terça-feira, 16 de novembro de 2010

Botox na alma


Li que um grupo de alunos da Universidade Estadual de São Paulo organizou uma competição batizada de “rodeio das gordas”, cujo objetivo era o ataque às colegas obesas durante um evento esportivo com cerca de 15 mil universitários.
Os nossos futuros profissionais se organizaram através de uma comunidade do Orkut com regras pré-estabelecidas para o ataque: o “peão” se aproximaria das mais gordas e as agarraria como nas arenas. Em competições futuras, essas performances seriam premiadas: aquele que ficasse mais tempo em cima das meninas ganharia uma caneca e um abadá.
Uso muito uma frase do Padre Zezinho quando participo de encontros com pais: “Há muitos jovens vazios, porque há poucos adultos transbordando.”.
Que formação tiveram esses universitários nas suas famílias? Estamos falando de uma elite que freqüenta uma Universidade Estadual - já que sabemos que pobre vai mesmo para as particulares. 

Estar acima do peso padrão estabelecido pela sociedade de “normais” não é politicamente correto.
Leio, hoje, que o Conselho do MEC quer censurar Monteiro Lobato. Segundo a coordenadora de ações afirmativas da UFMG, o livro “Caçadas de Pedrinho” é preconceituoso com Tia Nastácia. Um historiador afirma que a recomendação para não distribuir “Caçadas de Pedrinho” é fruto de uma interpretação politicamente correta.
Ora, todos nós sabemos que Lobato reproduzia uma sociedade da época, onde empregados eram negros e que expressões usadas naquele período eram de uso corriqueiro na sociedade.

O que é então o politicamente correto?
A caça às gordas?
Os dólares na cueca?
Um deputado federal eleito (que deverá elaborar leis e fiscalizar atos do Poder Executivo) pedir “auxílio” a mulher para redigir um texto para provar que sabe escrever?
Será que esse mesmo conselho foi que indicou o filme “Lula, o filho do Brasil” para concorrer ao Oscar como filme estrangeiro?
Millôr Fernandes é que tem razão quando afirma com seu constante bom humor: “Tanta plástica no rosto, no seio, na bunda e ninguém aí pra inventar uma plástica no caráter”.
É disso que nossa sociedade precisa: botox na alma.
Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 30/10/2010
Código do texto: T2587803

3 comentários:

Beta disse...

É querida.
Percebeu como os valores mais importantes da vida estão se transformando, deixando de existir ou modificando de forma?

Como pode isso? Por que deixamos isso acontecer? Não entendo...

bj

Sue disse...

Oi... vim visitar, li alguns posts e gostei muito!
Essa questão das 'gordas' nem merece comentário, né? vc já disse tudo. Parabéns!
(ah, sim, em defesa da classe, pra deixar o assunto leve: nós, gordinhas, temos onde pegar... rs...)
Gostei daqui e vou te seguir, posso?!
Beijo carinhoso!

Beta disse...

Engraçado, todos dizem que meu rosto continua o mesmo... eu nao consigo ver isso...rs

bj