terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ponto Nevrálgico

Foto: Minha

Às cinco horas da tarde
sobe-se e desce-se o Chiado
bebe-se chá no Chiado
bebe-se o ar do Chiado
come-se nas montras do Chiado
conversa-se no Chiado
conversa-se do Chiado
literatura-se no Chiado
figura-se no Chiado
Chiada-se.

Mendes de Carvalho

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ele era uma criança de apenas 10 anos...


Ele era uma criança de apenas 10 anos...
Estamos todos estarrecidos com a tragédia ocorrida em São Caetano do Sul com uma criança de 10 anos.
Precisamos estar atentos aos sinais que são emitidos por crianças, jovens, adultos no decorrer de sua existência. Sinais são dados.  Pais, familiares, professores devem educar seu olhar para perceber o que está por trás de determinados comportamentos do outro a nossa volta.
Percebo pais que só atendem aos sinais de compras: filho pede para ir ao shopping para o mais novo lançamento de determinado brinquedo; pais imediatamente vão às compras. Exibir a mais nova fantasia de herói, o mais novo celular, o iPod atualizado e outras geringonças eletrônicas estão na lista de prioridades.
E o olhar generoso sobre sentimentos do filho, por onde anda?
Não estou emitindo nenhum juízo de valores sobre o acontecido, não conheço a história de vida do menino nem as condições em que vivia. Porém, surge a necessidade de um olhar reflexivo de como estamos educando nossos filhos. Qual a qualidade de tempo que estamos dispensando para suas necessidades emocionais?
Reflexão pertinente ao momento que vivemos em que o TER substitui o SER na maioria dos casos.
Conversar com o filho, procurar entender suas dificuldades, acariciar, aconchegar nos momentos de tristeza e saber dizer não na hora certa são formas de amar.
Repensar valores, jogar fora os lixos existenciais que carregamos, re-começar pode ser um caminho para um futuro mais saudável para nossas crianças.

Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 23/09/2011
Código do texto: T3236453

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Carta para o Caio


Querido Caio,
Hoje é seu aniversário.
De repente, senti uma vontade imensa de escrever pra você.
Tenho o maior orgulho de ser sua contemporânea. Quando li “Limite branco” e “O ovo apunhalado”, ainda adolescente, confesso que não entendi muito bem - estava na fase romântica, sua ironia em alguns trechos não foram bem captadas por mim. Mas algo ficou no ar. A vontade de ler posteriormente com mais tempo e disposição (acredito que nascia, ainda que inconsciente, uma vontade de o conhecer melhor).
Mais madura, percebi outro Caio, diferente daquele que minha percepção foi capaz de absorver inicialmente.
Desde então li tudo que você escreveu: tenho na minha estante o “Cantinho do Caio”, logo abaixo do “Cantinho do Pessoa” - os outros autores estão juntos e misturados.
No exercício do magistério, incentivei muitos jovens a ler a  sua obra, embora não seja professora de Literatura, acredito que os significados psicológicos que sua escrita contém são caminhos indispensáveis para ajudar no olhar para o outro.
Em 2009, quando do lançamento do livro da Paula Dip, estava de viagem marcada para Portugal. Sem poder esperar para ler “Para sempre teu, Caio F.", dei uma escapa na Livraria da Travessa, a única onde o poderia comprar num domingo de manhã.
Não senti as horas de viagem. A leitura de suas cartas me fizeram viajar para outro mundo: o das pessoas sensíveis, delicadas, gentis, irônicas, que estão sempre prontas para o outro e abertas para o amor. Assim é (era?) você.
Você afirmou: “Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que escrevi”. Hoje há uma geração que nem era nascida quando você começou a escrever e que lhe venera; trechos de sua obra nas redes sociais, nos blogs, nas dedicatórias e por ai afora.
Se você ainda estivesse entre nós sofreria muito com tanta violência, corrupção, hipocrisia, injustiças, discriminações. Talvez, sua sensibilidade o levaria para outro caminho da escrita: o das denúncias.
Não sei.
Como você, "Ando bem, mas um pouco aos trancos. Como costumo dizer, um dia de salto 7, outro de sandália havaiana".
Com todos os tropeços, continuo seguindo a sua máxima: “Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele...Guardei a minha no bolso. E fui.”
Fique bem.
"Vai um cheirinho de alecrim e muito carinho",
Regina Coeli Carvalho

