sábado, 14 de julho de 2012

A Lelé da Cuca e Juarez Machado



Nos anos 70 a Lelé da Cuca, em Copacabana, era a boutique da moda e muitas vezes passei por lá para admirar as pinturas de Juarez Machado e as roupas “transadas” da época, embora nunca tenha podido comprar qualquer peça, pois os preços eram muito acima das minhas possibilidades financeiras. Mais tarde mudou-se para Ipanema.
Em 2006 quando da formatura da minha filha no Ensino Médio compramos o seu vestido lá, um clássico, usado há alguns meses em um casamento. Aquela roupa que nunca sai de moda, atemporal.
A sacola de papel desenhada por ninguém menos que Juarez Machado que guardei para transformá-la em um quadro.
Hoje achamos esse postal em nossos guardados e com saudade fui pesquisar a relação da Lelé da Cuca com a obra de Juarez Machado.
Eis seu relato:

“Em 1969, junto com o arquiteto e pintor Roberto Bastos Cruz, fazíamos a decoração da primeira moderna boutique do Rio de Janeiro, ou do Brasil, chamada Lelé da Cuca.
Lá não havia balcão e muito menos balconista. As roupas eram expostas em araras. A cliente se servia, escolhia o modelo, experimentava a roupa numa cabine, passava no caixa e ia embora. Na época, este era um conceito novo de comércio de roupas femininas.

Atualmente, a maioria das lojas no mundo funciona assim. Na Lelé da Cuca fizemos o seguinte: nas paredes e no teto, para não interferir com as cores das roupas, pintamos em preto e branco histórias em quadrinhos.
A loja ficava na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no famoso bairro de Copacabana. Todos os dias, no final da tarde, eu saía da Praça General Osório, em Ipanema, reduto boêmio e intelectual, onde trabalhava como desenhista na renomada Oca, casa de arquitetura de interiores de Sérgio Rodrigues, e ia, de ônibus, para Copacabana, onde ficava até de madrugada pintando os intermináveis desenhos da Lelé da Cuca.

Esse era um momento difícil na minha vida. Muito trabalho, filhos pequenos, pouco dinheiro e dívidas mensais. Meu único pequeno prazer era, todo dia, descer do ônibus dois pontos antes da loja e entrar numa enorme livraria. Ficava por lá uma meia hora folheando os belos livros de capa dura antes de seguir até a obra que se arrastava por meses. A proprietária já estava furiosa, pois tinha pago adiantado. Eu estava à beira de um colapso, tentando manter a calma e, por isso, aumentava o ritmo de trabalho como uma terapia entorpecedora.

Numa noite, caí na cama exausto, com dores nas costas em função da posição em que ficava para fazer os desenhos do teto, com os olhos ardendo e completamente enjoado pelo forte odor dos solventes. Foi então que tive um sonho longo, claro, com começo, meio e fim, tudo muito real e bem definido.

Sonhava que descia do ônibus no mesmo lugar, entrava na livraria e folheava os livros de sempre. Numa estante havia um livro estranho, com a capa completamente em branco, sem título, autor ou editora, sem nenhum texto. Comecei a folhear página por página, e percebi que os desenhos foram feitos por mim e que contavam uma pequena e bem humorada história de um personagem que tenta sair dos limites de um quadrado.

Tomo consciência que estou dentro do meu próprio pesadelo e, sabendo que estou sonhando, começo a rever o livro e a decorar cada página para, quando acordasse, tomar nota das idéias e fazer o livro que tinha visto pronto em meu sonho.

Foi o que aconteceu. Duas semanas mais tarde todos os desenhos estavam prontos e o projeto era o de transformá-lo num desenho animado para o cinema. Seria perfeito, mas como não encontrei patrocínio nem parceiros, os desenhos voltaram para a gaveta.

Meses depois mostrei o projeto para um amigo, o escritor Leon Eliachar, para quem eu tinha acabado de fazer a capa de seu último livro " A mulher em flagrante". Ele se entusiasmou muito e me levou para a Editora Francisco Alves. Em 1970, “Limite” foi editado com sucesso de crítica e vendas, incluindo projetos internacionais, já que o livro não carecia de tradução.

Mudou a direção da editora, foi criada uma nova filosofia de trabalho, foram feitas contenções de despesas, e tudo foi arquivado e empoeirado pelo tempo.

Trinta anos depois, graças à AGIR Editora e à amizade de José de Paula Machado, conto de novo esta velha história vivida por mim e que é universal pois Limite fala da angústia de todos nós, de sermos prisioneiros de nossos próprios limites.

Em tempo: uma semana após o sonho, terminamos as pinturas da loja que veio a ser a boutique da moda nos anos 70/80. Mais tarde ela foi vendida e pintaram sobre os nossos desenhos. Nada foi preservado – hoje aqueles desenhos dariam uma bela história e um novo livro."

Juarez Machado ao lançar  “Limite”, livro sem texto que aborda a angústia de todos nós, de sermos prisioneiros de nossos próprios limites.

Fonte: Ediouro

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