quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Chamei, e a árvore entrou pela janela

Hoje, nada de guerra. Melhor falar de vida. De uma impressionante demonstração de amor que recebi de uma árvore. Isso mesmo, de uma árvore que fica em frente à minha casa e que, de tão amada que é por mim, está entrando pela minha janela para que eu possa acariciá-la. Não, leitor, não tomei chá de cogumelo nem LSD.


Na rua em que eu moro há várias árvores da mesma espécie, todas antigas e altas. Num belo dia, comecei a reparar naquela que fica em frente à minha casa. É incrível como não reparamos nas coisas mais lindas à nossa volta. Só temos olhos para canos de descarga, mendigos, buracos; só ouvimos buzinas, maledicências, tiros. Estamos cegos para as flores, o sol, a lua e as estrelas; surdos para o canto dos pássaros, para as lições de vida que nos pode dar qualquer criança.


Sem mais nem menos, comecei a prestar atenção naquela árvore, nos tons das folhas, no tronco maciço, no balançar dos galhos ao vento, no seu brilho sob o sol e na sua alegria muda ao se reavivar com a chuva. Um dia, tomei coragem e passei a elogia-la, dizer-lhe o quanto me faz bem e como gosto dela.


Aqui, é preciso abrir um parêntese. Há alguns anos, uma amiga me deu um livro chamado A profecia celestina. Não tive saco para chegar ao final, confesso, mas uma experiência relatada nele me impressionou muito. Aconteceu numa universidade holística, no Peru – em Lima, se não me engano. Fizeram o seguinte: pegaram um determinado número de sementes da mesma espécie, do mesmo tamanho, mesma safra. Construíram duas estufas exatamente iguais e independentes e plantaram metade dos grãozinhos em cada uma delas. Um dos espaços, ficava sempre vazio, ninguém ia lá. No outro, os cientistas da universidade envolvidos no estudo apareciam todos os dias para contemplar o desenvolvimento das plantas. E, mais do que isso, direcionavam a elas palavras de carinho, diziam-lhes que eram admiradas e queridas. Resultado: mesmo recebendo as mesmas quantidades de chuva, sol e nutrientes, as plantas que receberam atenção humana atingiram o dobro do tamanho das solitárias.


Agora volto à minha árvore de estimação para contar que ela é a mais frondosa entre todas as outras da rua. De vez em quando, eu desço e lhe faço um carinho – claro, depois de me certificar que não há nenhum idiota da objetividade olhando. Quando meu vizinho passou a motosserra nas duas irmãs dela, me apressei em certificá-la de que jamais faria aquilo com ela. Disse para que ficasse tranquila e que o máximo que poderia acontecer era o caminhão da prefeitura aparecer para podar seus galhos.


Mas, antes da poda incerta, eu tinha uma esperança. E, da janela – moro no terceiro andar – esticava a mão e chamava minha amiga para que viesse até mim e eu pudesse tocá-la. E não é que ela veio? Um dos seus galhos começou, dia a dia, a crescer na direção exata da minha janela. Contrariando o fototropismo, que faz os vegetais procurarem a luz, ela seguiu seus sentimentos e rumou para dentro do meu apartamento. Sua progressão foi tão incisiva, certeira e inédita que eu tive a certeza de que todas as plantas podem sentir nossa vibração e até mesmo entender quando lhes dizemos coisas boas. Da mesma forma, ficam tristes com nossa indiferença.


Na semana passada, esticando o braço na janela, pude, enfim, tocar suas pequenas folhas, acariciá-las, sentir aquela textura macia e levemente porosa, de uma leveza, uma delicadeza que contrasta com todo o peso da vida atribulada que levamos nas grandes cidades. Bombardeados por informação, competição, ansiedades e apreensões, não nos sobra tempo para prestar atenção nas coisas mais simples, que são também as mais fantásticas.


Marcelo Migliaccio

http://www.jblog.com.br/rioacima.php?itemid=16786

2 comentários:

vivian disse...

Cartola disse que as rosas não falam mas o Marcelo nos mostrou que as árvores escutam.

Doraci disse...

Já presenciei violeta florir respondendo a nossa expectativa "vamos, cadê as suas filhinhas?"; já ví pássaros nascendo em ninhos feito na janela do meu quarto..., e agora, lendo o Marcelo, estou pensando no verde da sacada... está tão bonito, eu sempre quis e não conseguia devido o sol quente da tarde que bate ali... mas agora está lindo! Advinhou o meu desejo e agora a sala é mais arejada, mais protegida pela sombra que todo o verde me oferece...e que permite o abrir das flores nunca conseguida ali...
Parabéns, Marcelo pela sua vida! Parabéns Regina pela sua sensibilidade e publicar coisas tão lindas!
beijos