“Tenho pena das pessoas que não escrevem cartas.”
“A gente não deve permitir que as cartas se tornem obsoletas, mesmo que, talvez, já tenham se tornado.”
Caio Fernando Abreu

Dedico essa homenagem ao Paulo César, meu ex-aluno, filho do coração, que de Berlim me envia cartas. Quando o presenteei com "Para sempre teu". Caio F., livro da Paula Dib, publicação das cartas trocadas entre eles, meu lindinho falou: "Vamos guardar nossas cartas, quem sabe publicaremos um livro." Estou em débito, ele escreve mais do que eu.

Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 12/09/2011
Código do texto: T3216079

sábado, 27 de agosto de 2011

Cleyde Prado Maia


Amiga,
Onde quer que você esteja receba minha saudade.

À Doutora dos Afetos

 Imagem daqui:

Hoje, dia do psicólogo, deixo minha eterna gratidão a Dra. Nise da Silveira, psiquiatra que olhava o ser humano antes de enxergar a doença.
Através de meu pequeno contato como estagiária, de sua obra, da leitura e releitura constante de suas lições de vida cresci como pessoa e profissional.
Compartilho com vocês uma das passagens de sua vida narradas no livro Nise: arqueóloga dos mares por Bernardo Carneiro Horta.

Aos 90 anos, foi coroada com cocar de cacique. Um xavante convidou-a para ser sua mãe

Idosa, Nise se comovia cada vez mais com suas histórias - não somente as antigas, mas também as daquela ocasião.

"Ontem, me aconteceu uma coisa: dois índios vieram me visitar. Fato curioso... Nós conversamos, almoçamos e tudo foi muito agradável. No dia seguinte, um deles foi embora. Mas, para minha surpresa, o outro retornou e me disse: 'Sonhei com minha avó e ela pediu para que eu voltasse aqui e convidasse a senhora para ser mãe xavante - minha mãe...' Nem é preciso dizer que fiquei impressionadíssima com tal convite!", contou a Dra.

Este índio se chama José Luís Tsereté. É cacique xavante e foi apresentado à Nise pela antropóloga May Waddington, amiga e participante do Grupo de Estudos C.G.Jung. O fato emocionou a psiquiatra, pois aquele índio de 45 anos de idade tocara num ponto especial: a maternidade. A Dra. não teve filhos... Como se não bastasse, o convite, por sincronicidade, lhe chegou no dia das mães. Então, o xavante já adulto, perante a anciã, perguntou em tom oficial: "A senhora aceita ser minha mãe?" Ela se comoveu. Aos noventa anos, era a primeira vez que alguém a chamava, tão diretamente, de mãe.

De pé, vestido de calças jeans, camiseta e cocar, José Luís esperava atentamente pela resposta. A mulher lhe disse: "Sim. Eu aceito. Mas quero saber quais são as obrigações de uma mãe xavante." Ele revelou: "Estar ao lado de uma pessoa que sofre, que está doente. Estar ao lado de um animal que sofre, que está doente. Amar, ajudar, curar."

