domingo, 22 de abril de 2012

O Alcoolismo – a doença da negação







Dois cafés e a conta....com Claudio Leite
Por Mario ventura, Revista O Globo 08 de Abril de 2012

Claudio Leite era o maior cirurgião infantil do país. Palavras do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho. Claudio perdeu a conta das vidas operou. Teve época em que parei, a mão tremia que salvou. Integrou as três maiores associações pediátricas do mundo. Criou uma técnica de entubação traqueal de recém-nascidos e desenvolveu cuidados pioneiros no pré e no pós-operatório. “Em uma época em que operar recém-nascidos e devolvê-los aos pais era praticamente um milagre, ele, com seus anestesistas e assistentes, resultados surpreendentes”, diz Rosa Célia, criadora do Pró-Criança Cardíaca. Por trás do sucesso, reconhecido no Brasil e no exterior, escondia-se uma doença que só a família sabia: alcoolismo. No dia 25, às 19h, ele lança rua na livraria Timbre o livro “Alcoolismo — doença da negação” (Editora Lacre). Aos 83 anos, mais de 20 como alcoólatra, Claudio está há 14 sóbrio, desde que entrou no Alcoólicos Anônimos (AA).
“Durante anos sofri e me destruí, destruí minha família, minha profissão e cheguei à solidão extrema e à completa desmoralização. Estou me expondo
muito com o livro, mas o benefício que ele pode trazer para quem é alcoólatra e ainda não se identificou com a doença compensa a quebra do anonimato.”

REVISTA O GLOBO: Como o senhor começou a beber?
CLAUDIO LEITE: Tomando um uisquinho à noite, para relaxar e descontrair. O alcoólatra se justifica: “Hoje trabalhei muito, mereço.” Bebia moderadamente. Mas o alcoolismo é uma doença de progressão lenta. Entre beber porque quer e porque precisa há um espaço muito grande de tempo. E há a negação. Dificilmente o alcoólatra admite que está bebendo demais. Passei anos bebendo sem controle e sem consciência dessa doença gravíssima, que mata mais do que o câncer e a Aids. O álcool é aceito pela sociedade, identificado à beleza e ao sucesso, mas há mais de 60 doenças secundárias associadas a ele.

Por que o senhor precisava beber?
Essa ideia de que você bebe porque tem um sofrimento muito grande é coisa do passado. Por séculos, o alcoólatra era aquele morador de rua, cheio de apelidos pejorativos, como pé de cana e pudim de cachaça. Acreditava-se que era vício, defeito de caráter, falta de força de vontade ou loucura. Mas é uma dependência química que afeta os componentes físico, mental e espiritual. Espiritualidade não é religiosidade, é uma força interna que nos mantém bem nós mesmos. E há uma herança genética. Eu tinha avô, tio, irmão, primo alcoólatras.

Como o senhor conciliava a medicina e o álcool?
 Procurava não beber na véspera de cirurgia. Meu amor pela Medicina era tão grande que suplantava a vontade de beber. Nunca entrei num centro cirúrgico bêbado. Um dia, com o  paciente já na mesa de cirurgia, liguei para meu assistente e disse que não tinha condições. Ele operou. Teve época em que parei, amão tremia muito, estava completamente doido. Em 1978, se tive um infarto. Não quis ficar internado, porque não poderia beber. Fui para casa e bebia uma - garrafa e meia de uísque por dia, infartado.

Como isso se refletia na sua família?
Nenhuma outra doença tem a capacidade de destruir a família como o alcoolismo. Minha mulher já quase não falava comigo. Há dez anos não dormíamos juntos, porque ela não agüentava meu bafo. A angústia e o sofrimento eram brutais. Eu tinha mania de arma, fiz tiro ao alvo. Um dia meu filho tirou tudo de casa, porque eu já estava com intenção de dar um tiro na cabeça. Diziam: “Claudio é mulherengo, adora mulher.” Não. Você adora a mulher que não fica dizendo: o “Não beba.” Por isso eu ia para motel e ficava dois, três dias com prostituta, para beber.

Como foi o processo de recuperação?
Minha família já tinha feito várias tentativas para - eu ir ao AA, mas eu, médico, agnóstico, orgulhoso e prepotente, me julgava acima de tudo. E o alcoólatra, nessa fase, tem um egocentrismo brutal, só pensa nele. Eu não queria entender  que é uma doença que nos faz iguais. No AA, você vê juiz ao lado de rapaz de 17 anos que roubou carro para o tráfico. Eu vivia trancado no quarto, sem tomar banho, bebendo vodca. Até que meu filho disse: “Papai, vou te dar uma última chance. Tome um banho e venha comigo.” Não sei por que obedeci. Era dia 11 de Um dia, com o novembro de 1997. Tinha 68 anos e estou sóbrio desde então. Tenho uma gratidão eterna pelo AA. Perdi muito tempo bebendo minha vida.

2 comentários:

Anônimo disse...

Olá,
Li seu comentário em outro blog sobre o lixo que a internet está se tornando, com a falta de respeito com os autores, onde qualquer um copia e enxerta textos sem a preocupação de citar a autoria correta. Gostei muito da sua lucidez ao abordar o assunto, por isso vim conhecer seu espaço.
Gostei do blog e parabenizo-a pela postagem de hoje.
Sensibilidade na escolha do tema, divulgação de um assunto tão sério e que está se alastrando em nossa juventude.
Abs.
Luciano Moura

Georgia disse...

Regina querida, vim matar as saudades.

Adorei este post. Que bom alguém do status de vida dele escreveu este livro para ajudar pessoas que assim como ele viveu, vivem este grande mal.

Um grande beijo