quinta-feira, 30 de julho de 2009

Tenho pedras no bolso

Tenho pedras no bolso.

Muitas pedras no bolso.

Troco duas pedras por uma máquina de pensar.

Quando penso dói-me a cabeça.

Daí as pedras.

Tenho 5 pedras porque penso mal 5 vezes.

Tenho 5 pedras nos bolsos.



Quero viajar

Mas para viajar é necessário ser leve.

As pedras são pesadas.

Não consigo viajar com tantas pedras.

Tenho tantas pedras dentro da cabeça, dentro do crânio.

Total: 5.

Daí o meu peso.

Impossível viajar com tanto peso.


Quero comprar um máquina que pense por mim.

Tenho o livro de um filósofo.

Tenho 2 livros de um filósofo.

Um livro é uma máquina que pensa por mim

e é uma máquina barata.

Mas eu não quero que pensem por mim sempre

da mesma maneira.

O mesmo livro pensa sempre da mesma maneira.

Se eu fechar o livro, calo-me, e as pedras pesam-me

mais no crânio.

Se eu abrir o livro começo a falar, mas digo sempre

a mesma coisa.


Alguém me disse que um livro de poesia é diferente.

É uma máquina muito mais rápida.

A cada vez que passa, passa de outra maneira.

Deve ter pés estranhos.

Pés adaptáveis à terra

Ou então capazes de a dominar.

De resto nunca li um livro de poesia.

Sou demasiado homem para isso.

Sou demasiado contemporâneo: trabalho muito.
Ler poesia para quê?

Eu trabalho muito, sou contemporâneo. Ler poesia para quê?


Gonçalo M. Tavares, In O Homem ou é tonto ou é mulher

2 comentários:

Lisete de Silvio disse...

Ésse é uma verdadeira contemplação da paisagem humana que vemos, não?


beijosssssssssss

Anônimo disse...

NOOOSSA!!! Acabei de ver uma peça chamada Pedras no Bolso, e, agora, por aqui, virtuando um pouco, me deparo com essa poesia que adorei. Eu tb tenho mts pedras no bolso e no caminho. Aliás, uma das pedras que existem no meu caminho, é justo esse contexto de pedras nos bolsos.E haja poesia pra tantas pedras.(ro_)