"Ao fim da visita, o cacique me convidou para jantar numa estrela. Achei aquilo uma coisa linda...", comentou Nise. Tomaram-se amigos.
Sempre que vinha de sua tribo para o Rio de Janeiro, ele a visitava. Outro momento importante, na amizade da dama do inconsciente e de José Luís, foi quando o índio a presenteou com um cocar grande e vistoso, multicolorido. Na ocasião, o filho decidiu que ela não seria somente sua mãe, mas sim mãe da natureza. Ao receber o presente, deu-se uma cena desconcertante: o xavante, solenemente, colocou o cocar na cabeça da notável anciã, que disse sentir-se coroada. A Dra. conta: "Então, ele me explicou que a pena maior, a azul, representa o céu, pela cor e pela autoridade. Outra coisa: aquela que é mãe da natureza é também cacique. Sendo assim, eu fui graduada: agora, sou cacica da natureza..."

No final da visita, a senhora das imagens surpreendeu o filho adotivo: pediu asilo existencial ao povo xavante. Comentou que não sentia mais vontade de estar na civilização. Estava cada vez mais apegada aos animais. Desejava ir para a floresta... Ela prossegue: "Eu lhe confessei que estou cansada do mundo dos brancos. Aí, pedi: 'Me leve com você para a floresta dos Índios...’ O cacique me respondeu que gostaria de me levar, mas isso não é possível. Explicou-me que eu não agüentaria a viagem. É muito desgastante. Depois de ir até Brasília, de avião, é preciso pegar um outro avião e, chegando lá, tem muito chão pela frente - a estrada é de terra... Sim, eu entendi. Nasci neste mundo, e devo morrer aqui. Ontem, o José Luís voltou para a sua tribo."

Tempos depois do episódio, Nise fez um mea culpa diante dos membros do Grupo de Estudos, citando o xavante. Após chegar visivelmente abalada, na biblioteca, interrompeu a leitura e disparou:
"Peguem a ata da reunião de hoje e escrevam o que vou dizer agora: quando aceitei ser mãe xavante, o cacique José Luís repetiu que minha função é proteger todos os bichos, os vegetais e as criaturas. Eu aceitei. Pois bem: digam a ele que cometi um erro terrível. Falhei na minha função de ser mãe... Contem ao xavante o que aconteceu aqui. Faz algum tempo, um de meus gatos passou mal, adoeceu. Então, chamei o veterinário e dei pessoalmente o remédio pra ele. Às duas da madrugada, fraquejei e tive a impressão de que era um caso perdido. Desci para
o meu quarto, a pedido das acompanhantes - foi uma falha fatal da mãe xavante. O gato amanheceu morto. Agora, eu estou sofrendo com isso - sofro por ter abandonado o gato naquela madrugada. Sofro pela minha falha como mãe. Me arrependo e declaro a todos vocês. Isto é uma confissão pública. Escreveram tudo o que eu disse? Passe a ata pra cá - vou assinar embaixo."

Horta, Bernardo Carneiro in: Nise: arqueóloga dos mares

Veja também: Dia do Psicólogo

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O Poeta e o Juiz

Em Cachoeiro de Itapemirim (ES) o povo ergueu na praça principal o busto de um poeta. E esculpiu nesse busto versos do poeta. O poeta chama-se Newton Braga, tão universal e humano quanto seu irmão, o cronista Rubem Braga, embora menos conhecido do que este porque escolheu residir na sua terra natal.

O primeiro aspecto a realçar é que a homenagem máxima da cidade foi fruto de uma subscrição popular. Centenas de pessoas assinaram a lista de doações tendo havido contribuições minúsculas, algumas destas sumamente expressivas porque os signatários colocaram toda a força da alma ao assinar. Destaque-se ainda que não se tributava honra a um homem de poder, como é bem mais comum ocorrer.

Os versos esculpidos no granito são os versos finais do poema “Fraternidade”:

 Esta sensibilidade, que é uma antena delicadíssima,
 captando pedaços de todas as dores do mundo,
 e que me fará morrer de dores que não são minhas.

Vejo uma identidade entre o juiz e o poeta. O juiz também morre de dores que não são suas. Deve ser capaz de viver o drama dos processos, descer às pessoas que julga, incorporar na alma a fome de Justiça do povo a que serve.

