domingo, 31 de janeiro de 2010

O ritual do café


Estampa-se o sol em delicados raios
Sobre o mármore branco e liso da cozinha.


Suavemente me debruço e uma porta abro,
Recolho a chávena fina e o florido prato.


Ergo o meu braço e num voo livre,
No gesto de um armário desvendar,
Recolho o nobre pó de inebriante aroma.


Alongo a mão que a gaveta encontra,
E dela escolho, enfim, a colher mais bela,
Brilhante, pequena, com terno recorte.


Tudo coloco em ordem e harmonia:
O prato tranquilo e a expectante chávena,
Nesta, o torrado grão moído, de castanho intenso.


No açúcar rico, centro o meu cuidado,
A montanha branca transportando, pura,
Em bojuda prata que doce se inclina.


E luzem cristais em cascata linda!


Depois, a água borbulhante, quente,
A mistura inunda, dissolvendo-a
Em espirais de espuma que a colher adorna.


Café! Café! Precioso encanto!


Em dégagé devant te cumprimento,
Os meus braços lanço em acolhimento grato.


Da janela aberta me acerco então.


Tão bela é a vista que o Outono pinta no jardim!
Castanho da terra e verde das plantas unem-se
À água que brilha em bebedouro antigo.


Aspiro, feliz, da manhã tranquila, o seu odor
A quente café e à relva orvalhada.
Olho o céu e sorvo um gole, outro e outro.


E assim me quedo, por instantes longos.
Entre o prazer forte do café e a doçura da manhã
Mais um dia de vida se inicia!

Ilona Bastos



2 comentários:

Gisa disse...

Que delícia de ritual, e pensar que passei uma semana fazendo quase tudo que escreveu... ahhh saudade.

Boa semana pra ti Re.

Georgia disse...

Regina, delícia, em homenagem ao poema vou beber um café.

Bjao e uma linda semana prá você.