domingo, 8 de junho de 2008

Versão lupina da história de Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez um lobo muito inteligente e irrequieto, que vivia com seus pais na floresta. Sua mãe já havia avisado muitas vezes que não saísse da cova antes do cair da noite, para não esbarrar com algum ser humano que poderia machucá-lo.

Mas, o lobinho, embora fosse muito esperto, era também muito desobediente e, sobretudo, adorava o perfume das flores, a sombra fresca que os ramos das árvores projetavam ao meio-dia e o canto dos azulões. Tão logo a mamãe loba sentava para assistir ao telejornal da manhã, e aproveitando que o papai lobo se encontrava na administração da mina de esmeraldas, o lobinho saía sorrateiramente da cova.

Uma manhã, quando caminhava por uma careira da floresta, deu de cara com um exemplar da temida espécie humana. Cheio de pânico, esperou o disparo com os olhos fechados, porém logo percebeu que aquela menina vestida de vermelho não lhe faria nenhum mal, pois se limitava a observá-lo com curiosidade. O lobinho começou a conversar com ela e, após um tempinho, a menina, por pura ingenuidade, confessou-lhe que estava indo para a casa de sua avó com docinhos envenenados, porque a velha tinha deserdado os pais dela, e queria saber qual era o caminho mais curto.

Em vez de voltar para casa, como seria prudente, o lobinho preferiu indicar o caminho mais comprido para a Chapeuzinho, enquanto ele pegava um atalho mais curto, para avisar a velhinha. É que o lobinho tinha o coração tão grande quanto a boca.

Lobinho chegou antes da impiedosa netinha à casa da avó, e nem bem havia informado a senhora sobre o atentado que Chapeuzinho pretendia realizar, quando ouviram a menina bater na porta. Assustada, a avó quis se esconder em algum canto escuro; não encontrando nada mais escuro do que a boca do lobo, escorregou sem vacilar pela goela do lobinho e se refugiou em seu estômago. Nós já havíamos dito que o lobinho tinha uma boca muito grande. Em seguida, ele vestiu uma touca que era da vovó antes que Chapeuzinho entrasse.

Chapeuzinho aproximou-se do lobo disfarçado de vovozinha e bem depressa começou a desconfiar. "Que orelhas tão grandes você tem!" comentou. "São para lhe ouvir melhor", respondeu o lobo. "E que mãos tão grandes você tem!", acrescentou a garota. "São para lhe acariciar melhor", disfarçou o lobinho. "E que boca tão grande você tem!", observou Chapeuzinho.

Quando o lobo estava para responder, a menina conseguiu ver no fundo de sua garganta os olhos apavorados da vovozinha e, perdendo toda a compostura, pegou um dos docinhos envenenados e atirou-se em busca da anciã pela bocarra aberta do pobre lobinho.

Nesse mesmo instante, passava por ali um temível caçador, que, ao escutar o alvoroço, invadiu a casa e, assim que viu o lobinho, o cruel e sanguinário personagem arremessou-se contra ele armado com uma faca e o matou com o objetivo de utilizar sua pele para fazer um tapete de beira de cama. Para sua surpresa, da barriga do lobinho assassinado pularam a avó e Chapeuzinho, as quais, para proteger a imagem da família, calaram-se sobre a verdadeira história.

Naquela noite, mamãe loba e papai lobo esperaram inutilmente o regresso do lobinho. E continuam ainda a aguardá-lo, com um fiozinho de esperança, porque não conseguem captar toda a profunda crueldade do coração humano. O que fizeram, simplesmente, foi registrar o filho como filhote desaparecido.

Daniel Samper Pizano

Refletindo:

Quando se fala da verdade, existe uma tendência a tornar única a nossa concepção da verdade, atribuindo-lhe unicidade e caráter absoluto. Por isso, quando eu acredito possuir a verdade, estou fazendo ou estabelecendo uma dicotomia segundo a qual, se o outro não pensar como eu, estará equivocado ou em erro. Temos aqui, então, uma reflexão que nos convida a ser mais respeitosos com o ponto de vista dos outros, a não falar em "verdade absoluta", e sim sobre a verdade de cada um, em respeito às demais que certamente existem por aí.

2 comentários:

JL Santos disse...

Amei Rainha, muito útil essa reflexão sobre a verdade, lida nessa hora insone da madrugada.
Outro dia, aceitando uma provocação da Lis, escrevi o seguinte:
"Descobri, que não tenho mais convicções,
apenas, seguindo na vida, escalando degraus,
que uma vez atingidos, logo me empurram
para o seguinte, sempre abandonando o pensar antigo,
em prol do novo; dessa nova e temporária
face da mutante e progressiva verdade."

Boa madrugada amiga querida.

Pedro disse...

Gostaria de saber qual a temática dessa versão de Chapeuzinho Vermelho?