O juiz haverá de ser um misto de juiz e poeta, não com o sentido pejorativo que se desse a essa fusão. Mas com o verdadeiro sentido que há em ver como atributos da Justiça a construção da Beleza, obra do artista, e a construção do Bem, obra do homem que procura trilhar o caminho da virtude.
  
Diverso e oposto desse paradigma de juiz seria o juiz distante, distante e equidistante, cuja pena se torna para ele um peso, não por sentir as dores que não suas, mas pelo enfado de julgar, pela carência do idealismo e da paixão que tornariam seu ofício uma aventura digna da dedicação de uma existência.
  
A lei como instrumento de limitação do poder é um avanço da cultura humana, caracteriza o Estado de Direito.

Mas a tábua de valores de um povo não está apenas na lei. Está sobretudo no estofo moral dos aplicadores da lei. Não há arquitetura política, sistema de freios do poder, concepção de instâncias superpostas a permitir a utilização de recursos, não há enfim engenharia processual que assegure a um povo tranquilidade e Justiça se os juízes forem corruptos, preguiçosos, egoístas, estreitos, sem abertura para o social, ciosos apenas de suas vaidades.

O juiz-poeta será aberto ao universal porque a Poesia descortina os horizontes do mundo e rompe com as estreitezas.
  
Aberto ao universal, terá do Direito uma visão sistêmica, percebendo a relação do Direito com os outros saberes humanos. Portador de cultura ampla, impulsionado pela Poesia a ver sempre além, terá consciência de seu papel social, mediador de culturas num Brasil plural.
  
O juiz-poeta cultivará o estudo, o trabalho intelectual, os livros. Seguirá o conselho de Olavo Bilac: “Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve! No aconchego do claustro, na paciência e no sossego, trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

O juiz-poeta não se fechará no estreito mundo do jurídico e menos ainda no estreito mundo de códigos e leis interpretados literalmente. Abrirá as janelas para enxergar toda a complexidade dos problemas humanos, pensará sempre nas consequências sociais de suas decisões. Nunca lavará as mãos, como Pilatos, jogando sobre o legislador a culpa por sentenças que, a seu próprio critério, sejam profundamente injustas, sem o esforço de buscar caminhos de interpretação para que prevaleçam, nos julgados, os valores éticos que a própria Constituição Federal coloca como parâmetros da organização social brasileira, como muito bem analisou em livro o jurista gaúcho Juarez Freitas.
  
Um juiz e uma Justiça que participem do esforço de superação das injustiças estruturais, isto é o que se espera como programa de ação de um Judiciário sensível e vigilante. Em síntese: juízes-poetas que se desdobrem para fazer da Justiça uma obra de Poesia e de Grandeza.



HERKENHOFF, João Baptista. O poeta e o juiz. Disponível em http://www.lfg.com.br - 01 de dezembro de 2010.

*Os grifos são meus.

Dedicado à Juíza Paula Fernandes Machado de Freitas


domingo, 14 de agosto de 2011

Da caixinha dos afetos...

Papai partiu há 35 anos e durante esses anos seu relógio esteve guardado na caixinha dos afetos. Tinha o vidro quebrado: sua máquina parou com o tempo ou terá sido pela falta do dono?
Vezenquando olhava para ele e pensava que um dia encontraria alguém para o consertar.
Há 15 dias o entreguei a um relojoeiro com a recomendação de que fosse muito cuidadoso ao manuseá-lo.
Ontem, quando fui buscá-lo, não parava de o admirar.
Ouvir o som dos ponteiros foi como ouvir o coração de papai palpitando.
Emoção indescritível!
12-07-2011

Regina Coeli Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 13/07/2011
Código do texto: T3092229

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

1 ano sem Joanna Marcenal


Sua presença é muito importante!
Será na véspera do dia dos pais, dia que nos traz recordações de nossa infância, do carinho recebido e não podemos ficar imune ao sofrimento dessa criança vítima de maus tratos da madrasta e de seu pai biológico, que se encontram livres e debochando daqueles que clamam por justiça.
Saiba mais sobreo caso e assine a petição públuca clicando nos links abaixo.







