terça-feira, 2 de março de 2010

Cabelo Bandido


Imagem: Google


A mulher que já nasceu escrava do cabelo bandido

Sou escrava dos meus cabelos desde que me entendo por gente. Ainda criança, pedia à babá que os enrolasse e depois ficava encantada com a minha própria imagem de cachinhos dourados refletida no espelho. Então veio a adolescência enfatizando a vaidade e, junto com ela, uma paixão escondida que nutria por um menino do ginásio. Em nome das duas, vaidade e paixão, passei a dormir todas as noites (ou a tentar fazê-lo) de rolos, mesmo que eles repuxassem meu couro cabeludo, que os grampos o espetassem como uma coroa de espinhos e que vovó dissesse que eu ia acabar careca.

Era uma verdadeira tortura que eu suportava contanto que os cabelos ficassem pra dentro, tipo ''pagem'', com uma única onda em cima do olho. Tudo por causa da moda e do menino do ginásio, que chegava de moto, nem te ligo pra mim... Então eu voltava pra casa e falava sozinha defronte ao espelho, em inglês, como nos filmes da Metro, imaginando o motoqueiro do colégio se declarar:

- I love you...

Depois, com os anos 60, vieram os Beatles. Fui vê-los no Teatro Olympia, em Paris, e esperá-los na porta de saída pra gritar de histeria, na chuva, no meio dos outros tietes. Daí em diante, os Beatles passaram a ditar a moda dos pensamentos, palavras e obras de todos os jovens do planeta. Aí começou o problema. Porque cabelos crespos naquela época era sinônimo de palavrão e alisá-los, pra mim, era muito mais difícil que encrespá-los. Então comecei a passá-los a ferro, ajoelhada no chão do quarto de empregada, em frente à tábua de passar roupa, com a mesma babá que um dia os havia ondulado, numa nova modalidade de tortura.

Depois fazia uma touca e colocava um pano por cima achatando-os para que não armassem. Repetia todas as semanas o mesmo ritual e chegávamos ao ponto, eu e minhas amigas, de enrolarmos os cabelos no escurinho do cinema e só soltá-los quando iam acender a luz. Um dia perdi uma paquera porque a luz acendeu enquanto eu tentava desprender o grampo do lenço que, por sua vez, tinha agarrado no brinco. Minha amiga gargalhava e eu escondia o rosto, apavorada, com medo de que o rapaz me visse daquele jeito. Até hoje ele deve achar que lhe dei o bolo, faltando à sessão das quatro.

Depois, mais tarde, quando já era atriz, fiz uma peça viajando pelo Nordeste e não saía do hotel refrigerado pros cabelos não encresparem, enrolando-se nas gotas da umidade local. O cabeleireiro do teatro perguntou se eu queria fazer a ''rodilha depois do mise-en-plis''. Levei um tempo até descobrir que rodilha era touca. E passei a temporada inteira de rodilha, dormindo de touca.

Lugar quente era um problema sério pra mim naquela época, a ponto de me recusar a passar os fins de semana na ilha particular do pai do meu namorado porque teria que mergulhar na água transparente e secá-los ao léu, o que faria com que meu namorado e o da minha amiga descobrissem que tínhamos cabelos crespos.

Então preferíamos Petrópolis, que era frio e tinha tomada e luz elétrica onde podíamos conectar o secador e nos sentir mais protegidas, embora chovesse a cântaros e os respingos e a umidade estragassem todo o nosso mise-en-plis.

Metade da minha vida e dos passeios maravilhosos, perdi, na época, por culpa dos Beatles e dos Rolling Stones, que vieram para nos libertar de muitos tabus, mas não o da forma ou fôrma obrigatória dos cabelos. Então veio a época hippie e resolvi adotar os cachos para, escrava da moda, não parecer careta. Mas me achava horrível! Gostava da bata indiana, da calça boca-de-sino, mas dos cabelos ondulados, forçava a barra pra tolerar.

Até que chegou a fase pós-moderna (graças a Deus!), quando cada um usa a moda que lhe fica melhor, do jeito que lhe der na telha, numa gama de escolhas que vai da década de 20 ao século 21. Escolhi ficar lisa de novo, voltei a enrolar o cabelo, a usar touca. Então fui fazer escova no cabeleireiro e ele perguntou se eu não preferia um alisamento japonês, definitivo. Disse que não. Detesto aquele horror espetado, de ponta seca feito Visconde de Sabugosa. E sobretudo qualquer coisa definitiva!

Então o cabeleireiro ajeitou o piercing do nariz, fez um trejeito contrariado e disse que pra cabelo ''bandido'' era o único jeito. Perguntei o que era cabelo bandido e ele respondeu mal-humorado:

- É aquele, madame, que quando não está preso, está armado.

Maria Lucia Dahl , JB, 23/04/2004



2 comentários:

Georgia disse...

Sensacional. O meu é cabelo bandido, vivo fazendo chapinha ou escova.

Boa semana

Bjao

Max disse...

Dei boas gargalhadas. Lembrei das minhas irmãs as voltas com as toucas nos cabelos. Acho que hoje nem se usa mais isso, ou estou enganado?