "como pode alguma espera ser feliz?". Não tinha dúvida de que essa história de esperar era uma coisa muito chata. E ele se sentia aflito. Até que um dia se cansou. Tomou uma atitude. E aí, sim, ele foi feliz - agora longe da espera. Mudou de cidade. Foi morar em Boa Esperança.

Pedro Antônio de Oliveira