domingo, 31 de julho de 2011

Táxi em Movimento


Imagem: Google

Táxi em Movimento

Há um Táxi sempre em Movimento.
Trafega em excesso de velocidade:
nas notícias!
Viaja com carga em excesso:
Não de passageiros, mas de indignações!
Transborda pelas portas e janelas:
a solidariedade!
Corre na contramão atropelando
os corruptos!
Os demais veículos são multados
por infringirem as leis do trânsito,
o Táxi em Movimento
sofre censura por suas cobranças e denúncias.
Há um Táxi sempre em Movimento
ao alcance da nossa mão,
seu combustível é o coração!

Meu carinho ao Jorge Schweitzer do Táxi em Movimento por ser e estar sempre solidário com as injustiças sociais.

Como não sou poetisa pedi um socorro na correção para a amiga Ana Ferreira.

sábado, 30 de julho de 2011

As cinzas e a vida...


"Quanto a mim, não desejo ser enterrado em ataúde. Sofro de claustrofobia. A idéia de ficar trancado numa caixa me causa arrepios. Acho a cremação um lindo ritual. As cinzas, soltas ao vento, lançadas sobre o mar, colocadas ao pé de uma árvore, são símbolos da leveza, da liberdade e da vida."  Rubem Alves, Em defesa das flores, In O amor que acende a lua


Há algum tempo fiz minha declaração de cremação, deixei para minha família a tarefa de escolher o local das minhas cinzas com a recomendação que o lugar escolhido não prejudicasse o meio ambiente.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Juan e Joanna e a indignação da sociedade



PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS

 NOTA PÚBLICA

Sobre a confirmação do assassinato do menino Juan Moraes, no Rio de Janeiro, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República vem a público manifestar:

1 – É inaceitável o homicídio bárbaro de uma criança em qualquer situação. A evidência do envolvimento direto de agentes públicos, que têm a obrigação de zelar pela segurança da população, torna o episódio ainda mais revoltante.

2 – Desde que foi notificada do caso, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República vem cumprindo com o seu papel, acompanhando a investigação e oferecendo proteção à vida dos familiares de Juan. Estes permanecerão sob proteção federal enquanto houver risco à sua integridade física.

3 – O governo brasileiro não tolera esse tipo de crime contra qualquer ser humano. A situação se agrava por se tratar de uma criança que é, segundo a Constituição Federal, prioridade absoluta, que implica primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias.

4 – A expectativa da sociedade brasileira é que sejam tomadas todas as medidas para que os responsáveis não fiquem impunes. Nesse sentido, é fundamental que o governo do estado do Rio de Janeiro atue de forma firme e competente para identificar os responsáveis, a exemplo do que fez no afastamento do delegado que acompanhava o caso e agiu inadequadamente diante dos fatos. O governo federal acompanhará de perto os desdobramentos para garantir justiça e evitar a impunidade.

Brasília/DF, 6 de julho de 2011.


Maria do Rosário Nunes
Ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e Presidenta da Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente




A população do Rio de Janeiro se solidariza com a família do menino Juan e implora a Senhora Ministra a mesma indignação com o Caso Joanna Marcenal.


"A sociedade brasileira não tolera mais a impunidade."
Antonio Carlos Biscaia
Fonte: http://www.biscaia.com.br/site/, acessado em 08 de Julho de 2011 as 16.57.





quinta-feira, 7 de julho de 2011

Ar da graça

Nunca havia pensado na beleza da expressão: “Fulano nem deu o ar da graça”, usada para reclamar a ausência de alguém. O que percebi é que essa não é uma cobrança qualquer. Num mundo de (des)graças cotidianas, queremos uma aparição cheia de graça. Ansiamos por pessoas que saibam nos encantar, que sejam leves e surpreendentes, como um jardim de Monet. Ruidosamente, meu coração me acalanta: cobrar a graça das pessoas é uma síntese da nossa opção pelo bem, é continuar a ter esperança na humanidade.
Larissa Santos Pereira
 Imagem: Adolphe-William Bouguereau

Ao refletir sobre a prosa da autora recordei de quantas pessoas vamos perdendo pelo caminho pela falta de tempo, pelo comodismo de deixar para depois o alô, o chamego, o afeto.
Daqui pra frente cobrarei o ar da graça dos que me aconchegam o coração e prometo dar o ar da minha graça mais vezes procês.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Neste mesmo instante...

Neste mesmo instante
há um homem que sofre,
um homem torturado
tão somente
por amar a liberdade.

Ignoro onde vive,
que língua fala,
de que cor é a sua pele,
como se chama,
mas neste mesmo instante,
quando os teus olhos lêem
o meu pequeno poema,
esse homem existe,
grita,
pode-se ouvir o seu pranto
de animal acossado,
enquanto morde os lábios
para não denunciar os amigos.

Ouves?
Um homem, só, grita
amarrado,
existe em algum lugar.
Eu disse só?
Não sentes, como eu,
a dor do seu corpo
repetida no teu?
Não te brota o sangue
sob os golpes cegos?

Ninguém está só.
Agora,
neste mesmo instante,
também a ti e a mim
nos mantêm amarrados.

José Agustín Goytisolo
Tradução de Antonio Miranda

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Um Basta na politicagem rasteira que se pratica no Brasil

Que venha o novo referendo pelo desarmamento. Votarei não, como da primeira vez, e quantas forem necessárias. Até que os governos federal, estaduais e municipais, cada qual em sua competência, revoguem as leis que protegem bandidos, desarmando-os e prendendo-os; invistam nos sistemas penitenciários, impeçam a entrada ilegal de armas no país e entendam que não lhes cabe desarmar cidadãos de bem. Nesse ínterim, proponho que outras questões sejam inseridas no referendo:
  • Voto facultativo? Sim!
  • Dois senadores por estado? Sim!
  • Reduzir pela metade o número de deputados e de vereadores? Sim!
  • Acesso a cargos públicos exclusivamente por concurso? Sim!
  • Reduzir os 37 ministérios para 12? Sim!
  • Cláusula de bloqueio para partidos nanicos sem voto? Sim!
  • Fidelidade partidária absoluta? Sim!
  • Férias de apenas 30 dias para todos os políticos e juízes? Sim!
  • Ampliação do Ficha-Limpa? Sim!
  • Fim das mordomias de integrantes dos Três Poderes, nas três esferas? Sim!
  • Cadeia imediata para quem desviar dinheiro público? Sim!
  • Fim dos suplentes de senador sem votos? Sim!
  • Redução para um terço dos 20 mil funcionários do Congresso? Sim!
  • Voto em lista fechada? Não!
  • Financiamento público das campanhas? Não!
  • Horário Eleitoral obrigatório? Não!
  • Maioridade penal aos 16 anos para quem tirar título de eleitor? Sim!
  • Um Basta! na politicagem rasteira que se pratica no Brasil? Sim!

Gil Cordeiro Dias Ferreira, Carta publicada no jornal O Globo, edição de 18 de abril de 2011.

Quando li a carta do Sr. Gil pensei com meus botões: "Essa é uma obra que eu gostaria de ter escrito".

Lembrando o historiador Capistrano de Abreu:

"Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara."

Artigo único da Constituição proposta em 1926 pelo historiador Capistrano de Abreu, segundo o qual os problemas do Brasil não estavam nas leis. Revista Nossa Historia, n.3, ano 1, janeiro 2004

domingo, 26 de junho de 2011

Eu digo NÃO!

“Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.“
Manuel Alegre

 Joanna Marcenal no seu aniversário de 5 anos

Como o poeta eu continuo a dizer NÃO para a injustiça que reina no Rio de Janeiro. Além do nariz de palhaço agora nos oferecem orelhas de burros.
Diga NÃO ao corporativismo, aos desmandos, a liberdade dos assassinos de Joanna Marcenal.
Assine a petição e se puder compartilhe o link.


Mais informações: Blog Caso Joanna Marcenal

Veja também:
Passividade

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tradutor de Chuvas


Tradutor de Chuvas

Um lenço branco
apaga o céu.

A fala da asa
vai traduzindo chuvas:
não há adeus
no idioma das aves.

O mundo voa
e apenas o poeta
faz companhia ao chão.

Mia Couto, Tradutor de Chuvas, Editora Caminho.

“Quando começo a escrever a poesia surge-me como um estorvo.” Mia Couto em entrevista ao JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Portugal

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Disse meu anjo...

Disse meu anjo...

Quando eu nasci não apareceu um anjo torto como o de Drummond que dissesse: “Vai, Regina! Ser gauche na vida”.

Sequer apareceu o anjo safado do Chico para decretar que eu estava predestinada a ser de todo ruim.

O anjo muito louco, protetor do Torquato Neto, também não se fez presente para dizer que eu deveria desafinar o coro dos contentes.

O meu anjo, um maluco beleza, parceiro do anjo esbelto da Adélia Prado também me disse que mulher é desdobrável.

E acrescentou:
Vai, Regina,
Vai aprender o prazer de ser alegre,
Vai aprender o poder do afeto,
Vai aprender a ter um olhar generoso com aqueles que sofrem,
Vai aprender com seus alunos e pacientes,
Vai aprender a ser solidária,
Vai aprender a ser amiga, parceira e companheira,
Vai aprender com a sabedoria dos mais velhos e dos mais novos,
Vai aprender a ser mãe,
Vai aprender a gostar de poesias, mesmo que não seja poeta,
Vai aprender a respeitar as diferenças.
Vai lutar por JUSTIÇA!

Vai, Regina.
Vai aprender a ser gente!
Regina Coeli Carvalho


Esclarecimento necessário: Nunca ativei moderação de comentários, pois as pessoas que visitam meus blogs são pessoas de bem e de um modo geral comungamos das mesmas idéias poéticas.
Não aceito que alguém leia um comentário meu em outro blog sobre um caso de justiça e, querendo aparecer, faça comentários dispensáveis e inconvenientes sobre o que escrevi. Quer dar sua opinião, dê então por lá.
Continuarei a lutar por Justiça no Caso Joanna Marcenal e aqueles que querem ser defensores dos assassinos, que o façam com argumentos, pois meu embasamento se encontra nos laudos do IML e no processo judicial.



segunda-feira, 13 de junho de 2011

A orla se vestiu de vermelho

Era adolescente quando, em 1968, participei da missa de sétimo dia do estudante Edson Luis - morto no restaurante do Calabouço - com a Igreja da Candelária cercada pela cavalaria da polícia e, posteriormente, da passeata dos 100 mil.

Em 1979, acompanhei a passeata pela anistia aos presos e exilados políticos.
Em 1984, marchei, também, pelas Diretas Já!

Ontem, 12 de Junho, revivi todos esses momentos na passeata em apoio aos Bombeiros.



A orla se vestiu de vermelho, a população não mostrou somente seu apoio à causa dos bombeiros, mas principalmente seu descontentamento com o desgoverno do nosso Estado.


Inesquecível a união do povo, inesquecível as bandeiras vermelhas tremulando nas janelas, inesquecível o som das buzinas dos carros, inesquecível a música de fundo, inesquecível a mobilização de uma sociedade que começa a se organizar para reivindicar seus direitos.


Inesquecível, também, a chegada dos bombeiros, no sábado, na Praça XV, vindos de Niterói após serem libertados. Assisti a esse momento emocionante por acaso. Estava na feira de antiguidades quando a turma chegou. O povo aplaudia, eles choravam.

Senti falta dos nossos jovens, caras pintadas. Parece-me que nossa linda juventude se encontra tão desiludida dos políticos que não se sente encorajada a participar de mobilizações sociais.

Para mostrar que juventude é uma questão de espírito essa senhorinha se deixou fotografar para registrar que ela também quer um Rio mais forte, com melhores salários e mais dignidade.


Fotos: Regina Coeli Carvalho

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Por onde caminham nossos pés?

6ª feira por volta das 18h atravesso o Largo do Machado e ouço ao longe alguém cantando “Borbulhas de Amor”. Procuro de onde vem àquela voz e, surpresa, descubro o Carlos Rogério.


Paro admirada e espero o término da música, compro um CD e lhe pergunto se posso voltar no sábado para o fotografar para o blog e divulgar seu trabalho. Ele sorri, diz que sim, nos despedimos e volto para casa com mais uma lição de vida. Sigo pensando por onde caminham nossos pés.

Sábado, levei Clara a tiracolo para fotografar o Carlos. Ele contou-me um pouco de sua vida.


É natural do Espírito Santo, chegou ao Rio de Janeiro na década de 70 e começou a gravar seus CDs em 1990.

Costuma se apresentar no Calçadão de Campo Grande, na Praça Saens Pena, no Largo da Carioca e no Largo do Machado.

Enquanto conversamos, Clara o fotografava - e as pessoas paravam para o ouvir e admirar sua destreza em autografar seus CDs com os pés.


Carlos Rogério Rocha, além de bom cantor, é um exemplo de persistência, dignidade, alto astral e superação.

Percebo sua cadeira de rodas um tanto gasta e ele me conta que foi produzida por ele para transportar seu equipamento musical.

Trocou as rodas originais por rodas de moto para suportar o peso, soldou com os pés as placas onde acondiciona os CDs, o alto-falante e mais sua bagagem.


Seus pés me conduziram a uma viagem para o meu interior. Por onde tenho caminhado? Como uso meus pés? Pisam com delicadeza? Superam obstáculos?

Algumas perguntas ainda sem respostas. Somente uma certeza; pés podem ser poéticos, como são os pés do Carlos Rogério.


Como ele não tem acesso à internet, prometi que iria imprimir a postagem e levar juntamente com as fotos para presenteá-lo.

Se você quiser o ouvir cantar e adquirir seu CD, seu telefone de contato é (21) 93159137.

22 de Maio de 2011

Fotos: Anna Clara Carvalho

Veja também: Cata-Vento

sábado, 28 de maio de 2011

Um mais um é sempre mais que dois


Na 5ª feira fizemos uma panfletagem em todo o Rio de Janeiro. Foram distribuídos 20.000 panfletos em vários bairros da cidade.
Estivemos com um grupo em frente à Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, onde Cristiane Marcenal foi recebida pela Comissão de Direitos Humanos para ser informada dos procedimentos tomados pelo grupo.
Recebemos apoio da população mostrando solidariedade ao nosso grito por justiça.
Fomos procurados por algumas pessoas com relatos de casos semelhantes, felizmente sem o final infeliz que teve a Joanninha.
Alguns funcionários do Tribunal de Justiça passaram por lá para dar seu apoio à causa e prestar solidariedade a Cristiane e sua dor.

Se você ainda não assinou a petição clique aqui, lembrando a canção de Beto Guedes: “Vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois”.

Ana Maria Braga mostrou no seu “Mais Você” como é a rotina da mãe de Joanna Marcenal, um ano após ter sido arrancada de seu convívio para nunca mais voltar.

 Depoimento completo do Caso Joanna Marcenal
Cristiane Marcenal Ferraz fala na Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do RJ ( ALERJ), no dia 08/04/2011.

Parte I
Parte II
Parte III